“Sopram ventos malignos no planeta azul”.

É com essa sentença que o catalão Manuel Castells, um dos sociólogos mais citados do mundo, abre seu mais novo livro, do qual ele falou, pela primeira vez publicamente, no Rio de Janeiro esta semana.

O recém-lançado “Ruptura: La crisis de la democracia liberal” (Alianza Editorial, ainda sem tradução para o português) resume em 128 páginas um cenário mundial ainda vítima dos ecos da crise financeira global, assolado por mudanças climáticas, que enfrenta um terrorismo fanático e sofre inúmeras violações de direitos humanos. Além dessas crises, vive outra, talvez irreversível: a da democracia liberal. Um colapso, em várias nações, da relação entre governantes e governados.

“Meu ponto de partida é muito simples: se, mesmo em países com distintas características e especificidades próprias, surge o mesmo fenômeno, então podemos pensar como hipótese que é o modelo que está caindo”, resumiu no evento.

Professor celebrado em universidades de Estados Unidos, França, Espanha e Inglaterra, Castells é também leitura quase certa de cursos de ciências humanas no Brasil. Daí a lotação desta quarta (6) à noite do Teatro Oi Casa Grande, na zona sul do Rio de Janeiro, que recebeu quase mil pessoas para a sua palestra no seminário “Urbe – Perspectivas contemporâneas”.

Que crise é essa, afinal?

No seu livro anterior, “Redes de indignação e esperança – Movimentos sociais na era da internet”, lançado em 2012, Castells já alertava para como populações ao redor do mundo andavam descrentes de suas instituições, especialmente políticas; descrentes, inclusive, de movimentos contrários aos governos, como os partidos de oposição. Desiludidas, portanto, das instituições políticas que “não as representavam”.

Em linhas gerais, conforme mostram estudos como o Trust Barometer, do Instituto Edelman, a maioria das pessoas, tanto no Brasil quanto no resto do mundo, acredita cada vez mais que os partidos priorizam apenas seus interesses e que os governos são corruptos, injustos, burocráticos e opressivos.

“Os movimentos recentes colocam a dignidade e a democracia como meta, mais do que o combate à pobreza. É um protesto democrático e moral, como a maioria dos outros recentes”

Segundo Castells, esse espírito geral acabou se traduzindo em grandes protestos de rua que, em comum, não tinham lideranças claras e eram gestados na internet. Na publicação de 2012, o pesquisador olhou para as manifestações surgidas a partir de 2010, como o Occupy Wall Street, nos Estados Unidos; o movimento dos indignados, na Espanha; e o início da Primavera Árabe – a grande onda revolucionária que começou por Tunísia e Egito e percorreu outros países do Oriente Médio e Norte da África.

À época, essas manifestações estavam carregadas de um sentimento de indignação, mas também, como Castells ressaltou no próprio título, de esperança com relação a um futuro mais democrático, mais igualitário.

“De início, eram uns poucos, aos quais se juntaram centenas, depois formaram-se redes de milhares, depois ganharam o apoio de milhões, com suas vozes e sua busca interna de esperança, confusas como eram, ultrapassando ideologias e a publicidade para se conectar com preocupações reais na experiência humana real que fora reivindicada”.

Em “Redes de indignação e de esperança”, o professor não incluiu o exemplo do Brasil, mas visitou o país bem no começo dos protestos de 2013, quando milhares de pessoas – da direita e da esquerda – ainda ocupavam a mesma Avenida Rio Branco, no Rio, e outras ruas país afora, num movimento cujos objetivos, até então, estavam bastante difusos. Ele enxergou as manifestações brasileiras como mais uma expressão da rede interconectada de que fala em seu livro.

“O grande erro da esquerda é pensar que movimentos sociais são sempre bons, porque não são.

“Os movimentos recentes colocam a dignidade e a democracia como meta, mais do que o combate à pobreza. É um protesto democrático e moral, como a maioria dos outros recentes”, chegou a comentar em 2013. E avaliou como positiva aquela sintomática ausência de líderes que permeou o início do movimento: “Não há cabeças a serem cortadas. Assim, as redes se espalham e alcançam novos espaços na internet e nas ruas”.

Passados poucos anos, que mais parecem um século pela dimensão das transformações, Castells está bem menos esperançoso quanto aos desdobramentos desse processo. Sem instrumentos legítimos, não se solucionam crises, vaticinou o sociólogo durante sua palestra. E o resultado prático da descrença nas instituições, especialmente políticas, vem sendo a rejeição das formas partidárias existentes e a guinada em direção ao anti-establishment.

“Quando há crises que vão destruindo as bases da vida cotidiana nos planos econômico, social, cultural, ecológico, pessoal, e quando os instrumentos de gestão da sociedade parecem cada vez menos confiáveis, surgem movimentos destitutivos, não controlados por partidos e de distintas orientações ideológicas”, afirmou Castells no teatro.

“O grande erro da esquerda é pensar que movimentos sociais são sempre bons, porque não são. Vocês sabem no Brasil, os movimentos sociais surgem de todos aqueles setores e valores que não têm uma expressão direta, clara e aberta no sistema político, vão tanto da extrema-esquerda quanto a extrema-direita”, disse ainda.

Os exemplos da ruptura

Em sua mais recente publicação, Castells analisa expressões da ruptura do modelo de democracia liberal: a vitória de Donald Trump, nos Estados Unidos; o resultado do Brexit, no Reino Unido; a desconfiguração partidária da França, que ameaçou eleger a figura da extrema-direita Marine Le Pen e deu a vitória a Emmanuel Macron, o “enterrador de partidos”.

“Trump surge desses movimentos sociais contra a crise das instituições. Trump ganhou a eleição contra os Democratas e contra os Republicanos”, afirmou o sociólogo na quarta-feira. “Foi um voto xenófobo e racista, mas também de desespero de zonas americanas mais afetadas pelas consequências econômicas da globalização, sobretudo a classe operária branca”.

E concluiu: “Trump não é um dirigente republicano tradicional. É um líder de um movimento social identitário, antiglobalização, racista e xenófobo”.

Para Castells, a saída do Reino Unido da União Europeia através do referendo do Brexit teve as mesmas motivações econômicas e ideológicas que o voto em Trump. Um fenômeno parecido se observa em outras regiões da Europa, como na Alemanha e nos países escandinavos: enquanto figuras e partidos tradicionais perdem status, grupos identitários e anti-establishment ganham participação política.

Movimento reversível?

E quais seriam as saídas da crise? “Não sei”, adianta o pesquisador. Mais moderado que no início da década sobre o potencial das redes na consolidação e no fortalecimento das democracias, ele afirmou que a internet é um instrumento importante que ajuda na transparência, mas não serve de solução. Lembrou também que as tentativas no mundo ocidental de controle das instituições ou de mudanças das regras da participação política acabaram não evitando a crise.

Para Castells, o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff no Brasil foi um desses exemplos falhos de tentativa de controle de instituições políticas. Em tom de provocação e arrancando risos da plateia, afirmou que vamos virar especialistas mundiais da modalidade: “O Brasil terá comissões constitucionais, estudos virão aqui para ver como se fazem impeachments”.

O sociólogo, que diz ter uma relação profunda com o Brasil, considera que o país vive “uma total decomposição do sistema político”. Ele conta  ter lido todas as declarações dos deputados durante a votação que derrubou a  presidente Dilma, em agosto de 2016.

“Li desde aqueles que enviavam mensagens à mãe ao execrável Bolsonaro mencionando o torturador da presidenta. Vocês acreditam que isto é um processo típico da democracia liberal? Nem aqui, nem em parte nenhuma”, criticou.