A ascensão do Alternativa para a Alemanha, o novo partido político de extrema-direita que concorre às próximas eleições federais no país, desestabilizou a política moderada e de consenso que caracterizou a Alemanha pós-guerra, usando retórica anti-imigração e antimuçulmana, nacionalismo ostensivo e gestual que remete ao passado nazista.

Observadores internacionais das eleições esperavam que viesse da Rússia uma onda de notícias falsas e postagens polêmicas nas mídias sociais em apoio ao Alternativa para a Alemanha, conhecido por suas iniciais em alemão, AfD. Um dos maiores produtores de conteúdo online favorável ao partido, no entanto, é um site norte-americano financiado pela filantropa judia Nina Rosenwald.

O site de Rosenwald, chamado Instituto Gatestone, publica um fluxo contante de conteúdo sensacionalista sobre a eleição alemã, alimentando principalmente temores sobre imigrantes e muçulmanos. Em um dos posts mais recentes, o site alerta para a construção de mesquitas na Alemanha e afirma que o cristianismo está sendo “extinto”.

Os posts do Instituto, que muitas vezes são traduzidos para o alemão, costumam ser promovidos por políticos do AfD e por grupos de mídias sociais relacionados ao partido para justificar sua cruzada contra a política da chanceler Angela Merkel de manter portas abertas aos refugiados.

Uma história que se tornou viral alegava que a Alemanha estaria “confiscando casas para uso dos migrantes”. O artigo foi compartilhado por apoiadores do AfD, incluindo Thomas Rudy, um importante político do partido no estado de Turíngia, na Alemanha central. O texto dizia que casas desocupadas em Hamburgo estariam sendo confiscadas pelas autoridades locais como alternativa para abrigar as “centenas de milhares de migrantes da África, Ásia e Oriente Médio”.

O artigo finalizava com uma pergunta sobre o que viria em seguida: “Será que as autoridades agora irão limitar o espaço máximo de moradia por pessoa e obrigar os proprietários de apartamentos grandes a dividi-los com estranhos?”

A imprensa local alemã, no entanto, manifestou repúdio à história por sua desonestidade. Um único prédio em Hamburgo foi colocado sob administração temporária do estado porque vários de seus apartamentos permaneciam vagos. “A decisão do distrito não foi influenciada pela questão dos refugiados”, observou o site alemão de checagem de fatos Correctiv.

Foi uma publicação bem ao estilo Gatestone. A cobertura do site em assuntos relacionados à Alemanha inclui várias histórias sobre migrantes estuprando mulheres alemãs, e alegações de que os migrantes estariam levando “doenças altamente infecciosas” para a Alemanha. Ou ainda que os muçulmanos estariam transformando distritos inteiros em “zonas de entrada proibida”, sobre as quais a polícia local já não teria mais controle. Muitas dessas alegações sobre muçulmanos na Europa já se revelaram falsas ou exageradas.

Os artigos do Gatestone têm exaltado especialmente Björn Höcke, um dos líderes do AfD que representa a facção de extrema-direita do partido. Höcke gerou controvérsia em janeiro com um polêmico discurso em que denunciou o sentimento de culpa da Alemanha em relação ao passado nazista e criticou o memorial do Holocausto em Berlim, sob a alegação de que os alemães padecem da “mentalidade de um povo completamente derrotado”.

Esses artigos são frequentemente replicados por blogs alemães de extrema-direita e fóruns de discussão populares entre as bases do AfD. Dois conhecidos sites especializados em conteúdo nacionalista alemão, Philosophia Perennis e Notícias Politicamente Incorretas (Politically Incorrect News), regularmente distribuem os artigos do Gatestone. Também é possível encontrar esse conteúdo no Krautchan, versão alemã do 4chan, o fórum de discussão frequentado pela extrema direita.

Um episódio recente do podcast Reveal, produzido pelo Centro de Reportagens Investigativas (Center for Investigative Reporting), que explorou a ascenção do AfD, encontrou apoiadores do partido gritando slogans nazistas, dentre eles “lügenpresse”, ou “imprensa mentirosa”, num recente evento de campanha.

Rosenwald, fundadora e presidente do Instituto, não respondeu aos nossos pedidos de entrevista. Ela é filha do já falecido William Rosenwald, um filantropo judeu que usou sua parte da fortuna obtida com a loja de departamentos Sears, Roebuck & Co. para ajudar a acomodar refugiados judeus que fugiam do terror nazista na Europa. Nina, no entanto, vem se destacando como uma das doadoras mais generosas para campanhas contra refugiados muçulmanos nos EUA e na Europa.

Como previamente revelado em reportagem do The Intercept, a fundação de Rosenwald não apenas financia o Instituto Gatestone, mas também alguns conhecidos analistas islamofóbicos, tais como Robert Spencer, Frank Gaffney e David Horowitz. Horowitz é o ativista conservador que foi mentor de Stephen Miller, um assessor da Casa Branca diretamente envolvido na elaboração do decreto do presidente Donald Trump que baniu temporariamente de entrar nos EUA indivíduos de vários países de maioria muçulmana. O jornalista Max Blumenthal também mostrou em 2012 que Rosenwald é uma atuante apoiadora de grupos pró-Israel de linha dura, além de ex-membro do Comitê de Assuntos Públicos EUA-Israel (AIPAC).

O impulso para influenciar o pleito alemão é parte de um esforço mais amplo do Instituto Gatestone para influenciar as eleições europeias, inclusive as desse ano na Holanda e na França. A fundação sediada em Nova York que mantém o site contratou vários escritores na Holanda no começo do ano, com o principal objetivo de escrever em apoio aos partidos políticos anti-imigração em toda a Europa.

“Há um bocado de notícias bem chocantes, normalmente envolvendo estupro ou violência e imigrantes”, disse Timon Dias, do Gatestone Europa, ao Washington Post. “Queremos que as pessoas saibam o que está acontecendo na Europa e votem adequadamente, em especial nas eleições deste ano.”

O site atualmente é comandado pelo ex-embaixador dos EUA para a Organização das Nações Unidas, John Bolton. Bolton foi alto funcionário do governo Bush, e especula-se que teria sido cogitado pela administração Trump para uma função relacionada à segurança nacional, mas acabou preterido. O Instituto Gatestone lista como “membros sênior de destaque” que contribuíram para o site o professor da faculdade de Direito de Harvard, Alan Dershowitz, o analista da Fox News, Pat Caddell, e o editor do Breitbart News, site norte-americano de notícias de extrema-direita, Raheem Kassam.

Rebekah Mercer, uma importante doadora para a campanha de Trump e financiadora do Breitbart News, aparecia listada como membro do “conselho de diretores” do Instituto Gatestone no começo do ano, mas seu nome foi posteriormente removido do site. Mercer é filha do bilionário executivo dos fundos de hedge, Robert Mercer, cuja fundação vem dando apoio ao Instituto há muitos anos.

O Ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Sigmar Gabriel, disse esse mês que se o AfD atingir sua projeção de 10% dos votos, “teremos nazistas de verdade no Reichstag alemão pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial”.

Novas pesquisas mostram que o AfD pode ficar em terceiro lugar em 24 de setembro, um desempenho que o tornaria o maior partido político minoritário na Alemanha e lhe permitiria participar pela primeira vez do parlamento nacional.

Foto do título: Alice Weidel e Alexander Gauland, os principais candidatos do partido Alternativa para a Alemanha, falam sobre imigração e criminalidade durante coletiva de imprensa em Berlim (18/09/17)

Tradução: Deborah Leão