Todo preconceito é ignorância. Quando vindo de alguém que, tendo amplo acesso à informação, escolhe permanecer ignorante, o caso é ainda mais grave.

Logo após a divulgação de um vídeo em que o jornalista William Waack, da Rede Globo, profere comentários racistas, começaram a surgir artigos falando de sua formação e experiência profissional. A nota da emissora foi pelo mesmo caminho. Apesar de afirmar que a empresa é “visceralmente contra o racismo” e anunciar o afastamento do apresentador “até que a situação seja esclarecida”, o comunicado salienta que “Waack é um dos mais respeitados profissionais brasileiros, com um extenso currículo de serviços ao jornalismo”. As credenciais de Waack deveriam ser levadas em conta como agravantes, não como atenuantes.

As credenciais de Waack deveriam ser levadas em conta como agravantes, não como atenuantes.

O vídeo foi gravado em novembro de 2016, durante a cobertura das eleições presidenciais dos Estados Unidos. William Waack se prepara para entrar no ar entrevistando o jornalista Paulo Sotero e, ao fundo, vê-se a Casa Branca, habitada então por um presidente preto, Barack Obama. E que logo seria ocupada por um presidente branco com longo histórico de comentários racistas, depois de uma eleição na qual o racismo teve papel central.

Com Waack e Sotero posicionados em frente à câmera, ouve-se uma insistente buzina vinda da rua. E começa uma conversa entre os dois:

William Waack [virando-se para a rua]: Tá buzinando por quê, ô seu merda do cacete! [Deve ser um]…. Não vou nem falar porque eu sei quem é, né. Você sabe quem é, né?
Paulo Sotero [parece perguntar “O quê?”]
William Waack [baixando o tom da voz]: É preto, né?
[Paulo parece não ter escutado direito, e os dois se aproximam um do outro]
Paulo Sotero: Ahn?
William Waack: É preto.

Paulo Sotero então ri do comentário racista, e os dois se afastam. Não contente com a reação do convidado, William Waack faz questão de repetir, enquanto os dois continuam sorrindo.

William Waack [diz, entre risos, algo que não dá para entender muito bem, para depois concluir]: É coisa de preto (…) Com certeza.

Em frente a uma câmera ligada, com microfone na lapela e prestes a entrar ao vivo, William Waack sabe que estava sendo filmado. Mesmo assim, não resiste ao impulso racista: “É coisa de preto, né?”.

Essa naturalidade é coisa de branco que, provavelmente, já protagonizou ou presenciou outras situações racistas, com a certeza de que dificilmente viria a ser punido. E é bom notar que William Waack não foi punido por ter feito um comentário racista, mas por causa do vazamento que, significativamente, foi feito por dois jovens negros.

O comentário “Você sabe quem é, né?”, feito com Paulo Sotero, também é coisa de branco que, contando com a cumplicidade do pacto racial tão bem descrito no livro “The Racial Contract”, de Charles W. Mills, sabe que, muitas vezes, o racismo não precisa nem ser verbalizado. Ou que, se verbalizado, vai ficar ali entre eles, como um pequeno deslize, um ato falho que não deve ser divulgado para não manchar biografias.

Racistas sabem que muitas vezes um pequeno gesto, um olhar, um comentário aparentemente inocente ou ironicamente jocoso já é capaz de estabelecer uma conexão racial entre interlocutores. William Waack age tendo a certeza desta cumplicidade. E é por isso que é importante pensar também no papel e no comportamento de Paulo Sotero.

Em nota enviada à Folha de S. Paulo, Sotero, que é diretor do Brazil Institute no Woodrow Wilson International Center for Schoolars, diz que não se recorda do episódio: “A julgar pelo vídeo, reajo a algo que se passa à minha frente no momento em que estou concentrado à espera de um sinal para entrar no ar. No vídeo, não consigo ouvir o que o William me diz. Surpreende-me a informação sobre comentário racista. Não acho graça nenhuma em racismo e não creio que o William tenha postura diferente sobre o assunto”.

O fato de se calar diante de situações racistas pode ter implicações tão graves na perpetuação do racismo quanto o ato em si.

Paulo Sotero diz que não acha graça, mas no vídeo aparece rindo. Diz-se surpreendido pela informação de que o comentário é racista, e tenta se defender a partir da defesa que faz de William Waack. Afinal de contas, se Waack não fez comentário racista, ele também não pode ser acusado de cumplicidade por ter rido e, na sequência, se calado.

O fato de se calar diante de situações racistas pode ter implicações tão graves na perpetuação do racismo quanto o ato em si. Em 1988, para marcar o centenário da Abolição da Escravatura, a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz coordenou uma pesquisa que trouxe resultados alarmantes, mas não surpreendentes, dado o histórico de negação do racismo brasileiro. Segundo a pesquisa,“97% dos entrevistados afirmaram não ter preconceito”. Mas, ao serem perguntados se conheciam pessoas e situações que revelavam a discriminação racial no país, 98% responderam com um sonoro “sim”. Ou seja, quase todos os entrevistados já haviam presenciado alguma situação de racismo, geralmente protagonizada por pessoas bem próximas, como familiares, amigos e cônjuges.

Segundo Lilia, “a conclusão informal era que todo brasileiro parece se sentir como uma ‘ilha de democracia racial’, cercada de racistas por todos os lados”. A conta, é óbvio, não fecha. Mesmo se fechasse, não poderíamos deixar de nos perguntar: o que fizeram essas pessoas ao presenciarem o racista conhecido sendo racista? Chamaram a atenção pelo fato? Concordaram? Foram cúmplices silenciosos?

Muitas vezes, para se defender da acusação de cumplicidade, as pessoas confundem responsabilidade com culpa. Tentam se livrar da “culpa” alegando que não são diretamente responsáveis pela situação, que são “pessoas do bem”, que em nada contribuem para a manutenção do racismo sistêmico.

Quantas vezes nos calamos por medo, por cumplicidade, por solidariedade — não com a humanidade, mas com o criminoso?

Em seus escritos sobre o julgamento de Adolf Eichmann, figura das mais importantes no Holocausto, a filósofa alemã Hannah Arendt aborda essa distinção: nem todos os alemães podem ser culpados pelos crimes do nazismo, mas todos podem ser considerados responsáveis, visto que eram membros da comunidade política que os cometeu. O filósofo e psiquiatra alemão Karl Jaspers também escreve sobre o conceito de “culpa metafísica”, segundo o qual a solidariedade que existe entre os seres humanos nos torna corresponsáveis por cada dano ou cada injustiça cometidos no mundo, especialmente por aqueles crimes perpetrados na nossa presença ou com o nosso conhecimento.

Paulo Sotero estava lá, ao lado de William Waack. Além de nada fazer, é cúmplice na “graça” que tenta negar apesar de flagrante. Quantas vezes estivemos no lugar de Paulo Sotero? Quantas vezes nos calamos por medo, por cumplicidade, por solidariedade — não com a humanidade, mas com o criminoso? São as perguntas que devemos começar a nos fazer, porque nos colocam na condição de escolher fazer parte do problema ou da solução.