Sentado numa cadeira acima de uma plateia lotada, o bispo Inaldo Silva, da Igreja Universal do Reino de Deus, levanta a mão direita para o alto enquanto o público vibra ao som da música “A volta por cima”, da cantora gospel e pastora Flordelis, uma das líderes de uma comunidade evangélica que leva o seu nome. A cena – comum, se estivéssemos falando de algum templo – aconteceu no plenário da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, onde o bispo também cumpre um mandato de vereador.

Em dois vídeos publicados em sua página no Facebook, Inaldo Silva mostra pequenos trechos da comemoração realizada na última sexta (29 de setembro). Tratava-se de uma homenagem ao Dia do Encontro Interdenominacional (reunião de igrejas evangélicas), que, graças a um projeto de lei dele, entrou oficialmente para o calendário da cidade este ano, no terceiro domingo do mês de setembro.

O bispo é vereador em primeiro mandato, eleito pelo PRB, mesmo partido do prefeito do Rio, Marcelo Crivella.

No primeiro vídeo publicado, é possível ver Inaldo Silva sentado da cadeira que é usada nas sessões plenárias pelo presidente da Câmara, com flores em sua volta. Na mesa diretora, aparecem a cantora Flordelis e Eduardo Lopes (PRB), suplente que assumiu a vaga no Senado de Crivella após ele ter sido eleito prefeito do Rio.

Na outra postagem, o público que lotou as galerias vibra ainda mais quando um cantor gospel se apresenta no púlpito que é usado pelos vereadores para realizarem seus discursos. Como a qualidade do som não é muito boa, fica difícil identificar a letra da música, mas é possível ouvir alguns “aleluias”.

Os encontros interdenominacionais são realizados pela Igreja Universal para reunir diversos líderes evangélicos. No ano passado, por exemplo, o evento foi realizado no Templo de Salomão, em São Paulo. O coordenador era exatamente o bispo Inaldo Silva.

No ano passado o evento foi realizado no Templo de Salomão, em São Paulo. O coordenador era exatamente o bispo Inaldo Silva.

O vereador é bastante ligado ao prefeito Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo, líder da Universal. Sua mulher, Sandra Pereira Ramos da Silva, chegou a trabalhar no gabinete de Crivella no Senado, com salário de mais de R$ 15 mil.

Além dos vídeos publicados por Inaldo Silva, a cantora e pastora Flordelis também publicou em sua página um discurso que fez na mesa diretora da Câmara condenando a exposição no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, que gerou reação de setores conservadores após a divulgação de imagens de uma criança numa sala onde havia a performance com um homem nu:

“É uma exposição que eles estão chamando de arte, mas eu, como pastora, como mãe, como mulher, chamo de pedofilia… Nós somos protestantes e temos que protestar contra as coisas que estão erradas em nossa volta. Está na hora de o povo de Deus se levantar”.

Flordelis termina o discurso falando da força dos evangélicos na política:

“É hora de nós mostrarmos a nossa força. Já estamos mostrando isso na época das eleições. Nunca houve tantos candidatos evangélicos que foram eleitos. E agora está na hora de continuarmos mostrando a nossa força. Vamos embora para a rua, minha gente. Vamos dar as mãos, vamos gritar que essa nação não pertence a Satanás, ela é do senhor Jesus!”

Frente evangélica tem 40% do Congresso

Atualmente, entre os 51 vereadores da Câmara do Rio, três são do PRB, partido de Marcelo Crivella e de forte ligação com a Igreja Universal: além de Inaldo Silva, Tânia Bastos e João Mendes de Jesus. Há pelo menos outros dois com forte ligação com os evangélicos e as pautas conservadoras: Otoni de Paula (PSC) e Alexandre Isquierdo (DEM), este bastante ligado ao pastor Silas Malafaia.

A composição do Congresso Nacional, por sua vez, mostra a força dos evangélicos. A frente parlamentar que reúne o setor tem nada menos do que 198 deputados. Ou seja, são quase 40% dos 513 que têm mandato na Casa. Eles estão na linha de frente de pautas conservadoras como a “cura gay”, aliando-se inclusive a grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL).