Nas eleições de 2016, a Operação Lava Jato já estava em sua 35ª fase, e o financiamento empresarial de campanha, proibido no Brasil. Ex-presidente da organização que carrega no nome, Marcelo Odebrecht e outros grandes empresários estavam atrás das grades por pagamento de propinas a políticos. Enquanto isso, seus familiares e pelo menos um executivo do grupo continuaram a realizar doações para campanhas.

Ao todo, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registra que pessoas ligadas à Odebrecht transferiram pelo menos R$ 50 mil para campanhas em 2016. Prefeito reeleito de Salvador, ACM Neto (DEM) foi o principal beneficiado. Os dados fazem parte de um levantamento inédito das doações eleitorais declaradas pelo grupo desde 2002.

No total, ACM Neto recebeu R$ 45 mil por meio de transferências feitas em nome de Ilka Odebrecht, Emílio Odebrecht Peltier de Queiroz (sobrinho de Emílio Alves Odebrecht, presidente do Conselho de Administração do grupo), Francisco Peltier de Queiroz e Ruy Lemos Sampaio.  O valor equivale a cerca de 2% das doações de pessoas físicas declaradas pelo então candidato. A assessoria de ACM Neto foi contatada para comentar as doações, mas não se manifestou.

Além de mãe de Emílio Peltier, Ilka é tia de Marcelo Odebrecht e sócia-administradora da Kieppe Participações, holding familiar com capital social de R$ 630 milhões e controle sobre as demais empresas do grupo Odebrecht. Outro sócio, Francisco Peltier de Queiroz, é primo de segundo grau de Emílio Peliter.

Já Ruy Lemos Sampaio não pertence à família, mas é funcionário da empresa desde os anos 1980. Hoje, ele administra a Kieppe. Em 2016, Ruy declarou também uma transferência eletrônica de R$ 5 mil para a campanha do vereador Pedro Godinho (PMDB) em Salvador.

CURITIBA, PR, 20.06.2015: OPERAÇÃO-LAVA JATO - Marcelo Odebrecht, presidente da Odebrecht, é encaminhado para o Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba (PR), na manhã deste sábado. Marcelo foi detido durante ação da 14ª fase da Operação Lava Jato batizada de Erga Omnes (do latim, Contra Todos) e está sendo cumprida em quatro estados. (Foto: Gisele Pimenta/Frame/Folhapress)

Marcelo Odebrecht chega ao Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba em 2015, quando foi preso durante a 14å fase da  Lava Jato.

Em nota (veja na íntegra abaixo), a empresa negou envolvimento com as doações: “As pessoas citadas não integram o Grupo Odebrecht. Seus atos privados não guardam relação alguma com decisões ou opções do Grupo”.

As doações para ACM Neto em 2016 ocorreram por meio de seis repasses

Apesar do vínculo com a Kieppe, a Odebrecht sustenta que Ruy Lemos, Ilka e Francisco Peltier não tomam decisões sobre os negócios da empresa. Segundo a assessoria, Emílio Alves Odebrecht (pai de Marcelo Odebrecht e irmão de Ilka) exerce um mandato conferido pelos demais sócios da Kieppe para representá-los no Conselho de Administração da empresa que controla a Odebrecht: “Não há, desde 2015, nenhum representante da família [Odebrecht] na gestão executiva da Odebrecht S.A ou de qualquer uma das empresas do grupo”.

As doações para ACM Neto em 2016 ocorreram por meio de seis repasses, a maioria deles em setembro. Ruy Lemos fez a primeira transferência no valor de R$ 10 mil logo no início do mês. No dia 15, foi a vez de Emílio Peltier repassar R$ 5 mil. No dia seguinte, Ilka e Francisco encaminharam mais R$ 5 mil cada. Em outubro, Ruy complementou com mais duas doações de R$ 10 mil cada.

Após as revelações da Lava Jato, em 2015, o Supremo Tribunal Federal proibiu a doação de empresas nas eleições. Pelas regras atuais, além do Fundo Partidário, os candidatos e partidos podem receber recursos apenas de pessoas físicas, e estas não podem doar mais que 10% do seu rendimento declarado. Ex-presidente da Odebrecht Ambiental, Fernando Reis afirmou à Justiça que a Odebrecht  foi procurada por “vários políticos” que buscavam doações não declaradas em 2016, mas disse que nenhum pagamento foi feito.

Doação fantasma

No total, em valores corrigidos, Ruy Lemos repassou R$ 73 mil em doações legais para candidatos da Bahia, favorecendo principalmente ACM Neto, que conta com sua contribuição desde 2008. Na época, ele se candidatava pela primeira vez – sem sucesso – ao posto de prefeito da capital baiana. Quatro anos depois, quando de fato foi eleito, ACM Neto também contou com o apoio da empreiteira conterrânea.

Além de sede da Odebrecht, a Bahia é também o estado mais beneficiado por suas doações, de acordo com levantamento das doações do grupo desde 2002.

 

Em seu depoimento para a Justiça, Marcelo Odebrecht contou que, apesar do grupo não ter interesse em campanhas municipais em geral, Salvador e Rio de Janeiro eram exceções. Além disso, a influência dos “caciques políticos” levou a empresa a também doar para esses cargos. “As eleições municipais são onde os deputados e senadores fazem sua base. Então, muitas vezes os deputados e senadores pediam apoio para as eleições municipais”, explicou na delação.

“As pessoas citadas não integram o Grupo Odebrecht.”

Confira a nota da empresa sobre as doações feitas pelos sócios da Kieppe na última eleição:

 “As pessoas citadas não integram o Grupo Odebrecht. Seus atos privados não guardam relação alguma com decisões ou opções do Grupo. A Kieppe Participações é uma holding familiar que, entre outras coisas, é acionista majoritária da Odbinv, da qual detém 63%. A Odbinv é a controladora integral da Odebrecht S.A., que por seu turno é a empresa holding  do Grupo Odebrecht. Emílio Odebrecht integra o Conselho de Administração da  Odbinv, como único representante da Kieppe na empresa, onde exerce mandato a ele conferido para este fim pelos demais sócios da Kieppe.”

Esta reportagem foi realizada por Adriano Belisário, com a colaboração dos analistas de dados Rafael Polo e Álvaro Justen, como parte do programa de bolsas de produção da Plataforma de Jornalismo Connectas.

ACM Neto em campanha para a prefeitura de Salvador em 2012. No sistema da Odebrecht de gestão dos pagamentos a políticos, ele recebeu o codinome “Anão”.