O famoso estrategista republicano Frank Luntz escreveu, em 2009, um memorando direcionado à bancada republicana do Congresso. Nele, Luntz dava conselhos sobre a melhor maneira de se opor ao projeto de lei democrata de reforma do sistema de saúde, que ficaria conhecido como Obamacare. “Parem de falar de teoria econômica”, afirmou ele, usem “as palavras certas” e apresentem uma alternativa conservadora viável. “Não basta dizer a que você se opõe”, orientou Luntz. “Você tem de explicar o que defende”.
Oito anos depois, o jogo mudou. Os democratas passaram as últimas semanas tentando barrar o Trumpcare — um projeto de lei dos republicanos do Senado que ainda não tem data para ser votado e cujo objetivo é revogar e substituir o Obamacare. A proposta foi rechaçada por uma vasta gama de organizações de saúde apartidárias, como a American Medical Association (AMA) e a American Academy of Pediatrics (AAP). De acordo com a agência independente Congressional Budget Office (CBO), que realiza estudos e análises para o Congresso americano, a aprovação do Trumpcare levaria 22 milhões de pessoas a ficar sem plano de saúde até 2026.

Pesquisadores de Harvard alertam que a falta de cobertura de saúde pode significar um aumento de 217 mil mortes ao longo da próxima década.

Como fomos chegar a esse ponto? Pesquisadores de Harvard alertam que a falta de cobertura de saúde pode significar um aumento de 217 mil mortes ao longo da próxima década. E parte da culpa é dos democratas, que não deram bola para os conselhos de Luntz aos republicanos.

Em primeiro lugar, faltaram “as palavras certas” para defender o Obamacare. Por exemplo, quantos americanos se importam em saber ou entender o que é o individual mandate, espécie de adesão mínima compulsória ao sistema de saúde? Quantos conhecem os exchanges, serviço de atendimento que ajuda famílias a encontrar planos de saúde acessíveis? E a “opção pública”? Esses termos técnicos mais confundem do que esclarecem. E acabam favorecendo o lado republicano, que tem feito de tudo para garantir que a opinião pública entenda o sistema de saúde apenas de uma perspectiva partidária.

Só lembrando, um em cada três americanos não está ciente de que não há diferença entre o Obamacare e a Affordable Care Act (ACA), a lei de acesso aos serviços de saúde. Não sabem que significam exatamente a mesma coisa. Muita gente responde às pesquisas dizendo gostar da ACA, mas não do Obamacare. (Não é estranho a opinião de tantos americanos mudar se você coloca o nome que soa estrangeiro de um homem negro no meio?)

Em segundo lugar, os democratas vêm deixando passar várias oportunidades de apresentar à sociedade alternativas inclusivas de saúde, capazes de garantir cobertura para todos os americanos (contrariamente ao Obamacare, que deixa cerca de 27 milhões de pessoas descobertas). Durante as primárias democratas, Hillary Clinton chegou a dizer que um sistema totalmente público e universal “nunca, jamais passaria” no Congresso. Animador, né?

Os que estão mais à esquerda, como Bernie Sanders e Elizabeth Warren (esta, com um certo atraso), defendem uma alternativa progressista ao Trumpcare e ao Obamacare, na forma de um sistema de saúde universal, totalmente financiado e garantido pelo governo. É uma alternativa clara e envolvente, mas que ainda não encontrou uma maneira clara e envolvente de se apresentar. Por exemplo, de acordo com uma pesquisa realizada em fevereiro de 2016 pela Kaiser Family Foundation, “quase dois terços (64%) dos americanos dizem reagir positivamente ao termo ‘Medicare para todos’ e a maioria (57%) afirma o mesmo em relação à expressão ‘cobertura de saúde universal e garantida’. No entanto, uma parcela menor reage positivamente a ‘sistema público de seguro saúde’ (44%) ou a ‘medicina socializada’ (38%)”.

Na ausência das palavras certas, a ignorância se prolifera.

Ainda de acordo com a mesma pesquisa, “cerca de metade (53%) dos democratas diz reagir de maneira muito positiva a ‘Medicare para todos’, enquanto apenas 21% afirmam o mesmo para ‘sistema público de seguro saúde’. Só para ficar bem claro: “Medicare para todos” e “sistema público” se referem… a mesma coisa.

Por que os progressistas não passam a chamar sua proposta de sistema público financiado pelo Estado simplesmente de “acesso universal à saúde”? Ou “saúde para todos”?

Então vamos ficar com “Medicare para todos”, certo? Melhor do que “sistema público”, que soa burocrático e tedioso? Talvez. Mas, contrariamente ao que parte da esquerda pensa, usar a palavra Medicare para defender um sistema no qual o governo cobre o custo de todas as demandas de saúde pode não ser a bala de prata para convencer os eleitores. Afinal, nem todos associam Medicare ao governo. Durante o verão de 2009, câmaras municipais anti-Obamacare estavam cheias de cartazes “Deixe o governo longe do meu Medicare”. Uma pesquisa realizada em agosto de 2009 mostrou que 39% dos americanos queriam que o governo “não se metesse no Medicare” – o que, claro, é impossível.

Por que os progressistas não passam a chamar sua proposta de sistema público financiado pelo Estado simplesmente de “acesso universal à saúde”? Ou “saúde para todos”? Há dez anos, San Francisco lançou o “Healthy San Francisco”, um sistema financiado pelo governo e com altíssimos índices de aprovação. Que tal se Sanders, Warren et al lutassem por uma versão federal, a “Healthy America”?

Nomes e palavras importam, e muito. Por que os conservadores acabam sempre ficando com os melhores slogans? Enquanto britânico residente nos Estados Unidos, não posso deixar de sentir saudades do National Health Service (NHS), o Serviço Nacional de Saúde, que consegue ser mais popular entre os britânicos do que a família real e as forças armadas.

Supporters of Britain's National Health Service hold a banner reading 'Go for it America our National Health Service is a blessing for all' in a demonstration outside the U.S. Embassy in London, Wednesday, Aug. 19, 2009.  The demonstration is intended to send a message to the citizens of U.S. where President Barack Obama is trying to introduce a government run national health plan but the plan's opponents have been vociferous claiming the British National Health Service does not work. (AP Photo/Sang Tan)

Defensores do National Health Service mostram faixa com os dizeres “Vai fundo, América. Nosso serviço de saúde é uma bênção para todos nós”, durante manifestação em frente à embaixada dos Estados Unidos em Londres, em 2009.

Foto: Sang Tan/AP

Por quê? Não é só porque “análises comparativas mostram que o NHS supera outros países, inclusive os EUA, em termos de qualidade de cuidados, eficiência, acesso, igualdade”, para citar o economista Andrew Street, especialista em saúde. Nunca houve dúvidas sobre o que é o NHS e o que a sigla significa. Não existe “adesão mínima obrigatória” nem o conceito de “condições médicas preexistentes”. Conforme explicou em 1948 Aneurin Bevan, o lendário ministro da Saúde do partido trabalhista, o NHS tem por base três princípios fundamentais: atender as necessidades de todos, ser gratuito no momento da prestação do serviço e se orientar pela necessidade do paciente, não por sua capacidade de honrar pagamentos.

Se todos os outros países industrializados conseguem garantir assistência médica para todos os seus cidadãos, por que os Estados Unidos não conseguem?

Governos britânicos de direita e de esquerda aderiram a esses princípios. Quase 70 anos após a criação do serviço de saúde, o primeiro-ministro David Cameron, do Partido Conservador, falou sobre a “mágica” do NHS: “Você não precisa apresentar sua carteira ou seu cartão de crédito. Você poderá ter um ótimo tratamento porque é um direito básico do britânico o acesso ao Serviço Nacional de Saúde, gratuito no momento do atendimento e disponível para todos os que dele precisarem”.

Consegue imaginar um líder republicano nos Estados Unidos dizendo que cuidados de saúde gratuitos são um “direito básico” dos americanos? Cadê a pressão em cima dos republicanos para que passem a defender esse tipo de coisa? Os democratas deveriam seguir o exemplo dos britânicos. O NHS é consenso na política britânica porque se baseia em princípios simples e populares. A complexidade é inimiga do progresso.

Em fevereiro deste ano, o presidente Trump foi ridicularizado por ter dito, durante um encontro com governadores na Casa Branca, que a reforma da saúde era “um assunto incrivelmente complexo. Ninguém sabia que o sistema de saúde era tão complicado”.

“Ninguém sabia” é uma bravata ignorante típica de Trump. Mas voltando: por que o sistema de saúde é um assunto tão incrivelmente complexo? Se todos os outros países industrializados conseguem garantir assistência médica para todos os seus cidadãos, por que os Estados Unidos não conseguem? Se o Ocidente inteiro trata cuidados de saúde como um direito, não como um privilégio, por que os Estados Unidos fazem diferente? Se países como o Reino Unido ou o Canadá conseguem manter um sistema de saúde gratuito viável e popular, por que os Estados Unidos não conseguiriam?

Essas são as perguntas, muito simples e muito diretas, que os democratas deveriam estar fazendo a seus opositores republicanos – e ao povo americano também.

Têm de perguntar uma vez.

E uma segunda vez.

E mais uma vez.

E de novo.

Foto em destaque: manifestantes se reúnem perto da Trump Tower, em Chicago, para protestar contra a revogação da Affordable Care Act (24/03/2017).