O Twitter pode estar diante de um escândalo de contas de usuário falsas muito parecido com o que abalou o banco americano Wells Fargo no ano passado.

Leslie Miley, ex-gerente de Engenharia do Twitter, contou para a Bloomberg, na última sexta-feira, que havia descoberto, em 2015, diversas contas de spam associadas a endereços de IP na Rússia e na Ucrânia. Ele recomendou a exclusão dos falsos usuários, mas a “equipe de crescimento” da empresa – que tem a última palavra nesses casos – recusou o pedido. “Estavam mais preocupados com o crescimento de números do que com contas falsas”, disse Miley.

A única diferença entre esse escândalo e o caso do Wells Fargo está em quem criou essas contas.

Contrariamente ao que muitos pensam, o Wells Fargo não ganhava dinheiro diretamente com as contas falsas, abertas por seus funcionários sem o conhecimento dos clientes. A maior parte delas não tinha fundos, e o dinheiro inicialmente devolvido pelo banco, quando dividido pelo número de vítimas, não passou de 25 dólares por cliente, menos do que a tarifa do cheque especial praticada pelo banco. É claro que, além disso, a classificação de crédito dos clientes pode ter sido prejudicada pelas contas não autorizadas, mas não foi em cima disso que o Wells Fargo lucrou.

Foi em Wall Street que a operação rendeu frutos. Os executivos do Wells Fargo se vangloriavam de um crescimento imbatível no número de vendas ao divulgar os resultados do banco para os investidores, dando um grande destaque à média de contas por cliente de varejo em seus relatórios anuais. Depois que a estratégia foi descoberta, em 2016, essa informação parou de constar nos informes, mas, em 2015, a média era de mais de seis por cliente.

Ao mesmo tempo, os gerentes pressionavam seus subordinados a aumentar constantemente o número de vendas, o que levou à criação de contas falsas. Os altos funcionários do banco acabaram descobrindo o que estava acontecendo na base para inflar os números, mas essa informação só chegou aos investidores depois de um acordo com os órgãos reguladores americanos. De 2011 a meados de 2015, o preço das ações do Wells Fargo dobrou, em grande parte graças ao crescimento das vendas. Portanto, embora a empresa não lucrasse tanto assim com as contas falsas, seus acionistas – inclusive alguns executivos com participação acionária – estavam ganhando muito dinheiro. O banco escondeu dos investidores a verdade por trás de um crescimento puxado pela abertura de contas falsas.

É exatamente disso que Miley acusa a equipe de crescimento do Twitter. A empresa  tem ficado atrás do Facebook e de outras redes sociais em termos de crescimento do número de usuários – são cerca de 300 milhões de contas contra 2 bilhões do Facebook. Segundo Miley, a empresa não quis apagar os bots e contas de spam para não aumentar ainda mais esse abismo. As ações do Twitter despencariam se o número mensal de usuários ativos – um dado essencial para os investidores – tivesse uma queda abrupta.

A matéria da Bloomberg cita 10 ex-funcionários anônimos que corroboram as declarações de Miley – ele teve seu nome revelado porque havia recusado um acordo demissional ao sair da empresa, que incluía uma clásula de confidencialidade. As testemunhas disseram que o Twitter praticamente não verifica as contas de usuários — isso, qualquer um que já usou o site pode confirmar. Além disso, segundo Miley, muitas contas inativas estão associadas a endereços de IP russos e ucranianos.

Quando Miley comunicou o problema a seu superior, ouviu a resposta: “Não toque no assunto. Não é função sua.” A equipe de crescimento, responsável pela remoção de contas, não fez nada. E então, nas eleições americanas de 2016, essas contas ganharam vida.

Propaganda e eleições à parte, o testemunho de Miley leva a crer que, embora soubesse das contas falsas, a equipe de crescimento do Twitter decidiu não excluí-las para manter o número de usuários atraente para os investidores – mesmo que as contas não estivessem sendo usadas. Foi exatamente isso que o Wells Fargo fez, podendo ser classificado como fraude financeira – por meio de uma manipulação dos resultados. Um porta-voz do Twitter afirmou à Bloomberg que a empresa está suspendendo e “adotando outras medidas” contra “milhões” de contas de origem russa e ucraniana.

Agora que o Congresso americano se envolveu, o Twitter tenta mostrar serviço para eliminar as contas falsas russas, cujo número pode passar de 36 mil, segundo a própria empresa. O advogado do Twitter afirmou, em depoimento esta semana, que menos de 5% das contas do site são falsas, mas entidades independentes acreditam que esse número pode chegar a 15%.

As ações do Twitter têm caído depois da revelação do escândalo.

Foto do título: Senador democrata Patrick Leahy interroga testemunhas durante audiência da Subcomissão de Crime e Terrorismo sobre “Conteúdos Extremistas e Desinformação Russa na Internet”, realizada no Congresso americano no dia 31 de outubro de 2017. Atrás dele, imagem do Twitter do presidente dos EUA, Donald Trump, que reproduziu um tuíte de uma conta russa,

 Tradução: Bernardo Tonasse