Durante o encontro do G20 em Hamburgo, no último sábado, o presidente norte-americano Donald Trump decidiu não participar de um debate sobre o que os líderes das 20 maiores economias do mundo poderiam fazer para ajudar países africanos a melhorar a qualidade de vida dentro de suas fronteiras – e evitar que seus cidadãos arrisquem suas vidas para emigrar para a Europa.
Não faltava membro do gabinete para tomar o lugar de Trump na cadeira entre o presidente da China, Xi Jinping, e a primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May.A delegação norte-americana que foi a Hamburgo contava com o secretário de Estado Rex Tillerson, que é o quarto na linha de sucessão, o secretário do Tesouro Steven Mnuchin, o secretário do Comércio Wilbur Ross e o conselheiro de segurança nacional H.R. McMaster.
O fato de Trump ter escolhido sua filha Ivanka para se sentar à mesa de negociações com outros 19 chefes de Estado talvez seja a prova mais clara e chocante de que ele não vê a completa falta de experiência dela em assuntos de Estado como uma barreira para tratá-la como se fosse sua vice.

Tuíte do editor da BuzzFeed News Alberto Nardelli: “Parece que Ivanka Trump se sentou à mesa de líderes do #G20 hoje de manhã no lugar do presidente dos EUA Donald Trump. Fonte: ‘Inacreditável!!!'”

Uma foto compartilhada no Twitter (e mais tarde apagada) por Svetlana Lukash, representante do presidente russo Vladimir Putin no G20, confirmou a presença da primeira-filha na mesa principal.

Tuíte de Svetlana Lukash, representante russa no G20: “E substitui Pres. Trump à mesa do #G20 depois que ele se retirou para reuniões bilaterais”.

A imagem mostra a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente da Turquia Recip Tayyip Erdogan sentados próximos à primeira-filha.
Um funcionário da Casa Branca tentou minimizar o incidente e afirmou à agência France-Presse que Ivanka tinha apenas “participado momentaneamente da mesa principal após o presidente ter se retirado”.
No entanto, outro membro do governo que estava na sala disse à Bloomberg News que ela tomou o lugar de Trump em pelo menos duas outras ocasiões.
Ao ser questionada sobre o ocorrido, Merkel, que conseguiu a proeza de ser eleita para o cargo mais importante da Alemanha sem ser herdeira de um magnata, minimizou o incidente.

Ela trabalha na Casa Branca e participa de algumas iniciativas” – Angela Merkel sobre a presença de Ivanka Trump na mesa de líderes.

Já alguns norte-americanos não se mostraram tão dispostos a relevar o episódio descarado de nepotismo.

Tuíte de Xeni Jardin: “Eu não votei em Ivanka. Ninguém votou. Não é assim que mulheres íntegras querem ver outras mulheres representadas na política. Isso é corrupção”.

Tuíte de Steven Pasquale: “Designer de bolsas, não-eleita e não-qualificada, senta-se à mesa como se fosse igual a outros líderes mundiais. Os Estados Unidos nunca fizeram um papel tão ridículo”.

Tuíte de Carrie Cordero: “Ao se meter em reuniões com chefes de Estados @IvankaTrump envergonha servidoras públicas, nossa democracia e a si mesma”.

Tuítes de Anne Applebaum: “Na China, os filhos dos líderes são “princelings” que merecem todo um tratamento especial. Mas mesmo assim não consigo imaginar Xi dando seu lugar no G20 à filha”; “O estilo de Trump está mais para uzbeque… mais para um fim de mundo autoritário do que uma superpotência”.

Tuíte de Amy Siskind: “Esse tipo de coisa acontece o tempo todo. Em ditaduras”.

Tuíte de James Fallows: “Isso seria inimaginável em qualquer governo passado (vice-pres./sec. de Estado/sec. do Tesouro/sec. da Defesa/embaixador etc teria assumido o posto)”.

Tuíte de Terrell J. Starr: “Se Michelle Obama (mais qualificada do que Ivanka) tivesse sentado no lugar de Barack no G10, a mídia e o partido republicano estariam pedindo impeachment”.

Tuíte de Trita Parsi: “Ivanka substituindo Trump no G20 nos lembra que, dia após dia, Trump destrói nossa democracia para transformá-la numa monarquia nepotista”.

Defensores da família Trump tentaram insinuar que a foto teria sido tirada em outro evento ocorrido no mesmo dia e para o qual Ivanka Trump tinha sido convidada – o lançamento do novo fundo do Banco Mundial de apoio a mulheres empreendedoras. Nessa ocasião, ela se sentou entre Jim Yong Kim, presidente do Banco Mundial, e Christine Lagarde, diretora do FMI.

Trump e Merkel também compareceram ao evento, como mostra o vídeo compartilhado pela Ruptly, agência de notícias do governo russo.

Tuíte de Ruptly: “Merkel e Trump se juntam a Ivanka Trump no painel do #G20 sobre empreendedorismo feminino”.

Durante essa reunião, o presidente norte-americano afirmou, lendo anotações: “Tenho muito orgulho da minha filha Ivanka”. Na sequência, ergueu a cabeça e, falando de improviso, sugeriu que seu orgulho estava menos ligado aos feitos da filha do que à sua mera existência: “Sempre tive. Desde seu primeiro dia de vida, posso dizer a vocês, desde seu primeiro dia de vida, ela sempre foi ótima. Uma campeã, ela é uma campeã”.

Logo depois, o homem que herdou a própria fortuna acrescentou, aparentemente sem nenhum senso de ironia: “Se ela não fosse minha filha, tudo seria muito mais fácil para ela”.

Tuíte do BuzzFeed News: “Trump elogia a filha Ivanka, que ocupou seu lugar durante uma sessão do G20: ‘Se ela não fosse minha filha, tudo seria muito mais fácil para ela”.

Foto em destaque: Ivanka Trump, filha do presidente dos Estados Unidos Donald Trump, no início da terceira sessão da reunião do G20 em Hamburgo, Alemanha (08/07/2017).