“Nunca quis ser igual ao Moro, não sou”. A frase do juiz da 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, Marcelo Bretas, responsável pelos processos da Operação Lava Jato no estado, deu título à reportagem publicada no último fim de semana sobre o magistrado no “Estadão”. A matéria, feita com base em quatro entrevistas realizadas ao longo de dez dias, revela detalhes de sua rotina: das idas regulares à igreja evangélica às séries de exercícios três vezes por semana, com corrida e musculação. Mais do que isso, o texto deixa uma pergunta no ar: estaria surgindo um novo candidato a super-herói no Judiciário?

Se, até agora, adotava uma linha bem mais discreta do que Sérgio Moro, que se transformou numa espécie de popstar para boa parte de uma nação desacreditada na classe política, Bretas vem aos poucos incorporando o ar de ídolo do colega de Curitiba de quem quer se diferenciar. A bagagem para se tornar um herói é considerável: é do juiz federal do Rio a caneta que colocou na cadeia o ex-governador Sérgio Cabral, que, com diversos aliados, castigou as finanças fluminenses com seus incontáveis esquemas de corrupção.

Embate com Gilmar Mendes

O passo definitivo para a glória foi dado no fim do mês passado. Para tentar manter presos Jacob Barata Filho, conhecido como “Rei dos Ônibus”, e outros empresários do setor acusados de corrupção, Bretas peitou ninguém menos do que Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) que vem se esforçando para ser mais impopular do que o presidente Michel Temer.

Ao menos até agora, o magistrado do Rio perdeu a queda de braço contra Mendes. Os empresários saíram da cadeia e o ministro do STF, ao que tudo indica, não será impedido de atuar no processo mesmo tendo sido padrinho de casamento de Barata Filho. Bretas ainda teve que ouvir desaforo do colega de Brasília: “Em geral, o rabo não abana o cachorro”.

Peitar uma figura tão impopular, porém, aumentou a comoção em torno de Bretas. No dia 24 de agosto, colegas juízes e celebridades como Thiago Lacerda, Marcelo Serrado e Christiane Torloni fizeram uma manifestação de apoio ao magistrado. “Bretas, o Rio, está com você”, dizia o principal cartaz do ato, com uma vírgula separando o sujeito do predicado, de autoria desconhecida.

Medalha na Câmara de Vereadores

Além do apoio da classe artística, o juiz já havia recebido uma homenagem pública em junho deste ano, na Câmara de Vereadores do Rio. Graças a uma proposta do vereador evangélico Otoni de Paula (PSC), Bretas foi condecorado com a  Medalha Pedro Ernesto, maior honraria da Casa. Figura polêmica, Otoni foi notícia em diversos sites na semana passada ao chamar a cantora Anitta de garota de programa.

No fim do mês passado, Bretas também brilhou nas páginas de jornais e sites de notícias ao aparecer ao lado de Sérgio Moro na pré-estreia do filme “Polícia Federal: a Lei é para Todos”, em Curitiba. Na entrevista ao “Estadão”, disse que “não fica incomodado” com as especulações de que o galã Thiago Lacerda possa interpretá-lo numa eventual sequência do longa.

Veto a entrevistas com Cabral

Enquanto caminha para ser cada vez mais presente na mídia, Bretas limita o acesso da imprensa ao réu dos processos que o notabilizaram. No dia 16 de agosto, ele proibiu entrevistas de dois dos melhores repórteres investigativos do Rio – Chico Otávio, de “O Globo”, e Ítalo Nogueira, da “Folha” – com o ex-governador Sérgio Cabral. Alega que não haveria “interesse público” nas reportagens e que “as informações pertinentes são acessíveis à imprensa”. A decisão foi ratificada em segunda instância.

Daqui para frente, resta saber se vai valer a máxima do futebol de que juiz bom é aquele que passa despercebido nas partidas.

Ou se o país terá mais um super-herói de toga para chamar de seu.

Foto em destaque: Juiz Marcelo Bretas (à esquerda) assiste a filme sobre a Lava Jato com Sérgio Moro