Vídeos de Maisie Crow e Lauren Feeney

No Texas, agentes de trânsito tornaram-se parte da linha de frente de execução das leis federais sobre imigração. Nos últimos anos, e principalmente desde a eleição de Donald Trump, a Patrulha Rodoviária do Texas, parte do Departamento Estadual de Segurança Pública (DPS), desenvolveu uma máquina bem azeitada de deportação, que encontra motoristas que cometeram infrações leves de trânsito e os encaminha à Patrulha de Fronteira ou até mesmo ao Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro. Passageiros e pedestres que sequer estavam dirigindo também são apreendidos. As vidas dos imigrantes presos no sistema de deportação do Texas são prejudicadas ou destruídas, juntamente com as de seus filhos, muitas vezes nascidos e criados nos EUA.

É difícil ter uma noção exata da frequência com que isso acontece. Os registros do DPS são caros, difíceis de obter e de interpretar. Os dados sobre os encaminhamentos só passaram a ser coletados em dezembro de 2015 e, desde então, as comunicações desses incidentes são irregulares. Até hoje a comunicação dos agentes sobre as abordagens que resultaram em encaminhamentos à Patrulha de Fronteira ainda é inconsistente. Por meio dos pedidos de acesso à informação, a União Americana das Liberdades Civis (ACLU) do Texas verificou que a documentação interna da agência não tinha registro dos encaminhamentos de diversos indivíduos que os encarregados locais sabiam ter sido detidos pela patrulha rodoviária, presos, e, em alguns casos, expulsos do país.

Em seguida, The Intercept e a ACLU atuaram em conjunto para obter vídeos de câmeras veiculares (“dashcams”) do DPS, que mostram imigrantes sendo detidos em rodovias por infrações triviais e conduzidos pela Patrulha de Fronteira.

Um vídeo de câmera veicular da Patrulha Rodoviária do Texas mostra como uma abordagem de trânsito de rotina se tornou um pesadelo para uma família.

Os detalhes dessas deportações foram reunidos inicialmente com base na papelada e nos vídeos do DPS, obtidos por meio dos pedidos de acesso à informação. Localizamos então os detidos e suas famílias, inclusive no México. Visitamos as pessoas em casa e mostramos as filmagens. Enquanto assistiam, pais e filhos conversavam sobre como suas vidas foram viradas de cabeça para baixo pelos patrulheiros do Texas e sobre a atual política de imigração estadual e federal.

Ruth Mariel Ramirez, de 30 anos, foi uma das pessoas apreendidas. Ela tem quatro filhos, três deles nascidos nos EUA. Até o seu encontro com o DPS alguns meses atrás, ela e sua família viviam confortavelmente na região de El Paso. Agora estão passando dificuldades na cidade de Juárez, no México, uma área pobre e assolada pela violência dos cartéis de drogas.

Ruth cresceu em Juárez, logo depois da fronteira, num bairro violento e tomado pelas drogas, com um pai viciado que acabou morrendo de AIDS. Ela conta que, atualmente, a maior parte dos seus amigos de infância que ainda estão vivos são traficantes de drogas, matadores de aluguel para os cartéis, ou viciados. Aos 13 anos Ruth deu à luz seu filho, Brayan, e aos 15 atravessou para El Paso com Brayan em busca de uma vida mais segura com um casal de tios. Ela se envolveu com um homem com quem teve mais três filhos, mas o relacionamento não deu certo e o casal se separou. Ruth então conheceu Jaime Ortiz, um imigrante legal que está há muitos anos nos EUA e tem um bom emprego, que exige que ele viaje durante a semana. Ele se tornou uma afetuosa figura paterna para os filhos de Ruth, e ela passou a ser mais ativa em sua igreja, estudou o conteúdo do ensino médio e passou no teste GED [um exame certificação].

As crianças viviam como típicos texanos. Mariel Carolina,13 anos, era ótima aluna e já estava planejando entrar em uma escola do tipo “early college” [“faculdade antecipada”, onde os alunos do ensino médio já frequentam algumas aulas de faculdade e depois usam os créditos na universidade] em El Paso, para adiantar seu sonho de se tornar pediatra. Brayan, aos 15, jogava futebol e praticava levantamento de peso, e desde os 12 já era um compositor e rapper entusiasmado.

Numa manhã de domingo, no começo de março deste ano, Ruth foi às compras e saiu apressada para se preparar para a escola dominical às 11h. Ela pretendia ir para casa, lavar e passar as roupas de James e fazer comida para recebê-lo da viagem daquela semana. Tinha uma consulta marcada no dia seguinte com o advogado que estava conduzindo o processo de Brayan no programa Deferred Action for Childhood Arrivals (DACA, também conhecido como DREAM Act, a política imigratória que beneficiava as pessoas que haviam chegado ao país menores de idade) – ela já havia gasto centenas de dólares em honorários e as impressões digitais de Brayan já tinham sido colhidas. Também tinha agendado uma visita à escola para começar o processo de registro de Mariel Carolina.

A igreja terminou mais cedo na tarde de domingo, e Ruth e sua filha estavam voltando para casa na caminhonete quando foram paradas por uma dupla de patrulheiros em um veículo. Ao ouvir a sirene, Ruth não conseguia imaginar o que poderia ter feito. Ela conta que havia sido parada por patrulheiros algumas vezes em anos anteriores, por causa de infrações de trânsito, e que havia simplesmente recebido as multas, que pagou imediatamente. Não se preocupou quando disseram que ela havia sido parada porque a película das janelas estava muito escura, até perceber que a abordagem na verdade não tinha a ver com as janelas. A questão era seu status imigratório. Quando a noite chegou, ela já havia sido sugada para o sistema de deportação do DPS e da Patrulha de Fronteira.

O fluxo começa com uma regulação do departamento de veículos automotores exigindo como condição para a habilitação de condutores a comprovação de que residem legalmente nos EUA. A regra entrou em vigor em 2008, e seus resultados foram drásticos. Vários texanos não documentados foram forçados a dirigir sem habilitação, especialmente nas regiões em que o transporte público é ineficiente ou inexistente.

Um vídeo de câmera automotiva da Patrulha Rodoviária do Texas mostra o agente Cristobal Flores questionando repetidamente um imigrante sem documentos sobre sua habilitação.

No Texas, de acordo com um estudo do Pew Research Center, aproximadamente 6% da população não tem documentos – 1 em cada 18 pessoas. Nos condados de fronteira, no entanto, onde as pessoas passam décadas atravessando de um lado para o outro entre os países para encontrar os familiares, tradicionalmente não se presta muita atenção ao status migratório. Nessas comunidades, o número de pessoas sem documentos é muito maior. No condado de El Paso, onde viviam Ruth e sua família, cerca de 8% da população não tem papéis.

A casa de Ruth ficava em San Elizario, uma cidade que séculos atrás era um vilarejo de fazendeiros, e que fica a 30 quilômetros rio abaixo de El Paso. Durante muitos anos, era proibido aos xerifes-delegados da região perguntar às pessoas sobre seu status migratório durante as abordagens de trânsito.

No passado, era fácil encontrar patrulheiros nas regiões mais densamente povoadas do Texas, centro e leste, mas eles eram raros na fronteira com o México, de menor adensamento populacional. Mas os patrulheiros foram sendo enviados para o sul e para o oeste, a comunidades onde 75 a 98% da população é constituída por latinos, principalmente de ascendência mexicana.

A “onda” de patrulheiros na região de fronteira teve origem nos ataques terroristas de 11 de setembro. Com a criação do Departamento de Segurança Interna dos EUA em 2003, políticos conservadores do Texas começaram a vomitar um discurso sobre os perigos do narcotráfico, do tráfico de pessoas e do terrorismo que estariam espalhados pela fronteira entre Estados Unidos e México. Já em 2006, o governador do Texas Rick Perry estava canalizando recursos federais para os departamentos de fronteira e para o Departamento de Segurança Pública, a agência estadual que inclui os patrulheiros rodoviários e os Texas Rangers. Em 2008, o legislativo texano começou a alocar recursos estaduais para “segurança de fronteira”. O orçamento desse item disparou a partir daí, de 110 milhões de dólares para o biênio de 2008 e 2009, a 800 milhões para 2018 e 2019. O grosso disso vai para o DPS.

Os recursos vêm sendo gastos em atividades com nomes de inspiração militar como “missões de reconhecimento” e “Operação Segurança Forte”. As operações e missões são acompanhadas de canhoneiras, helicópteros e drones. Durante um período de alguns meses, em 2008, esteve no ar até mesmo um site controlado pela Aliança dos Xerifes de Fronteira do Texas em que “voluntários” civis podiam ter acesso às imagens de câmeras escondidas na região fronteiriça do Texas e comunicar por telefone os “avistamentos” de suspeitos de travessias irregulares e criminosos. Quase 25 mil pessoas se inscreveram para serem “delegados virtuais”. Aproximadamente um ano depois, no entanto, quando o programa foi discretamente interrompido, o trabalho dos tais “delegados” tinha levado a apenas onze apreensões, a um custo de dois milhões de dólares.

O número de autuações e advertências de trânsito disparou em diversos condados de fronteira depois que os patrulheiros de “segurança de fronteira” chegaram, e os líderes políticos locais reclamam que seus eleitores se sentem sitiados.

No rumo contrário da hipérbole política, na realidade a fronteira tem índices baixos de criminalidade quando comparada ao restante do estado. Não há notícia de nenhum terrorista que já tenha atravessado a fronteira entre México e Estados Unidos. E segundo a organização apartidária Conselho de Orçamento Legislativo (Legislative Budget Board), que assessora o legislativo estadual do Texas sobre o tema da eficiência das agências estaduais, as alegações do DPS sobre a efetividade do combate ao crime não são confiáveis, porque a agência não fornece medidas quantitativas sobre a segurança na fronteira.

O número de autuações e advertências de trânsito disparou em diversos condados de fronteira depois que os patrulheiros de “segurança de fronteira” chegaram, e os líderes políticos locais reclamam que seus eleitores se sentem sitiados. Um funcionário do DPS explicou em uma entrevista que os patrulheiros estariam fazendo abordagens por infrações irrelevantes, como o posicionamento das placas de identificação dos veículos, para fazer verificações dos motoristas e passageiros com relação a crimes graves. Essas abordagens sob pretexto se tornaram um meio importante de cercar imigrantes sem documentos.

Durante esse período, abordagens por infrações leves de trânsito diversas vezes acabaram levando os patrulheiros a acionar a Patrulha de Fronteira. Mas na maior parte do tempo, os agentes da Patrulha de Fronteira não estavam interessados em deportar esses “achado” inofensivos. Pessoas que já viviam nos EUA há anos, sem antecedentes criminais e com filhos nascidos nos EUA, eram geralmente detidas por algumas horas na estação da Patrulha de Fronteira, tinham as digitais colhidas e eram mandadas para casa. Essa política era popularmente chamada de “pega e solta” durante o governo Obama – os imigrantes seriam peixes pequenos. Os patrulheiros do DPS exerciam discricionariedade e muitas vezes adotavam a mesma prática permissiva, e por essa razão Ruth costumava receber apenas autuações.

Em novembro de 2016, logo antes da eleição presidencial, o diretor do DPS Steve McCraw enviou um e-mail aos patrulheiros encerrando a prática do “pega e solta”. “Quando houver causa provável de que alguém tenha atravessado a fronteira de forma irregular”, escreveu, “temos a obrigação de encaminhar esses incidentes à Patrulha de Fronteira dos EUA, ou […] ao Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro.”

Segundo os dados que o DPS forneceu ao senador do Partido Democrata José Rodríguez em abril, entre dezembro de 2015 e outubro de 2016 eram em média 13 encaminhamentos à Patrulha de Fronteira por mês.

WESLACO, TX - APRIL 13:  A Border Patrol agent looks for illegal immigrants near the U.S.-Mexico border on April 13, 2016 in Weslaco, Texas. Border security and immigration, both legal and otherwise, continue to be contentious national issues in the 2016 Presidential campaign.  (Photo by John Moore/Getty Images)

Um agente da Patrulha de Fronteira dirigindo perto da fronteira entre EUA e México, em 13 de abril de 2016 em Weslaco, Texas.

Foto: John Moore/Getty Images


O pico nos relatos de encaminhamentos veio logo na sequência do e-mail de McCraw. Pelas estatísticas enviadas a Rodríguez, em dezembro de 2016 ocorreram 40 incidentes assim, comparados a 24 em dezembro de 2015.

No vídeo de câmera veicular que relembra a abordagem de Ruth Mariel Ramirez por conta de suas janelas, o patrulheiro Korin Hutchisson ordena que Ruth e Mariel Carolina permaneçam no acostamento de uma estrada poeirenta perto da igreja que frequentam. Ele confirma que Ruth não tem habilitação do Texas. Ela mostra a ele uma habilitação mexicana, e o parceiro de Hutchisson, Patrick Brookshier, segura o papel contra a luz. “É falso”, ele diz. Ruth tinha outros documentos, inclusive um título eleitoral do México com seu endereço no Texas, mas os patrulheiros demonstram ter certeza de que ela está se ocultando sob um nome falso.

Depois que sua filha é mandada para casa, Ruth sua em silêncio sob o sol do deserto por quase uma hora até que um agente da Patrulha de Fronteira chega, olha rapidamente a habilitação, e dá de ombros. “É meio fraco”, ele disse sobre o documento e sobre a insistência dos patrulheiros de que a identidade de Ruth é falsa. Ainda assim, ele a conduz ao veículo da Patrulha de Fronteira. Os patrulheiros especulam que Ruth seja uma grande narcotraficante – “muito cacife”, eles riem – buscando se passar por outra pessoa, “tentando não parecer tão importante” ao dirigir uma caminhonete “surrada”.

No escritório da Patrulha de Fronteira, segundo Ruth, os patrulheiros tomavam goles de capuccino de loja de conveniência enquanto ela era identificada, de acordo com os registros do juízo de imigração, como sendo exatamente quem ela dizia ser, sem ficha criminal. No entanto, ela foi considerada deportável e enviada para um centro de detenção de imigrantes.

Hutchisson e Brookshier não se manifestaram quando procurados para comentar, e o Departamento de Segurança Pública do Texas não respondeu aos pedidos para disponibilizá-los para entrevistas.

A abordagem e a apreensão de Ruth vieram em seguida de outra apreensão feita pelo DPS três semanas antes, 1.300km abaixo de El Paso seguindo o curso do Rio Grande, em Brownsville, em que foi detido um casal com quatro filhos nascidos nos EUA.

A filmagem do DPS nessa abordagem mostra a patrulheira Mirna Garcia parando Luis e Berta, que pediram que fossem usados pseudônimos para proteger sua família de retaliações. O incidente aconteceu também numa tarde de domingo, quando o casal estava atrasado para a igreja e se apressava para chegar. No vídeo, Gracia orienta Luis a parar o carro no estacionamento de uma loja de conveniência, e então o repreende pela velocidade e pede sua habilitação. Luis não tinha o documento, e Gracia começa a interrogar os dois sobre seu status migratório. Eles dizem que moram há alguns anos em Brownsville e que têm quatro filhos nascidos lá. São provenientes de Matamoros, a cidade mexicana logo depois da fronteira, e costumavam ter vistos de travessia para fazer visitas de compras ao Texas. Desde que se mudaram para Brownsville, no entanto, não tiveram dinheiro para regularizar seus documentos de residência permanente, porque têm um filho doente.

Gracia vê um agente da Patrulha de Fronteira saindo da loja de conveniência e acena para que ele venha. Ela então diz a Luis e Berta que alguém precisa vir buscar o carro e o filho pequeno do casal, que está no banco da frente. Berta liga para seu filho de 16 anos, Alan, que é capitão do time de futebol da escola onde estuda. Alan chega em minutos, de short e chinelo, e fica em choque.

“A Patrulha de Fronteira vai levar seu pai”, Gracia diz ao rapaz, em inglês. Ele começa a chorar. “Filho, não chore”, diz Berta em espanhol. Em seguida, diz à patrulheira: “Ayúdenos!” Ajude-nos!

Yo estoy haciendo mi trabajo, ma’am”, responde Gracia. Estou só fazendo meu trabalho.

Sem dinheiro para pagar advogados de imigração, Luis e Berta foram deportados.

Um vídeo de câmera veicular da Patrulha Rodoviária do Texas mostra a patrulheira Mirna Gracia contando ao jovem Alan, de 16 anos, que a Patrulha de Fronteira vai levar seu pai.

Algumas semanas depois que Luis e Berta foram detidos, Paco e Carlos – que também pediram que seus nomes verdadeiros fossem ocultados em benefício da segurança de suas famílias – foram apreendidos em incidentes separados, com horas de diferença, no mesmo local, perto de McAllen, no Texas. Ambos foram detidos por um patrulheiro sisudo chamado Cristobal Flores, que depois de apenas uma semana destacado para a zona de fronteira já havia capturado quatro pessoas sem documentos, e estava claramente orgulhoso do feito. Uma das mulheres presas por ele contou que havia se mudado para o Texas depois de 17 anos morando em Illinois. Outra já estava no Texas há 15 anos. Outra, ainda, vivia no estado há duas décadas. Algumas semanas depois, Flores capturou mais quatro pessoas na mesma área – incluindo um casal com dois bebês e um homem que estava em um veículo com seu pai, sua esposa e sua filha pequena, todos cidadãos norte-americanos.

Paco, um vendedor de brinquedos vintage, foi parado por estar em alta velocidade num dia de semana pela manhã, com sua van cheia de mercadorias que ele havia acabado de comprar no atacado. Na filmagem é possível ver e ouvir Flores pedindo a Paco que explique por que não tem habilitação do Texas.

“¿Por qué?” Flores pergunta a Paco. Por quê?

Paco tenta exercer seu direito de ficar em silêncio nos termos da Quinta Emenda à Constituição dos EUA, mas Flores não é adepto das liberdades civis. Sua pergunta, que já era ríspida num primeiro momento, com a repetição se torna um grito ameaçador. “¿Por qué? ¿Por qué? ¿POR QUÉ? ¿POR QUÉ?”

Paco permanece mudo e intimidado, e Flores dá um telefonema em voz baixa usando códigos: “Unidade BP (Border Patrol, a Patrulha de Fronteira), venham aqui. Achei um UDA.” UDA, “undocumented alien”, estrangeiro sem documentos.

Paco foi mandado para o Centro de Processamento de Port Isabel, uma instituição cercada de arame de concertina e a quilômetros de qualquer cidade, por estradas esburacadas perto do Golfo do México. Os detentos ali não vêm apenas do México, mas também da América Central, da América do Sul, do Haiti e da Eritreia. Pouco depois de Pablo, outro recém-chegado adentra a cela: Carlos, que também havia sido abordado por Flores por trafegar em alta velocidade, logo depois da prisão de Paco.

O vídeo de Carlos mostra que Flores o tratou de forma educada, mas dissimulada.

Pela política do DPS, quando os patrulheiros abordam um motorista por infração de trânsito, eles geralmente liberam a pessoa depois de fazê-la assinar uma autuação ou advertência por escrito. (Em outras filmagens, pode-se ouvir patrulheiros discutindo essa prática.) No caso de Carlos, no entanto, a Patrulha de Fronteira demorou a chegar quando acionada por Flores, e os agentes ainda não haviam chegado depois de 15 minutos da abordagem.

Flores faz Carlos assinar sua autuação, mas diz em espanhol que ele não está liberado: “Estou esperando chegar mais informação.” “Informação”, no caso, eram os agentes da Patrulha de Fronteira, que aparecem em instantes. Eles vão embora levando Carlos. Outro patrulheiro passa pelo local, e bate papo com Flores sobre imigrantes sem documentos. Flores comenta que seria bom ter ajuda para limpar a área para onde está designado: “se pelo menos um desses patrulheiros viesse trabalhar comigo para advertir esse pessoal”.

“Você acha que o tráfego diminuiria se eu trabalhasse aqui?”, pergunta Flores.

Os dois riem.

Quando instado, o Departamento de Segurança Pública do Texas não se manifestou sobre o comportamento verbalmente agressivo de Flores. Flores e Garcia também não deram nenhuma resposta.

Quando Carlos chegou à prisão de Port Isabel, ele já sabia pelos rumores que escutou no escritório da Patrulha de Fronteira que outra pessoa havia sido detida logo antes, no mesmo lugar, pelo mesmo patrulheiro. Ele chamou na cela até que Paco respondeu que era ele. Como imigrantes viajando nas cobertas inferiores do mesmo navio para a América um século atrás, surgiu uma ligação entre eles, e se tornaram amigos.

Carlos se lembrava como era a vida do outro lado da fronteira de McAllen em Reynosa, México, antes de emigrar. Lá ele trabalhava 48 horas por semana numa fábrica de propriedade de estrangeiros – uma maquiladora – pelo equivalente a 50 dólares estadunidenses por semana. Todos os dias sua família comia feijão e ovo. Na prisão para imigrantes, o almoço era arroz com feijão e um mini sanduíche. Carlos perdeu quase cinco quilos depois de 23 dias em Port Isabel.

A “dieta” radical, porém, era suportável. O que incomodava Carlos era não poder trabalhar – e, além disso, não ver sua família. Sua esposa e suas filhas adolescentes não podiam ir vê-lo na prisão porque também não têm documentos. Só o bebê de 18 meses e o garoto de 11 anos no ensino fundamental são cidadãos norte-americanos.

Logo depois da prisão de Carlos, ninguém contou ao menino de 11 anos que seu pai havia sido levado. A família estava tentando poupá-lo, mas a tentativa só durou alguns dias, até que a criança fosse encarregada de ir à prisão. Um vizinho lhe deu carona até a estrada esburacada, atravessando as barreiras de arame farpado. Ele estacionou e ficou no carro. O menino passou sozinho pelos guardas e pelos detectores de metal; ele e seu pai ficaram separados por um painel de vidro durante a visita. Ambos choravam demais para conseguir conversar muito, mas Carlos prometeu que, quando saísse, iriam juntos ao parque Six Flags em San Antonio.

O garoto nunca contou a nenhum de seus amigos que o pai estava em um centro de detenção. Até hoje ele ainda não consegue falar sobre isso. Quando o assunto é mencionado, ele fica calado, mas seu rosto treme.

As famílias de Paco e Carlos conseguiram contratar advogados e tirá-los de Port Isabel sob fiança. No total, Carlos pagou US$10.500 para voltar para casa. Paco pagou US$8.500, em grande parte dinheiro emprestado de parentes. Seu dinheiro até então estava reservado para pagar pela inscrição de sua filha no programa do DACA. Como foi necessário dar outro uso a ele, sua filha de 17 anos, excelente aluna, continua sem documentos.

Os dois homens agora estão enfronhados em processos, com mais custos, para questionar os esforços do governo de removê-los do país. Levará meses, talvez anos, até que uma decisão seja prolatada. Ambos se fortalecem na fé religiosa pela esperança de resultados favoráveis. Mas ambos sabem que suas chances de permanecerem nos EUA são precárias. Carlos já pensou em se mudar para o Canadá.

FILE - This June 18, 2014 file photo shows U.S. Customs and Border Protection agents working at a processing facility in Brownsville,Texas. Immigration courts are speeding up hearings for the tens of thousands of Central American children caught on the U.S. border after criticism that the backlogged system is letting immigrants stay in the country for years while waiting for their cases to be heard. (AP Photo/Eric Gay, Pool)

Agentes da Agência de Fiscalização de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA trabalhando num centro de processamento em Brownsville, no Texas, em 18 de junho de 2014.

Foto: Eric Gay/AP

Nesse meio tempo, pelo menos puderam voltar para casa no Texas com suas famílas. Luis e Berta, o casal expulso de Brownsville para o México, não tiveram a mesma sorte.

Por uma semana depois que os dois foram presos, seus filhos, inclusive a estrela do time de futebol do colégio, Alan, de 16 anos, continuaram a morar na mesma casa alugada em Brownsville. Mas logo ficaram sem dinheiro até para o aluguel, e foram despejados. Numa tarde de sexta-feira, as crianças jogaram os móveis de segunda mão da família na rua, colocaram suas roupas em bolsas, e conseguiram carona num caminhão para Matamoros. Eles passaram duas semanas na casa apertada dos avós de Alan num bairro pobre.

O time de futebol da escola Lopez High School sentiu falta de Alan – sem sua liderança como capitão, o time estava sofrendo sucessivas derrotas. Alan voltou para Brownsville com um dos irmãos, também aluno da mesma escola, e se espremeram com seus tios e vários primos. Alan começou a dormir num quartinho com vários outros parentes em lençóis estendidos no chão. O bairro é apelidado de “Trailitas” – Trailerzinhos – porque boa parte das moradias são antigos trailers. As pessoas pelas ruas são amigáveis, em contraste com os bandos de cães e gatos ferais e magrelos que brigam nos quintais com galos e galinhas muito mais bem nutridos.

O time de futebol tentou ajudar Alan a sobreviver ao choque de ter se tornado, de uma hora para a outra, quase órfão, pois sempre teve seus pais por perto. Seu treinador, Amadeo Escandón, recebeu um telefonema choroso de Alan no domingo à noite na sequência das prisões. “Eu não sabia o que dizer ao garoto”, declarou Escandón. “Ele estava arrasado.”

Alan permaneceu em Brownsville e visita seus pais todos os fins de semana em Matamoros, uma cidade tomada pelo Cartel do Golfo. O chefe de polícia de Brownsville havia recomendado extremo cuidado ao visitar Matamoros, depois que uma adolescente foi morta num shopping em um tiroteio entre cartéis em 2016. Nos últimos tempos, Alan parece derrotado e magro. Ele perdeu peso. Seu último ano do ensino médio começou no segundo semestre, e os treinadores estão se esforçando para conseguir uma bolsa de atleta para que ele possa ir à universidade. Ele está determinado a permanecer nos Estados Unidos: “é meu país”, diz ele. “Eu nasci aqui.”

Em Ciudad Juárez, atravessando a fronteira internacional de El Paso, os quatro filhos de Ruth Mariel Ramirez não sabem mais com certeza se têm um país.

Ruth passou quase dois meses na prisão para imigrantes até concordar com uma “saída voluntária” dos Estados Unidos – um arranjo que deixa a ela a possibilidade de retornar ao país no futuro. Ela disse que aceitou o acordo porque estava exausta. Passou semanas comendo a gororoba nojenta do centro de detençao: a lasanha quase podre tinha baratas no meio, e ela achou bichos no bolo de banana.

Muito pior do que a comida da prisão, no entanto, era a situação de seus filhos em casa. A mãe e a irmã de Ruth estavam tentando cuidar das crianças, mas apesar desses cuidados elas estavam afundando acadêmica e emocionalmente.

“Era tudo muito estranho”, contou Brayan. “Eu não me sentia bem por dentro. Parei de comer e comecei a só dormir.”

Brayan foi provavelmente quem ficou pior. Ele é muito próximo de sua mãe. “Ela que sempre esteve comigo”, ele disse. “Com ela me sinto super confiante. Sempre que eu voltava de um jogo de futebol americano, ia contar a ela o que tinha feito de bom ou ruim. Ela sempre perguntava do meu dia. E aí não tinha mais ninguém para conversar.” Segundo a irmã de Brayan, Mariel Carolina, com o súbito desaparecimento da mãe a casa se tornou silenciosa, porque cada um se recolhia ao seu quarto para chorar na privacidade. Parecia que alguém tinha morrido, ela lembra.

“Era tudo muito estranho”, contou Brayan. “Eu não me sentia bem por dentro. Parei de comer e comecei a só dormir. Quando não estava dormindo, passava as noites em claro chorando. Durante o dia na escola, “eu só abaixava a cabeça e colocava os fones de ouvido”, disse ele. Até então um bom aluno, ele parou de fazer suas tarefas e passou a confrontar seus professores, a quem pouco dizia sobre o que havia acontecido com sua mãe. Depois de algumas semanas assim, foi suspenso, e então expulso. Ele foi reprovado no nono ano.

A única válvula de escape de Brayan eram os dois raps sobre Ruth que ele compôs e cantava. Um deles, intitulado “Soledad” – solidão – se dirige em espanhol à mãe e a Deus. Eu preciso do seu amor. Preciso de você do meu lado. Por favor, Deus.

Brayan publicou as músicas no Facebook e pediu a todos para “curtir”. Ele também postou: “quero me matar”. Assustados, alguns familiares avisaram Ruth. Ela sabia que precisava voltar para perto do filho, mesmo que isso significasse que ambos seriam banidos do país.

Segundo Ruth, ela pensara que seu acordo de “saída voluntária” incluiria voltar ao México pela ponte que liga seus dois mundos, El Paso e Juárez. Qual não foi sua surpresa ao ser embarcada num ônibus no meio da noite com outros detentos, e conduzida por horas na escuridão. “Com licença, para onde estamos indo?”, ela perguntou ao motorista. “Não sei”, ele respondeu. “Como assim, você não sabe?”  “Eles vão jogar vocês de volta em Coahuila”, ele disse. “O que é Coahuila?”, ela perguntou. “É no México”, ele riu.

“Estou com medo”, ela disse aos carcereiros que estavam com ela no ônibus. “Não sei nada sobre esse lugar, estou sem meu telefone, não tenho dinheiro – o que vou fazer?” “Isso é problema seu”, disseram primeiro a ela, e “para fora!” quando mandaram que ela descesse do ônibus sobre uma ponte internacional no meio da noite e andasse para o sul. Ela tinha bons motivos para estar com medo: o Departamento de Estados dos EUA emitiu um alerta de viagem aconselhando os cidadãos norte-americanos a evitarem o estado mexicano de Coahuila em razão dos altos índices de violência, especialmente perto da fronteira. Autoridades mexicanas permitiram a ela uma ligação gratuita para seu parceiro, Jaime, que estava transtornado por não fazer ideia de seu paradeiro. Ela conseguiu dinheiro para comprar uma passagem de ônibus para Juárez.

Chegando lá, ela instruiu todos os seus filhos a irem embora do Texas e se juntarem a ela do outro lado da fronteira, embora três deles sejam cidadãos americanos. “Sou a mãe deles”, ela explicou. “Eles precisam da mãe. Não posso deixá-los com pessoas que não se importam de verdade com eles.”

Mariel Carolina, Alexander e Oscar podem voltar para El Paso quando estiverem mais velhos. Brayan não tem essa possibilidade. Embora seja culturalmente norte-americano, sua nacionalidade é mexicana, e ele não tem documentos de imigração que lhe permitam permanecer nos EUA. Ruth sabia que a ida de Brayan para Juárez significava não só que ele teria que desistir de se beneficiar do DACA, mas que também poderia nunca mais conseguir entrar nos Estados Unidos.

Quando Brayan atravessou de El Paso para Juárez “ele só chorava”, recorda Ruth. Ele não tinha lembranças da sua cidade natal, nem qualquer familiaridade com aquela pobreza árida e palpável. “Ele olhava para as ruas”, conta Ruth, “e colocava as mãos na cabeça”. Mas ele não se matou.

A própria Ruth está passando por algo novo: um tratamento contra depressão e ansiedade em resultado de suas experiências. As crianças também estão sofrendo. “Sentimos que não estamos vivendo, estamos sobrevivendo”, diz ela. Um dos problemas de seus filhos é a frustração com sua nacionalidade e com a forma como terão que lidar com sua cidadania quando se tornarem adultos.

“Minha filha disse que não quer ir para os EUA”, conta Ruth, “porque se o país não me quer, não os quer também.”

O país definitivamente não quer Brayan, e a família está preocupada com ele.

Atualmente com 16 anos, ele está tendo muita dificuldade com a escola em Juárez, principalmente porque não sabe escrever em espanhol. Ele fala que quer abandonar a escola. Ruth diz a ele que, se conseguir se formar, ela vai permitir que ele continue investindo no rap. “É o que eu planejo fazer no meu futuro”, diz Brayan. Ele está cheio de uma arrogância desesperada. Diz que no ano que vem vai ficar famoso.

Mas os sonhos de Brayan, tão possíveis e benignos no Texas, são frágeis e sombrios no México. Em El Paso, ele tinha um amigo com quem ia começar a gravar músicas profissionalmente. Em Juárez, fez contato com uma pessoa que tem um estúdio. O estúdio, porém, fica “perto da casa da minha avó”, diz ele, e “no bairro da minha avó há muitas drogas e prostitutas”. Brayan nunca teve problemas com drogas no Texas. Agora, porém, no ambiente confuso e perigoso de Juárez, sua irmã diz que “ele poderia mudar muito rapidamente”.

Ainda assim, a família está feliz por estar novamente reunida. Ruth diz que não guarda mágoa contra o país que a expulsou. “Eu amo muito os Estados Unidos. É onde meus filhos nasceram. É onde estudei. O país me ensinou muitas coisas.” Ela culpa os patrulheiros do DPS por destruir as vidas da sua família, principalmente quando assiste ao vídeo de sua abordagem, onde os patrulheiros Patrick Brookshier e Korin Hutchisson falam sobre os os “estrangeiros ilegais” que estão capturando, como se trabalhassem com controle de pragas. Brookshier: “Eles estão saindo da toca agora.” Hutchisson: “É o que estou te dizendo, cara. Eu atraio esse pessoal!”

Ruth considera que os patrulheiros brincaram com ela de forma cruel, por pura diversão, como cães destruindo um brinquedo de morder. Os Estados Unidos, para ela, “não têm culpa por cachorros como eles”.

Os Estados Unidos talvez não tenham culpa, mas o estado do Texas certamente tem. O manual dos patrulheiros rodoviários estaduais determina que eles devem chamar a Patrulha de Fronteira se suspeitarem que alguém abordado por uma infração de trânsito esteja no país sem autorização. O manual, porém, não diz nada sobre interrogatório de passageiros, e expressamente proíbe executar as leis de imigração de forma independente; os patrulheiros são instruídos a não deter ninguém com base apenas em suspeitas sobre seu status migratório. E, no entanto, The Intercept obteve um vídeo de câmera veicular de um patrulheiro abordando pedestres e chamando a Patrulha de Fronteira.

O DPS alega não saber quando os pedestres teriam sido abordados, quem seria o patrulheiro, por que motivo teria feito a abordagem, e nem mesmo onde isso teria acontecido – embora The Intercept tenha conseguido identificar o local como uma rua perto de Laredo. Molly Cost, do departamento de acesso à informação do DPS, diz que sua repartição não sabe quem enviou o vídeo a The Intercept. A completa perplexidade do órgão diante desse vídeo permite concluir que a agência não sabe quantas abordagens, nem quantos encaminhamentos à Patrulha de Fronteira seus agentes efetivamente praticam, e tampouco se essas abordagens são no mínimo constitucionais.

No começo do ano o Texas aprovou o projeto de lei nº 4 do Senado Estadual – conhecido como “SB4″ (Senate Bill 4), a lei de “mostre seus documentos” – embora partes da lei tenham sido barradas na justiça federal. A SB4 encoraja praticamente todos os agentes com poder de polícia no estado, incluindo agentes de policiamento de rua, delegados e comandantes, a interrogar as pessoas sobre seu status migratório durante abordagens relativas a outros assuntos, e a chamar os agentes de imigração.

Muitos policiais vão preferir não fazer essas perguntas. Outros, como a patrulheira do DPS Mirna Gracia em Brownsville, vão apenas “fazer seu trabalho”. E um número incerto, à semelhança dos patrulheiros Cristobal Flores no Vale do Rio Grande e Hutchisson e Brookshier em El Paso, vão adorar a função, e mandar mais texanos para o sistema de deportação que se torna cada vez maior e mais destrutivo.

Esse projeto foi apoiado pela organização jornalística sem fins lucrativos Economic Hardship Reporting Project (Programa de Reportagens sobre Dificuldades Econômicas).

Tradução: Deborah Leão