“Lutar contra americanos era mais fácil do que [contra] o Estado Islâmico”, o comandante da milícia conta à câmera, perto das linhas de frente da cidade de Fallujah, controlada pelo Estado Islâmico. “Estávamos planejando emboscadas, estávamos plantando bombas. Os veículos militares deles passavam e a bomba explodia. Então, você ia embora.”

Quem fala é Hashim al-Mayhi, um comandante do Kata’ib Al-Tayyar Al-Risali (“Os Batalhões do Movimento Missionário”). O grupo de Al-Mayhi é um dos grupos milicianos xiitas apoiados pelo Irã que antes lutavam contra as forças norte-americanas no Iraque, mas hoje são parte da coalizão para derrotar o Estado Islâmico no Iraque e na Síria.

Fallujah com Al-Mayhi e seus homens foram filmados em 2015 e fazem parte de uma nova série de curtas-metragens sobre a guerra contra o Estado Islâmico, intitulada “Our Allies” (Nossos Aliados), do cineasta norueguês Anders Sømme Hammer. (Você pode assistir ao primeiro e ao segundo episódios abaixo, e o terceiro está acima, em destaque.)

Episódio 1: As Mulheres Curdas Video: Anders Sømme Hammer/Field of Vision

Quando a guerra anti-Estado Islâmico se intensificava, em 2015, Hammer seguiu grupos de soldados de milícias xiitas, mulheres membros das Unidades de Proteção do Povo Curdo (conhecidas por suas iniciais curdas, YPG) e voluntários ocidentais desse grupo. O resultado foram três curtas-metragens com foco em cada um desses componentes da coalizão anti-EI. Embora já tenha havido cobertura jornalística do YPG e seus voluntários no passado, o acesso de Hammer aos grupos milicianos xiitas é único.

O grupo Kata’ib Al-Tayyar Al-Risali é uma milícia historicamente ligada ao exército Muqtada al-Sadr’s Mahdi, uma milícia xiita que lutou contra forças norte-americanas durante a ocupação dos EUA. Hoje, o grupo é apenas um em uma rede de milícias iraquianas que têm laços com o Irã e se juntaram sob a bandeira das Forças de Mobilização Popular, um movimento xiita criado para apoiar a resistência anti-EI no Iraque.

Conforme mencionado em abril de 2017 em um relatório do Carnegie Middle East Center (Centro do Oriente Médio Carnegie) sobre as Forças de Mobilização Popular, “as FMP não são uma milícia xiita monolítica”. O relatório descreve o movimento como sendo dividido em subgrupos com ideologias variadas, que são, por sua vez, leais a diferentes líderes religiosos xiitas iraquianos ou iranianos. Alguns desses grupos são fiéis a iraquianos como o aiatolá Ali Sistani e estão sob o controle do governo iraquiano. Mas outras facções são representantes diretos da liderança do Irã, atuando como subordinados locais do Corpo da Guarda Revolucionária do Irã e sua elite, Força Qods.

Episódio 2: Os Estrangeiros Video: Anders Sømme Hammer/Field of Vision

No filme, al-Mayhi mantém pouco segredo sobre suas lealdades. “Sem a ajuda de Deus e do Irã, o Iraque não teria sido salvo”, diz ele. “Não encarando os Estados Unidos ou qualquer outro.” Al-Mayhi também é mostrado em sua casa em Bagdá, em uma entrevista à parte, um ano depois da batalha de Fallujah em 2015; ele aparece de camisa e blazer e mostra imagens de cicatrizes de estilhaços e balas que sofreu no último ano de combate. Sentado no sofá em sua sala, com a TV ligada ao fundo, al-Mayhi faz o que se pode pensar ser uma confissão surpreendente: “Eu agora estou comandando forças especiais dentro e fora do Iraque.” Suas tropas estão participando de batalhas fora do país – incluindo contra rebeldes sem ligação com o Estado Islâmico na cidade síria de Aleppo.

Durante o passeio improvisado pela sua casa, ele mostra sua espaçosa piscina, assim como metralhadoras e lançadores de foguetes que haviam sido anteriormente usados para combater forças norte-americanas. Segurando um lançador de granadas diante da câmera, al-Mayhi diz: “Esses foram usados contra [um] veículo militar americano. Coitado, não sobrou nada”.

Indisposta a comprometer suas tropas terrestres, a coalizão que os EUA acabaram reunindo para combater o Estado Islâmico atraiu muitos soldados que eram ex-inimigos dos EUA. Embora o uso desses soldados tenha ajudado a atingir o objetivo dos Estados Unidos de derrotar o EI, também legitimou uma expansão da influência iraniana sobre a política do Iraque. Recursos e pessoal do Irã tiveram um papel chave no apoio a ambas as forças governamentais curdas e iraquianas nos últimos anos.

Uma matéria recente do jornal New York Times sobre a influência crescente do Irã destacou exatamente como a invasão dos EUA foi um presente para um dos rivais dos Estados Unidos na região.

Embora milícias como a de al-Mayhi tenham desempenhado um papel importante nos últimos anos de guerra, não está claro o que vai acontecer com esses grupos ao passar do tempo.

Ainda assim, a crescente influência de grupos representantes leais ao Irã levou a tensões com o governo do Iraque, liderado pelo primeiro-ministro Haider al-Abadi. Embora milícias como a de al-Mayhi tenham desempenhado um papel importante nos últimos anos de guerra, não está claro o que vai acontecer com esses grupos ao passar do tempo. Com a guerra contra o EI lentamente se aproximando do fim, grupos milicianos parecem cada vez mais inclinados a uma transição para um papel político no Iraque. Uma reportagem do jornal al-Monitor no início do ano citou planos de algumas milícias para terem um papel no sistema educacional do Iraque, levando algumas pessoas a expressarem preocupação sobre uma “revolução cultural” ser fomentada entre a juventude do Iraque.

Ao longo dos últimos meses, Abadi tem sido mais crítico em relação a milícias apoiadas pelo Irã e suas tentativas de assumir a política. Em um discurso recente, o líder supremo iraniano Ali Khamenei alertou Abadi contra qualquer passo para enfrentar os representantes do Irã assim que a guerra terminasse. Os grupos, disse o líder do Irã, existiram para proteger a soberania do Iraque e serviram como um importante baluarte contra os Estados Unidos.

Os grupos, disse o líder do Irã, existiram para proteger a soberania do Iraque e serviram como um importante baluarte contra os Estados Unidos.

Com o Estado Islâmico a ponto de ser derrotado, um confronto entre os vários componentes da coalizão anti-EI parece cada vez mais possível. O status das milícias xiitas será de áreas chave de disputa, enquanto Abadi tenta reaver sua autoridade sobre o país politicamente fragmentado.

Uma cena de “Our Allies” fornece uma visão sobre por que o esforço de Abadi para reinar sobre as milícias pode se mostrar difícil. Falando próximo à linha de frente com o EI, al-Mayhi afirma francamente que considera a luta da milícia contra o EI um dever religioso, e que não se pode ser subordinado aos interesses de nenhum governo. “Nós fazemos o que é ordenado por nossas autoridades religiosas, não por Estado algum.”

Vídeo em destaque: Episódio 3: As Milícias Xiitas. Filmado e dirigido por Anders Sømme Hammer/Field of Vision.

Tradução: Bernardo Tonasse