Mais do que o desfecho, entrará para a história a forma como ocorre o julgamento da cassação da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral. Existem muitas formas de contar o imbróglio, a depender da perspectiva observada. Nenhuma favorece qualquer um dos lados que, até ontem, apontava a arma um para o outro como na famosa cena de “Cães de Aluguel”, o sangrento filme de Quentin Tarantino; ao primeiro gatilho, todos seriam alvejados.

A artilharia foi armada ao fim da eleição de 2014, quando o candidato derrotado Aécio Neves, então presidente do PSDB, apontou irregularidades nas prestações de contas de campanha apresentadas por Dilma, acusada de receber recursos do esquema de corrupção investigado na Operação Lava Jato, e pediu a anulação do pleito.

A estratégia servia para “encher o saco” do PT, conforme confidenciou o agora senador afastado ao amigo Joesley Batista, dono da JBS. Era uma coisa que, imaginava, não iria até o fim.

Mas foi. As conveniências mudaram, a ação seguiu. E, ao ser julgada, colocou sob risco um governo que, mais de dois anos após a eleição, o próprio PSDB passou a integrar com direito a abraços calorosos no dia da posse e quatro ministérios: o das Cidades, das Relações Exteriores, dos Direitos Humanos e a Secretaria de Governo.

Entre os apoiadores de uns e outros, a expectativa do julgamento agora constrange tanto os tucanos, autores da ação, que saíram às ruas com a camisa “A culpa não é minha, eu votei no Aécio” quanto os petistas que entoaram o “Fora, Temer” em manifestações recentes, passando pelos peemedebistas, aliados de qualquer lado a depender da ocasião.

O silêncio das partes (não) interessadas em suas redes durante as sessões dava o tom do constrangimento.

Há menos de um ano, durante o impeachment de Dilma Rousseff, Aécio acusava a adversária de vencer as eleições “faltando com a verdade e cometendo ilegalidades”; gabava-se de a ação no TSE ter sido aberta após perícias e “inúmeras ilegalidades” levantadas. No julgamento, porém, evitou reforçar a artilharia para não acertar o novo aliado. Seu último pronunciamento nas redes sociais, no início do mês, era uma nota em que se defendia da denúncia do procurador-geral da República.

O julgamento no TSE também não mereceu até agora atenção entre as postagens no Twitter de seu partido, o PSDB. Enquanto os juízes avaliam as suspeitas sobre Dilma e Temer, o até ontem aguerrido partido de oposição optou por lembrar os seguidores que a incitação à violência é prática recorrente entre petistas e que a reforma trabalhista, apoiada pela gestão Temer, não retirará direitos dos trabalhadores.

No perfil do PMDB, o presidente da sigla, senador Romero Jucá (RR), defensor, à boca pequena, de um grande acordo nacional, com Supremo, com tudo, para delimitar a ação da Lava Jato, protagonizava um vídeo sobre crédito agrícola, e o presidente do Senado, Eunício Oliveira (CE), destacava a importância de manter as pautas de interesse do país no Congresso. Ambos são alvos de delatores na Lava Jato.

Sobre o julgamento do colega que prometia unificar o país e da antecessora, nenhuma linha.

O perfil do PT, por sua vez, destacava o desmonte da CLT pelo governo que o traiu e chamava nova greve geral em favor do “Fora Temer” – a pauta do dia, aliás, no TSE.

Alvos do processo, Temer postava em seu perfil notícias relacionadas à agenda do dia (reunião do Gabinete de Segurança Institucional e anúncio de crédito rural) e Dilma negava, em postagem de 2 de junho, manter conta na Suíça – Lula, seu padrinho político, comemorava, em seu perfil oficial, a liderança em uma pesquisa Vox Populi de intenção de voto.

Engajados em “varrer” a corrupção do país até o impeachment de Dilma, os militantes do MBL até chegaram a postar um link para o julgamento, desta vez sem nenhum meme ou trocadilho lacrante sobre os suspeitos de sempre. Em vez disso, optavam por denunciar a “perseguição” de Maria do Rosário (PT-RS) ao apresentador Danilo Gentili, alertar sobre a situação política na Venezuela e tirar onda da dura vida da socialista Maria do Rosário em uma viagem a Nova York.

O titubeio faz sentido: defender o governo das reformas apoiadas pelo movimento significa ajudar a preservar os direitos políticos de Dilma; lutar pela cassação dos direitos da petista era lutar pelo naufrágio das propostas da gestão peemedebista.

Enquanto isso, o governo Temer, espécie de porta-giratória entre projetos opostos na eleição de 2014, tinha o futuro decidido em uma sessão marcada pelo antagonismo entre seu amigo Gilmar Mendes, presidente da corte com quem não se constrange em participar de reunião e jantares, e o relator da ação, ministro Herman Benjamin.

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Herman Benjamin e Gilmar Mendes durante a sessão de terça-feira, dia 6, em que trocaram farpas no TSE.

Roberto Jayme/Ascom/TSE

O primeiro chegou a classificar de “falacioso” um argumento do relator sobre uso de testemunhas e documentos no decorrer do processo, o que poderia complicar a situação do amigo. Já o segundo deu a resposta mais dura ao colega que ironizava o fato de estar “brilhando” na TV naquele momento.

“Vossa excelência sabe que eu prefiro o anonimato, muito mais. O processo em que se discute condenação de A, B, C ou D, em qualquer natureza, não tem e não deve ter nenhum glamour pessoal”, disse ele, com a saúde visivelmente debilitada.

Até o fechamento deste texto, ninguém havia batido panelas ou entoado nas janelas cantos como “Herman, guerreiro do povo brasileiro”.

O silêncio dos que berravam até ontem, resultado talvez de um tilt com uma ação que em Brasília interessava a todos e já não beneficiava ninguém, era o silêncio dos alvejados em um desfecho tarantinesco da cena.

Foto em destaque: Michel Temer com Aecio Neves durante sua posse no Senado, em Brasília, em 31 de Agosto de 2016.