Meses de salários irregulares e atrasados. Empréstimos, juros em cima de juros. Servidores públicos em um desespero tão grande que houve quem chegou ao fim da linha: tirou a própria vida. Poderia ser Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul ou outros estados em crise financeira, mas o caso crítico neste momento vem do Rio Grande do Norte.

O comandante de um dos batalhões do estado dispensou um cabo do serviço porque ele não tinha mais condições de trabalhar sem receber salários. “Não é fácil ver um homem feito chorar de desespero ao narrar a falta de pão em sua residência”.

A reunião entre governo e associações que representam policiais militares e bombeiros – que afirmam não estar em greve, e sim aquartelados, não saindo às ruas devido a falta de recebimento de salários e condições de trabalho – realizada na noite passada (04) terminou sem acordo. A Força Nacional foi acionada e atualmente está presente em quatro cidades da Grande Natal. Uma delas, Parnamirim, chegou cancelou shows e a queima de fogos no reveillon devido a insegurança.

O movimento “Segurança com segurança” começou em 19 de dezembro. A situação dos servidores sem salário não parece ser o centro da situação, tanto, que foi pedida a prisão de policiais que incentivem a paralisação, em vez de determinar o pagamento dos atrasados e a regularização das condições de trabalho.

Um cabo que não pode ser identificado e está há 16 anos na PM do Rio Grande do Norte escreveu um relato a The Intercept Brasil sobre seu atual momento na corporação. Mesmo quase se formando no curso de sargento, ele está arrependido de um dia ter escolhido vestir farda. “Hoje eu sei que falhei com minha família por escolher escolher ser policial e não poder sustentá-la”. Leia o relato do agente sobre seu atual momento na corporação:

Quando prestei concurso para a PM há quase 20 anos, jamais imaginaria que eu e meus colegas iríamos passar o que estamos vivenciando agora.

Estou com o salário de dezembro e o décimo terceiro em atraso, alguns que ganham um pouco mais estão também com o de novembro em atraso. Atrasos que já vêm se prolongando há cerca de 23 meses. Sempre fui um cara altamente controlado com dinheiro, o pouco que ganho como policial militar sempre deu, na medida do possível, para que eu suprisse as minhas necessidades e as da minha família.

Com tantos atrasos, eu, que sempre paguei em dia as minhas contas, hoje me encontro devendo o cheque especial, juros em cima de juros dos cartões de crédito, empréstimos e por aí vai. Semana passada, venceu o boleto do consórcio que pago com muito esforço e suor para, um dia, comprar meu automóvel próprio. Todo mundo sabe que andar de ônibus ou qualquer meio de transporte público hoje, sendo policial, é quase a mesma coisa que cometer um suicídio.

Esses constantes atrasos estão criando um abalo emocional muito grande, me sinto desprezado pelo governo, me sinto impotente frente às situações financeiras que passo porque não me resta mais nada a fazer. Muitas vezes me sinto um lixo.

Vou confessar algo que me aconteceu há alguns dias e, quando me lembro, meus olhos se enchem de lágrimas.

Eu tenho um filho que mora em outro estado. Ano passado, eu fiz uma promessa a ele: disse que o traria no final de 2017 para passar os meses de férias comigo. Agora, em janeiro, já faz três anos que não o vejo a não ser por fotos ou ligações. Meu filho já é um adolescente, sinto que precisa do pai junto para um conselho, uma conversa. Essa semana, por causa da falta de pagamento do meu salário, tive que ligar para o meu filho e tentar explicar que iria quebrar a promessa que tinha feito a ele porque não tinha dinheiro nem para me alimentar, quanto mais para custear sua vinda para minha casa.

Durante a conversa, pude sentir seu tom de voz mudar. Percebi o quanto ele ficou decepcionado comigo como pai. Na hora, me bateu uma dor tão grande que eu me arrependi de abraçar a carreira de policial. Até fiz um pequeno texto e enviei para uns amigos, mais ou menos assim: ‘Hoje eu sei que falhei com minha família por escolher ser policial e não poder sustentá-la.’

Eu disse essas palavras com tanta dor no coração! Em quase 20 anos de dedicação à sociedade, foi a primeira vez na vida que eu me arrependi de ser policial. Será que dá pra imaginar o quanto isso dói? Não sei, mas eu sei o quanto isso está me custando psicologicamente.

Em outros países, os policiais são vistos como heróis. Aqui, infelizmente, somos mal vistos. Alguns têm até nojo e desprezo pela gente.

Recentemente, depois de quase 20 anos de serviços prestados à PMRN [Polícia Militar do Rio Grande do Norte], fui convocado para fazer o curso de sargentos, que pode dar uma qualidade de vida melhor para mim e minha família. Esse curso era para ser comemorado, ser motivo de festa e de muitas alegrias, mas na hora que caiu a ficha, me bateu um desespero, me vieram as perguntas: como é que eu vou chegar ao local do curso se eu não tenho o dinheiro da passagem? Como é que eu vou frequentar o curso, se há três ou quatro anos eu não recebo fardamento, coturno(bota), cobertura(boné), não tenho como me alimentar durante o curso ou qualquer equipamentos para desenvolver minha atividade?

A turma do curso, que era para estar cheia de policiais alegres com as futuras ascensões, é composta por homens e mulheres cabisbaixos, com pouquíssimas palavras ditas, pessoas com a cabeça não se sabe onde.

Como pode um policial sair para trabalhar de barriga vazia, meu Deus? Onde vamos parar?

Esses comportamentos, que tanto eu quanto toda a tropa estamos tendo, já deixaram os oficiais preocupados. Eles já perceberam que eu e outros mais já estamos depressivos com tantos problemas que estamos carregando sem termos culpa, já alertaram os instrutores e monitores para que informem se notarem algum comportamento ou atitude estranha.

Ontem mesmo, um colega tentou se matar após a esposa ligar para ele chorando e dizendo que estava com fome. Eu fico me perguntando como podemos sair de nossas casas para combater o crime se não temos armas adequadas, munições suficientes, coletes (muitos, por sinal, estão vencidos), viaturas sem a menor condição de rodar, farda, e o mais importante, os nossos salários. Se eu fosse explicar, daria um livro.

Eu ouço, todos os dias, amigos e colegas dizendo ‘eu estou passando fome’. Como pode um policial sair para trabalhar de barriga vazia, meu Deus? Onde vamos parar?

Eu estou escrevendo esse texto, e minhas lágrimas estão rolando pelas teclas do teclado deste computador. Já não sei o que faço para sanar essa situação, não recebo meu salário, não posso fazer bico, e aí? O que é que eu vou fazer para comer e pagar minhas contas?