A morte do ex-presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, na segunda-feira, durante os embates na capital Saná, marca uma nova e perigosa fase na guerra civil do país. Três dias antes, Saleh havia se voltado contra os rebeldes houthis, seus antigos aliados, e mudado de lado num conflito que já se estende há cerca de três anos. A jogada de Saleh, no entanto, fracassou já que os houthis conseguiram conter o breve levante das forças de Saleh. Imagens do corpo sem vida do ex-presidente foram transmitidas para todo o mundo, e o líder houthi Abdel-Malek al-Houthi anunciou no mesmo dia que Saleh havia sido morto por “traição”. Ele acrescentou ainda que “a conspiração de deslealdade e traição fracassou, é um dia negro para as forças de agressão”.

A guerra iemenita já se tornou uma das maiores catástrofes humanitárias do mundo, e a morte de Saleh tem o potencial de aprofundar o conflito ainda mais. Aparentemente, a tentativa do ex-presidente do Iêmen de se voltar contra os houthis e se realinhar ao governo central apoiado pela Arábia Saudita foi parte de uma estratégia do príncipe saudita Mohammed bin Salman e dos líderes dos Emirados Árabes Unidos para mudar os rumos da guerra e isolar os insurgentes. Os sauditas haviam manifestado aprovação pública à guinada de Saleh, mas qualquer esperança de mudar radicalmente o equilíbrio de poder no conflito parece ter acabado junto com sua vida.

Para o bem ou para o mal — mas principalmente para o mal –, Saleh ajudou a tornar o estado moderno do Iêmen o que é hoje.

Ainda não é possível antever o que o futuro trará para o Iêmen. Mas tudo indica que a guerra indireta entre o Irã e a Arábia Saudita que acontece no país está prestes a se intensificar. Nas últimas semanas, os houthis assumiram a responsabilidade pelo uso de foguetes para atacar alvos na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes. Os líderes dos países do Golfo Pérsico acusaram publicamente o Irã de apoiar esses ataques. Nesse meio tempo, em decorrência de bombardeios aéreos e bloqueios em território iemenita, realizados com apoio das potências ocidentais, milhões de civis no país empobrecido correm o risco de morrer de fome.

Para o bem ou para o mal — mas principalmente para o mal –, Saleh ajudou a tornar o estado moderno do Iêmen o que é hoje. Governou implacavelmente os iemenitas por décadas, enquanto ele e sua família enriqueciam. Também foi bem-sucedido em jogar seus rivais uns contra os outros e se posicionar como um aliado dos EUA no contraterrorismo, ao mesmo tempo em que se aliava ao Irã ou a outros parceiros sempre que necessário. Durante as manifestações da Primavera Árabe, Saleh consentiu em abrir mão do poder, para então se alinhar à rebelião houthi, numa aposta para recuperar importância política. Sua morte coloca um ponto de exclamação no fim de uma era que, para todos os fins, já estava encerrada no Iêmen. Ficará para a posteridade nos livros de História que, durante a era de Saleh, o Iêmen foi devastado por uma sangrenta guerra civil, em meio a uma crise humanitária catastrófica que jamais deveria ter acontecido em pleno século XXI.

Foto do título: O ex-presidente do Iêmen Ali Abdullah Saleh faz um discurso para apoiadores durante um comício em comemoração aos 35 anos de fundação de seu partido, o Congresso Geral do Povo, na Praça Sabaeen, na capital Saná, em 24 de agosto de 2017.

Tradução: Deborah Leão