Nos últimos meses, diversos jornais de grande circulação noticiaram a presença de um “grupo de empresários, economistas, pesquisadores e profissionais liberais” circulando por Brasília para conversar com parlamentares e defender a reforma da Previdência. The Intercept Brasil foi buscar quem estaria por trás do movimento “suprapartidário” que defende “uma reforma ampla” sem que nenhum de seus representantes seja mencionado. A reportagem chegou a Zizo Ribeiro – que também esteve à frente do Vem Pra Rua, movimento que liderou as manifestações a favor do impeachment de Dilma Rousseff.

Zizo Ribeiro conta que o Renova Previdência não se considera um movimento, mas um grupo de estudos que busca o diálogo com deputados e senadores, os quais pretende “abastecer com conteúdo” sobre a reforma. Afirma ter conversado com parlamentares contrários e favoráveis ao projeto, discorrendo uma lista que vai de Jean Wyllys (PSOL-RJ) a Darcísio Perondi (PMDB-RS), passando pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Ele diz que os nomes dos integrantes não são divulgados porque “o objetivo não é personificar nada, é o conteúdo”. O propósito é diferente do Vem Pra Rua, já que a ideia não é mobilizar grandes atos populares, mas “abrir canais de debate diretamente com os políticos dispostos a conversar”.

O Renova Previdência conta com cerca de cem participantes, que se definem como pessoas que querem fazer mais do que apenas “reclamar no WhatsApp”. Ribeiro conta que o primeiro teste para entrar no grupo é responder à pergunta:

“Você tem disponibilidade de tempo e dinheiro para ir a Brasília no meio da semana? Porque, se você não tiver, você não é bem-vindo ao grupo. Simples assim.”

Os participantes costumam brincar que o sistema de financiamento é o “CUPS” — Cada Um Paga a Sua [passagem para Brasília].

Zizo Ribeiro, que é economista de formação, vive de investimentos em negócios que fez ao longo da vida. Mas conta que hoje sua prioridade é se dedicar “ao país”. Depois de se desvincular do Vem pra Rua — porque “não adianta mais ficar na rua gritando”—, ele se tornou ativo no debate em torno das 10 Medidas contra a Corrupção e, agora, se dedica à Previdência, por acreditar ser o principal assunto a ser tratado no país.

Depois que o novo integrante se declara disponível para agir e arcar com todos os custos de sua militância, Zizo explica que se seguem três etapas:

“Um: conhecimento de causa. Dois: ação em Brasília, em dia de semana, em plenário. E três: o pós-ação, criar relacionamentos e pontes com Brasília para abastecer com conteúdo.”

O principal meio de comunicação do grupo com os parlamentares é o WhatsApp, mas já foram realizadas duas viagens ao Distrito Federal para um encontro direto com os deputados e senadores. Da primeira viagem, participaram cerca de 50 pessoas. Na mais recente, realizada na semana passada, foram cerca de 30. Os nomes dos integrantes dessa caravana, como de praxe, não foram divulgados.

O conteúdo

Para “conhecer a causa” e, posteriormente, produzir conteúdo, o grupo conta com a parceria do Centro de Lideranças Pública (CLP) para realizar palestras com especialistas, sempre em São Paulo. “Eles tinham muito do conteúdo, então nos ajudaram nessa parte de palestras e a gente ajudou na parte de mobilização, já que pensávamos igual na necessidade de fazer a reforma”, explica Ribeiro.

É das formações em parceria com o CLP que os integrantes do Renova Previdência tiram o conteúdo para “abastecer” a pressão que realizam sobre os deputados e senadores. Um bom resumo dos argumentos do grupo pode ser visto no site Apoie a Reforma.

A crise financeira do Rio de Janeiro, por exemplo, é atribuída à má gestão da Previdência. A sucessão de escândalos de corrupção — que levou à prisão dos últimos três governadores do estado e à cassação do mandato do atual governador pelo Tribunal Regional Eleitoral — não é citada.

Outro argumento muito usado para defender a reforma é o de que ela levará ao “fim dos privilégios”. “Hoje, um milhão de servidores públicos equivalem a 22 milhões da iniciativa privada” em termos de aposentadoria, calcula Zizo. Os militares e grande parte do judiciário, grupos que estão entre os que recebem os benefícios mais altos, ficariam, no entanto, de fora da atual reforma.

“Uma mistura de think thank com o trabalho de advocacy”

O CLP é uma organização sem fins lucrativos fundada por oito homens. O presidente é o cientista político Luiz Felipe d’Avila, ligado ao Instituto Millenium e pré-candidato do PSDB ao governo do estado de São Paulo. Entre os mantenedores da instituição estão a BM&F Bovespa, o banco Pactual e o banco de investimentos CreditSuisse.

A cientista política Ana Marina de Castro, coordenadora de mobilização no CLP, explica que o grupo é “uma mistura de think tank com o trabalho de advocacy”. O que, em bom português, significa que a ONG funciona como um centro de informações sobre políticas públicas que serão usadas para fazer pressão política.

Em janeiro, a ONG decidiu que a reforma da Previdência seria sua principal frente de trabalho — e que o esforço deverá durar cinco anos. Hoje, além de apoiar o Renova Previdência, a ONG tem seu próprio site Apoie a Reforma, que reúne também o Instituto Millenium e o Movimento Brasil Competitivo. A organização conta ainda com parceiros que ajudam na divulgação de temas e conteúdos ligados à Previdência, como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP).

“A gente vem ajudando a acelerar esse movimento [Renova], mas temos o nosso próprio [Apoie a Reforma], com uma série de empresários que apoiam, como Nizan Guanaes, Abílio Diniz e Armínio Fraga. Mas temos uma interlocução com eles e estamos atuando como uma aceleradora.”

Castro explica ainda que, apesar de ter grandes nomes da elite financeira entre seus apoiadores, o trabalho é oferecido a eles gratuitamente:

“A gente faz isso porque a gente realmente quer melhorar o Brasil. Esse é um dos nossos maiores desafios ao chegar em Brasília. Eles nos perguntam quem nos financia e qual é o grupo de poder por trás, porque não é comum você ter organizações trabalhando com isso aqui no Brasil. Mas é o nosso trabalho.”