Com tempo contado entre a sobrevida obtida na Câmara e o calendário eleitoral, Michel Temer, retirado do túmulo pelos deputados, não esperou o próprio cadáver esquentar. Dias após a votação, viajou a São Paulo para se encontrar com João Doria (PSDB), prefeito eleito sob as bênçãos de Geraldo Alckmin, seu antigo padrinho com quem, dizem por aí, rivaliza a indicação tucana à Presidência.

Ouviu do presidente, do alto de seus 5% de popularidade, ser alguém com a alma da conciliação e que “compreende como ninguém os problemas do país”, ainda que parte dos problemas do país se acomodem bem debaixo do Minhocão, via pelo qual a companheira do alcaide dizia, até pouco tempo, não saber para que servia. “É um tipo um viaduto, né?”

Os caminhos para Brasília, no entanto, tem rotas alternativas, como o aeroporto. De lá, após ouvir os gracejos de Temer, João Doria voou para Salvador, onde recebeu o título de cidadão soteropolitano e reuniu-se com o prefeito ACM Neto (DEM).

“Não há ovo, não há agressão, não há palavrão que me intimide.”

Ex-apresentador de TV, o prefeito paulistano, que em sete meses de gestão já demonstrou toda sua sensibilidade ao gravar e compartilhar a demissão de auxiliares, desancar jornalistas nas redes, mandar o paulistano acelerar nas marginais sem ligar para as consequências do aumento das vítimas do trânsito ou promover sua “limpeza” na cracolândia, foi atingido por um ovo arremessado em sua direção antes de receber a homenagem em Salvador. Chocou dali, com uma boa ajuda do engajamento torto do arremessador, um discurso pronto para acusar a intransigência da oposição – prontamente nomeada como petista, esquerdista e comunista, para aplausos dos comentaristas de portal preocupados com as insurgências do lado de lá do Muro de Berlim.

“Não há ovo, não há agressão, não há palavrão que me intimide. Ao contrário, saio daqui revigorado, com vontade de lutar pelo Brasil”, disse o tucano.

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Seguranças tentam proteger Doria de chuva de ovos em Salvador.

Mila Cordeiro/Ag. A Tarde/Folhapress

Reparem que o prefeito da maior cidade do país não falou em “lutar por São Paulo”.

Em meio a uma série de manifestações dúbias do tucano sobre suas pretensões eleitorais, as pontas da zona leste e oeste paulistanas parecem ter ficado ainda menores para quem acabava de ser contemplado pelos afagos de Temer e ACM Neto – afagos aparentemente em falta no próprio partido.

Isso possivelmente explica os elogios rasgados ao clã Magalhães, cujo patriarca costumava, entre outros desmandos, violar o sigilo dos painéis de votação no Senado e não se constrangia em usar a estrutura da Secretaria de Segurança Pública da Bahia para realizar escutas telefônicas ilegais contra seus desafetos políticos.

O discurso da “nova” cara da política nacional, ali presentada por Doria e ACM Neto (integrante, aliás, da planilha da Odebrecht), era um aceno de cortesia para um símbolo do século passado.

Uma ponte para dobrar tucanos

Na votação da denúncia da Procuradoria Geral da República, na semana passada, 22 deputados tucanos tomaram posição pró-Temer. Só uma, Bruna Furlan, era de São Paulo, onde o PSDB elegeu todos os governadores desde 1994 e tem hoje mais de um possível candidato a presidente.

Os caminhos até 2018 começam a ser pavimentados. A queda-de-braço pela coroa paulista é o posto de largada.

Temer, que dobrou o Congresso, vê em Doria uma ponte para dobrar os tucanos de São Paulo e, consequentemente, ganhar ali o terreno. Doria, ao que parece, vislumbra nessas pontes uma forma de ganhar o país.

Um é figura desgastada, sem votos ou popularidade; outro é uma figura em ascensão, e tem a seu favor uma matilha eletrônica capaz de atacar qualquer um que se aproxime do protegido – inclusive repórteres dispostos a fazer…reportagem sobre a gestão.

Seja como for, as alianças ensaiadas para 2018, se houver eleição até lá, mostram como é possível criar um mundo paralelo a partir de hologramas no Brasil de 2017.

Doria não teve tempo sequer para mostrar se é um gestor político ou um político gestor, mas já desponta no cenário nacional como o anti-Lula. Tem, para isso, a bênção de outro holograma, um fiador da estabilidade econômica em um país onde só Temer e seus deputados fiéis parecem habitar. Nas ruas, longe dos palácios, o medo do desemprego, sintoma da instabilidade, acaba de atingir 66,1 pontos, quarto maior valor da série histórica iniciada em 1999 pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Na política de hologramas e discursos divorciados da realidade, a mentira é repetida à exaustão até virar slogan. Assim é possível transformar presidente denunciado em “conhecedor” das entranhas do Congresso e mala de dinheiro apreendida em ausência de provas consistentes. Nada estranho a um país que acaba de ver os responsáveis por um consistente mar de lama em tamanho real em Mariana (MG) virarem vítimas de uma acusação sem provas.