The Intercept Brasil faz aniversário hoje. Em nosso lançamento, em 2 de agosto de 2016, explicamos  nossos propósitos e objetivos, observando o “desejo dos brasileiros por formas alternativas de jornalismo e reportagem”. Esse desejo é baseado na cruel realidade de que o país “tem sido dominado por um pequeno grupo de poderosas instituições de mídia, sendo que quase todas elas apoiaram o golpe de 1964 e a subsequente ditadura militar de direita de 21 anos seguidos e que o país continua dominado pelo mesmo grupo de famílias extremamente ricas, ainda responsáveis por essa história”.

Estávamos determinados a ser uma plataforma para vozes, perspectivas e eventos cruciais, que foram deliberadamente ignorados e excluídos pelos maiores meios de comunicação do país. Como dissemos em agosto passado: “Em um país notavelmente diverso e plural, a homogeneidade de propriedade da mídia resultou em um cenário jornalístico que sufoca a diversidade e pluralidade de pontos de vista.”

Um ponto central nessa missão era levar esse tipo de jornalismo a todas as partes do Brasil, além de usar nosso status como veículo de notícias internacionais para publicar o nosso trabalho em português e inglês e, assim, destacar o nossas reportagens sobre o Brasil no exterior. Nós prometemos também usar nossa experiência em reportagens sobre vazamentos para ajudar a promover um clima de proteção e transparência de fontes por meio de denúncias anônimas.

Estamos ainda mais entusiasmados com a oportunidade de trabalhar com outros veículos independentes e contribuir com o espírito de um jornalismo que esteve em falta no Brasil por muito tempo.

Consideramos, após um ano, essa missão mais vital do que nunca. Estamos ainda mais entusiasmados com a oportunidade de trabalhar com outros veículos independentes e contribuir com o espírito de um jornalismo que esteve em falta no Brasil por muito tempo. À medida em que a crise política e econômica do país se aprofunda e, uma vez que as eleições de 2018 apresentam uma ampla gama de possibilidades – variando do excitante ao assustador –, a necessidade de um jornalismo agressivo, questionador e verdadeiramente independente será maior do que nunca.

Temos orgulho da talentosa e variada equipe de repórteres, editores e colunistas que reunimos em apenas um ano. Eles produziram uma grande quantidade de investigações exclusivas, de alto impacto e análises perspicazes que ajudaram a moldar o ciclo de notícias, expor a enome corrupção e exigir mudanças.

Na semana passada, nossa investigação das finanças do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, segundo na linha presidencial, forçou o deputado a explicar como ele acabou virando dono de escritórios usados pela Odebrecht e o banco BTG Pactual, fatos antes encobertos. Em maio, a matéria de Cecília Oliveira sobre uma fazenda onde turistas podem ser escravocratas por um dia levou a um acordo de ajustamento de conduta entre a estabelecimento e o Ministério Público. Graças a uma reportagem exclusiva da The Intercept Brasil em janeiro, o Ministério Público ordenou que o governo federal pagasse R$ 10 milhões em indenização a uma tribo indígena violentamente invadida pela Polícia Federal em 2012. O artigo é parte de uma série de 14 matérias produzida em parceria com o site de notícias ambiental norte-americano Mongabay.

Em abril, o Exército brasileiro concordou em acabar com o monopólio da fabricante de armas Taurus no fornecimento de armas de baixo calibre às forças policiais. Os defeitos de fabricação estavam fazendo com que os projéteis disparassem sem que o gatilho fosse puxado e emperrando durante o uso, causando muitas mortes. A investigação do TIB foi a primeira matéria detalhada sobre o assunto, fazendo com que outros veículos também cobrissem o tema.

Uma comissão do Congresso foi instaurada depois de uma matéria exclusiva mostrar, em dezembro de 2016, como uma ferramenta que o governo dizia ser usada para proteger as terras indígenas e reservas ambientais estava sendo usada pela Abin para criar uma megabase de dados para espionar movimentos sociais, sindicatos e outras organizações da sociedade civil.

No ano passado, publicamos duas matérias expondo falhas no cerne de uma importante pesquisa do Datafolha, publicadas pela Folha de S. Paulo: o jornal tentou criar uma falsa impressão de que a maioria dos brasileiros queria Michel Temer como presidente. Os dados reais mostraram que uma grande maioria queria que ele renunciasse. Nossa reportagem sobre o tema  — uma das mais lidas da história do Intercept — causaram uma reprimenda do ombudsman da Folha e um reconhecimento de Datafolha que os dados foram apresentados de modo impreciso.

Nossa colunista Ana Maria Gonçalves foi convidada pelo The Martin E. Segal Theatre Center, em Nova York, para escrever e apresentar um monólogo baseado em seu artigo sobre apropriação cultural e o caso de uma mulher branca usando lenços de estilo africano que se tornou viral. Outro escritor, João Filho, aborda a corrupção e a propaganda da grande mídia brasileira em sua coluna semanal, sempre com grande audiência, suscitando discussões sobre a necessidade de regulação da mídia. E a nossa análise dos eventos de notícias mais importantes do Brasil – dos inúmeros casos de corrupção de Temer, greves gerais no país, as medidas cruéis de austeridade, até a condenação criminal de Lula – proporcionou uma perspectiva única e alternativa que reverberou em plataformas de notícias mundo afora.

A reportagem de Helena Borges sobre a reforma da educação foi impactante e teve grande resultado. A investigação das tentativas dos bilionários de direita para impulsionar a privatização da educação por meio de fundações teve grande audiência e as fundações nos pressionaram para encerrar ou mudar a matéria, mas não conseguiram identificar nenhum erro. Após notar que o Ministério da Educação maquiou estatísticas para reduzir as notas das escolas públicas nas avaliações padrão (atendendo ao desejo do governo para privatizar escolas e cortar gastos), a pasta foi obrigada a refazer as estatísticas e dizer que cometeu um “erro”. Quando o Ministério cometeu um” erro “similar, meses mais tarde, Helena foi a primeira a cobrí-lo.

Isso é apenas uma amostra de por que estamos tão entusiasmados com o time de excelentes jornalistas que reunimos no ano passado e pelas oportunidades e mudanças que podem surgir com um jornalismo independente e bem apoiado. Não só estamos mais decididos do que nunca a continuar com o jornalismo que temos feito, mas também estamos dedicados a expandir nossa equipe e nossa cobertura no próximo ano, buscando mais financiamento – de modo que possamos crescer sem perder nossa independência. Estamos trabalhando para garantir novos fundos de organizações dedicadas a uma imprensa livre e independente, bem como planejar uma campanha de financiamento apoiada por leitores para o final deste ano.

Não só estamos mais decididos do que nunca a continuar com o jornalismo que temos feito, mas também estamos dedicados a expandir nossa equipe e nossa cobertura no próximo ano.

Estamos realmente agradecidos à nossa crescente audiência por permitir que nosso jornalismo tivesse o impacto que teve. Podemos prometer que o segundo ano de nossa existência será construído com o mesmo espírito de independência jornalística, investigações obstinadas e atendimento aos interesses dos nossos leitores.

Sobretudo, continuaremos a dar voz às comunidades e indivíduos que permanecem excluídos pelos grandes meios de comunicação corporativos do Brasil, fazendo o possível para iluminar o que as forças mais poderosas do país estão deixando no escuro. Para nós, esse tipo de responsabilidade e transparência é o objetivo mais nobre do jornalismo e o mais potente fator para o fortalecimento da democracia.