As gravações de conversas entre os executivos da JBS contém indícios de que o ex-procurador Marcello Miller atuava em favor da empresa antes mesmo de pedir exoneração. Frente a esta nova informação, na manhã desta terça, 5, o Ministério Público do Distrito Federal direcionou para o Núcleo de Combate à Corrupção, em caráter de urgência, uma investigação já existente sobre Miller.

A investigação original foi aberta no dia 26 de maio, mas até então tratava-se de um procedimento preparatório, um ato que precede a abertura de inquérito. Nesta terça, após as novas gravações serem noticiadas, o procurador substituto Felipe Fritz Braga entendeu haver indícios de crime e despachou o caso para o Núcleo de Combate à Corrupção. Ainda não foi feito o procedimento interno que indica para qual dos seis ofícios do núcleo o inquérito será encaminhado.

O procurador estabeleceu como objetivo apurar sobre “utilização pelo advogado, quando membro do MPF, de acesso privilegiado a informações internas da instituição com obtenção de resultado que discrepa das outras colaborações firmadas com o MPF”.

Braga também pediu para que se verifique se Miller desrespeitou o art. 95, V, da Constituição, segundo o qual é vedado a membros do Ministério Público, entre outras coisas:

“I – exercer, ainda que em disponibilidade, outro cargo ou função, salvo uma de magistério;

II – receber, a qualquer título ou pretexto, custas ou participação em processo;”

O Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, afirmou que as gravações “contêm indícios, segundo esses dois colaboradores [Joesley Batista e Ricardo Saud], de conduta em tese criminosa atribuída ao ex-procurador Marcello Miller”. Janot conta em despacho emitido na segunda-feira, 4, que Saud foi gravado afirmando estar “afinado” com Miller. No despacho, Janot deu prazo até sexta, 8, para o ex-procurador prestar esclarecimentos.

Marcello Miller deixou o MPF em abril passado para atuar no escritório Trench, Rossi & Watanabe, que negociou o acordo de leniência da JBS. Ele se desvinculou da firma em julho. A advogada Esther Flesch, responsável pela contratação de Miller, também abandonou a empresa na semana passada.