Ó, Sean Duffy, onde estás tu, Sean Duffy?

Em fevereiro, o deputado republicano do Wisconsin disse a Alysyn Camerota, da CNN, que os terroristas brancos de extrema-direita não eram uma ameaça tão grande aos americanos quanto os “islamistas” e “jihadistas”. Por quê? “Não sei, mas eu diria que há uma diferença”, afirmou Duffy. Em seguida, o deputado classificou como “fato isolado” o ataque a uma mesquita no Quebec, praticado por um nacionalista branco partidário de Donald Trump, no qual seis muçulmanos morreram.

“Fato isolado”? Sério? Será que Duffy não tem acompanhado o noticiário ultimamente? No dia 20 de maio, Richard Collins III, segundo-tenente do exército americano, negro de 23 anos, foi assassinado durante uma visita à Universidade de Maryland por um membro de um grupo do Facebook autodenominado “Alt-Reich: Nation”. De acordo com o chefe de polícia da universidade, David Mitchell, o grupo promove uma “abominável discriminação” contra minorias, “principalmente afro-americanos”.

QUEBEC,CANADA - JANUARY 29: Canadian security forces patrol after a shooting in the Islamic Cultural Centre of Quebec in Quebec city on January 29, 2017. Five people are dead and a number of others wounded in a shooting at a mosque in Quebec City, the facility's president told media late Sunday. (Photo by Renaud Philippe/Anadolu Agency/Getty Images)

Forças de segurança canadenses patrulham o local do atentado ao Centro Cultural Islâmico do Quebec, na cidade de Quebec, no dia 29 de janeiro de 2017.

Foto: Renaud Philippe/Anadolu Agency/Getty Images

No dia 26 de maio, o veterano do exército dos EUA Rick Best, de 53 anos, e o recém-formado Taliesin Myrddin Namkai-Meche, de 23, morreram esfaqueados por um supremacista branco ao tentarem defender uma muçulmana que estava sendo hostilizada em um trem na cidade de Portland. No mesmo ataque, o poeta de 21 anos Micah David-Cole Fletcher ficou gravemente ferido.

Por que Duffy não voltou à CNN para denunciar esses terríveis atos de terrorismo doméstico? Por que o Partido Republicano e a imprensa conservadora não estão alertando o eleitorado contra a ameaça do terrorismo de pele branca e ideias de extrema-direita?

Imaginem a enxurrada de tuítes de Donald Trump se dois soldados dos EUA – um da ativa, outro da reserva – tivessem sido mortos em território americano por terroristas islâmicos em apenas uma semana. Qual não seria a cobertura da Fox News se um fanático muçulmano tivesse cortado a garganta de três bons samaritanos que tentavam proteger duas mulheres indefesas no trem de Portland?

Já chega de acusar aqueles que denunciam a ameaça dos supremacistas brancos de extrema-direita de desviar a atenção do público do Estado Islâmico e da Al Qaeda. Não podemos ser acusados de apologia ao islamismo.

Essa verdadeira máquina de políticos, comentaristas e autodenominados “especialistas em segurança” não pode mais minimizar a ameaça terrorista que vem de grupos americanos de extrema-direta, ao mesmo tempo em que exagera o perigo representado pelo jihadismo internacional.

Façamos uma comparação: os terroristas islâmicos são caracterizados como fanáticos de olhar feroz que matam em nome de sua religião ou ideologia. Já os terroristas de extrema-direita – como o assassino de nove fiéis de uma igreja em Charleston, no estado da Carolina do Sul, em 2015, ou o homem que matou, em 2012, seis sikhs em um templo no Wisconsin, o estado do próprio Duffy – são quase sempre descritos como “desequilibrados mentais”. Após o duplo homicídio de Portland, o porta-voz da polícia local, Pete Simpson, logo declarou: “Não sabemos se o suspeito tem problemas mentais”. Não é incrível como nós, muçulmanos, parecemos ser imunes aos tais “problemas mentais”? Graças a Alá!

CHARLESTON, SC - JUNE 22:  Alana Simmons leaves a message on a board set up in front of the Emanuel African Methodist Episcopal Church after a mass shooting at the church killed nine people, on June 22, 2015. 21-year-old Dylann Roof is suspected of killing nine people during a prayer meeting in the church in Charleston, which is one of the nation's oldest black churches. (Photo by Joe Raedle/Getty Images)

Alana Simmons deixa uma mensagem em um quadro diante da Igreja Metodista Episcopal Africana Emanuel em homenagem às vítimas do massacre que deixou nove mortos em 17 de junho de 2015. (foto de 22 de junho de 2015).

Foto: Joe Raedle/Getty Images

Atualmente, o terrorismo dos grupos supremacistas brancos é uma ameaça da qual não se ousa falar. Líderes conservadores – e até certos liberais – tendem a minimizar o perigo e desviar a nossa atenção para o que o presidente Trump chama de “terrorismo islâmico radical”.

Porém, os números não mentem – ao contrário dos islamofóbicos. Um recente relatório encomendado pelo Congresso americano ao Government Accountability Office (órgão equivalente à Controladoria Geral da União, no Brasil), afirma: “Desde 12 de setembro de 2001, o número de mortes causadas por extremistas domésticos variou entre 1 e 49 a cada ano. (…) O número de mortes causadas por terroristas de extrema-direita foi superior às provocadas por extremistas islâmicos em 10 dos 15 anos analisados e igual em três”. Ora, vejam só.

O relatório prossegue: “Dos 85 incidentes de violência terrorista com vítimas fatais desde 12 de setembro de 2001, 62 (73%) foram causados por grupos de extrema-direita; grupos extremistas islâmicos radicais foram responsáveis por 23 (27%)”. A proporção é de quase três para um.

O documento observa que “o total de mortes provocadas por grupos de extrema-direita e islamistas radicais nos últimos 15 anos foi praticamente o mesmo”. O terrorismo islâmico causou 119 mortes, contra 106 dos grupos de extrema-direita. No entanto, o relatório também reconhece que “41% das mortes atribuídas ao terrorismo islâmico ocorreram em apenas um ataque – o atentado a uma boate em Orlando, na Flórida, em 2016”.

Aparentemente, os terroristas islâmicos são mais letais em seus ataques, mas os terroristas de extrema-direita cometem atentados nos EUA com muito mais frequência. Diversos estudos e relatórios – da New America Foundation ao Centro de Combate ao Terror de West Point – corroboram o relatório da Controladoria americana. Um grupo de pesquisadores chegou até a afirmar que “comparados aos islamistas, os radicais de extrema-direita têm muito mais chances (…) de desenvolver uma maior devoção à sua ideologia”.

Seguindo a mesma lógica, as agências de segurança americana, de acordo com uma pesquisa do Centro Triangle de Estudos de Terrorismo e Segurança Nacional, “consideram os extremistas antigoverno – e não os muçulmanos radicais – como a mais grave ameaça de violência politicamente motivada nos EUA”.

Mas isso não importa para o deputado Duffy, e tampouco para o nosso novo presidente republicano. Como fomos informados pela Reuters em fevereiro, menos de duas semanas depois da posse de Donald Trump, a Casa Branca declarou que iria “reformular e renomear um programa do governo criado para enfrentar todo tipo de ideologia violenta, direcionando-o exclusivamente ao combate ao extremismo islâmico (…), deixando de visar grupos como os supremacistas brancos, que também já realizaram atentados nos Estados Unidos”.

A notícia foi recebida com festa pela extrema-direita. “Donald Trump está nos libertando”, escreveu Andrew Anglin, editor do website neonazista Daily Stormer.

O presidente americano cita repetidamente páginas de supremacistas brancos, como a conta de Twitter “WhiteGenocideTM” (“Genocídio Branco”, em português); nomeou um nacionalista branco como um de seus delegados na Califórnia; aceitou doações de campanha de líderes nacionalistas brancos; designou um deles como chefe de estratégia da Casa Branca; e recebeu o apoio oficial da Ku Klux Klan. Então por que ele faria vista grossa ao terrorismo doméstico cometido por supremacistas brancos e nacionalistas que colocam a vida de americanos em perigo?

Por que será?

Foto do alto da página: Uma jovem tenta consolar um homem em prantos do lado de fora do tribunal, após uma audiência com Jeremy Christian, em 30 de maio de 2017. Christian será julgado por homicídio e outros crimes depois de ter esfaqueado três pessoas em um trem em Portland.

Tradução: Bernardo Tonasse