Enquanto 3,5 milhões de americanos sofriam com a falta de energia em Porto Rico nesse fim de semana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou sua atenção para os jogadores da NFL, a liga de futebol americano, que decidiram ajoelhar durante o hino nacional para protestar contra a injustiça, a intolerância e a brutalidade da polícia no país.

“Vocês não adorariam ouvir esses donos da NFL dizerem, quando alguém desrespeita nossa bandeira, ‘tire esse filho da mãe do campo agora. Fora! Ele está demitido! Ele está demitido!’”, gritou o presidente em um comício no estado do Alabama. Os donos que demitissem os jogadores, disse Trump, estariam rapidamente entre os homens mais populares do país.

Não foi a neonazistas ascendentes ou a políticos de oposição que Trump dirigiu algumas das palavras mais hostis de seu mandato, mas para estrelas pacíficas da NFL, muitas delas negras, que ajoelharam para chamar atenção para uma causa com a qual se preocupam profundamente.

O que torna o fato tão único é que não foi um dos típicos momentos em que o ex-vice-presidente Joe Biden esqueceu o microfone aberto: foi um ataque intencional à liberdade de imprensa.

O ultraje foi instantâneo. Atletas e artistas expressaram sua repulsa. Os comentários logo se tornaram uma discussão nacional e até internacional.

E aí veio domingo. Foi o maior protesto em um único dia na história da NFL. Quem ajoelhou não foi apenas Colin Kaepernick, mas 19 times, com cerca de 200 jogadores, que participaram de alguma forma de protesto; muitos ajoelharam ou sentaram durante o hino nacional. Três times decidiram nem aparecer em campo para o hino.

E eles não foram os únicos: alguns donos de franquias da NFL se juntaram aos jogadores em protesto, descendo até o campo e dando os braços aos atletas para demonstrar solidariedade. Em declarações oficiais à imprensa e infográficos no Twitter, diretores de vários times atacaram as palavras de Trump no comício no Alabama— todos dizendo de alguma forma o quanto discordavam do tom ou da retórica hostil do presidente.

E é aqui que devemos fazer uma pausa.

O clamor público para que os executivos e donos de franquias da NFL se manifestem contra Trump soa estranho. O americano médio desconhece a maioria dessas pessoas. Mas a questão é a seguinte: o que Trump disse sobre os jogadores que ajoelharam durante o hino nacional não foi muito diferente do que os donos dos times disseram e, mais do que isso, fizeram com Kaepernick.
Os executivos dos times têm expressado publicamente seus sentimentos, embora apenas quando escondidos pelo manto do anonimato. Mike Freeman, do site de esportes Bleacher Report, vem publicando reportagens sobre o intenso ódio por parte dos funcionários da diretoria dos times da NFL.

Um gerente-geral contou a Freeman que estima que a maior parte dos diretores da NFL “odeia Kaepernick genuinamente e não suporta o que ele fez” — ajoelhar durante o hino nacional. “Não querem ter relação nenhuma com ele. Não vão superar.” O mesmo gerente disse ainda que muitos dos executivos de outros times ficaram com medo de pôr Kaepernick em seu elenco porque “Trump iria twittar sobre o time”.

E esse gerente-geral não é o único. Um integrante da diretoria chamou Kaepernick de “traidor”. Outro afirmou: “ele não respeita nosso país. Dane-se esse cara”. Um executivo disse que pensaria em renunciar a seu cargo se o dono de um time pedisse que ele contratasse Kaepernick. Outro gerente resumiu o sentimento que paira entre os executivos: “Nunca vi em toda a minha carreira um cara tão odiado pelas diretorias como Kaepernick”.

Os sete executivos entrevistados por Freeman para uma matéria disseram acreditar que entre 90% e 95% dos diretores da NFL concordavam com as opiniões duras sobre Kaepernick. Um deles inclusive disse que o atleta era o jogador mais odiado desde Rae Carruth, que ainda está na cadeia por planejar o assassinato da namorada grávida.

A maioria dos comentários foi feita um ano atrás (alguns, nesta primavera). O que os executivos das equipes previam tornou-se realidade: nenhum time contratou Kaepernick, nem mesmo pelo piso da liga, para a posição de backup ou de terceiro reserva. Kaepernick não teve nem mesmo a chance de mostrar suas habilidades em treino. Até os times que precisavam desesperadamente de um starter ou de um backup experiente, nas palavras de Jim Souhan, jornalista esportivo do Minneapolis Star Tribune, “decidiram que preferem derrotas confortáveis a vitórias desconfortáveis”.

Kaepernick foi efetivamente banido da NFL pelos donos dos times e gerentes, que o odeiam da mesma forma que odeiam traidores e assassinos.

É por isso que o que aconteceu ontem foi desconcertante. Alguns donos de equipes que demonstraram solidariedade para com seus jogadores haviam feito doações milionárias ao comitê responsável pela posse de Trump, conhecendo muito bem seus posicionamentos. E muitos dos mesmos executivos que deram declarações e enlaçaram braços em apoio aos jogadores mostraram seu próprio desdém por Kaepernick – alguns, presume-se, eram os mesmos que o detonaram para o Bleacher Report, outros simplesmente não manifestaram nenhuma solidariedade ao se recusar a dar a ele uma chance de jogar de novo.

Foi com eles que Trump aprendeu a sentir desdém pelos jogadores que protestaram. Muito antes de o presidente chamá-los de “filhos da mãe”, os executivos dos times já vinham dizendo “dane-se o Colin Kaepernick”.

Não importa que Aaron Rodgers e Tom Brady, atualmente os dois melhores quarterbacks da liga, digam que Kaepernick devia estar jogando. Não importa que alguns times ainda não tenham conseguido vencer com quarterbacks que se arrastam ao longo dos quatro quartos do jogo. Antes de Trump dizer uma única palavra no Alabama, esses times já haviam fechado as portas para Kaepernick.

O que os jogadores da NFL fizeram ontem foi genuíno — solidariedade real para com um dos seus. Mas o que a maioria dos donos e gerentes-gerais fez foi marketing.  Nas palavras de Howard Bryant, da ESPN, foi “performance artística”. Parecia real, mas era falso como uma nota de três reais. Esses donos e gerentes fizeram bonito ontem, mas enquanto Kaepernick, no melhor momento de sua carreira física, estiver desempregado, fica claro que eles não têm coragem de agir de acordo com o que acreditam. Kaepernick deveria ter estado em campo ontem.

Em março, um gerente-geral disse a Freeman, do Bleacher Report: “Acho que alguns times querem usar Kaepernick como alerta para que os jogadores não repitam no futuro o que ele fez”. Apesar de tudo o que os cartolas fizeram, não conseguiram. Ficou muito claro: a coragem silenciosa de Colin Kaepernick desencadeou um movimento que se recusa a morrer.

Foto do título: Daniel Snyder, dono do time Redskins, de Washington, com os cornerbacks Josh Norman e Bashaud Breeland durante o hino nacional americano antes da partida contra o Oakland Raiders, em 24 de setembro de 2017, em Landover, no estado de Maryland.

Tradução: Maria Paula Autran