Você já se envolveu numa briga? Numa porrada de verdade. Não uma luta de artes marciais, mas uma briga do tipo que não dá nem tempo de fazer pose ou dar gritos à la Bruce Lee, essa coisa ensaiada para a TV. As brigas de verdade são uma bagunça, e depois que você se envolve em uma, passa a olhar as outras de outro jeito.

Para muitos de nós, 2017 foi uma porrada. Como é comum em brigas, nem dá para ter certeza se ganhamos ou perdemos, mas tenho a impressão de que perdemos. Sei que estamos todos estropiados e doloridos. Acertamos um golpe ou outro, ainda estamos de pé — se isso é vencer, não quero nem saber o que seria perder.

Para muitos de nós, 2017 foi uma porrada. Estamos estropiados e doloridos.

No ano passado, mais gente foi morta pela polícia dos Estados Unidos do que em 2016, mas o procurador-geral Jeff Sessions e o Departamento de Justiça estão fazendo o que podem para eximir a polícia da responsabilidade. Os direitos de muçulmanos, imigrantes e indígenas norte-americanos foram atropelados. Pessoas morrem de fome no Iêmen. Africanos estão sendo comprados, vendidos e assassinados na Líbia. Nos EUA, os ricos acabam de ganhar enormes reduções tributárias, enquanto a maior parte dos americanos não consegue nem pagar assistência básica de saúde ou as anuidades da faculdade. E os políticos que se dizem progressistas parecem estar constrangidos demais para agir como deveriam.

Houve também derrotas mais concretas, e foram muitas.

O súbito ataque cardíaco e o coma que levaram à morte de Erica Garner, de 27 anos, mãe e ativista contra a violência policial, até fez sentido como ato final de 2017. Sua morte foi um desfecho terrível para um ano incrivelmente difícil. Erica era minha amiga, e eu confiava nela. Era a pessoa mais honesta e autêntica do mundo. Ela praticava o exercício diário de dizer a verdade aos que estão no poder e não tinha paciência para enrolação. É à sombra de sua morte precoce que contemplo 2018 e tento imaginar o que nos aguarda.

Melhor começar pelas coisas que não vão acontecer em 2018.

Donald Trump não vai sofrer um impeachment, ponto final. Em primeiro lugar, porque independentemente do que o promotor especial Robert Mueller descubra em sua investigação, o Partido Republicano continuará controlando o Congresso pelo menos até janeiro de 2019. Até lá, mesmo que o Partido Democrata consiga vitórias arrasadoras nas eleições de meio de mandato, os Republicanos que já estão no poder não irão dar seguimento a um processo de impeachment. Eles já estão envolvidos demais, atrelados à liderança de Trump e ao seu legado. Ainda que a investigação de Mueller venha a acusar alguém próximo de Trump de obstruir as investigações ou de praticar algum crime relativo ao conluio com governos estrangeiros, Trump não renunciaria de forma alguma. Tudo isso para dizer que 2018 será mais um ano com Trump na presidência dos EUA, e é inútil tentar imaginar qualquer cenário diferente.

Depois de tomar uma surra, você pode simplesmente manter a mesma estratégia e continuar perdendo, ou pode repensar tudo, se recompor, e só então voltar à luta.

Ainda assim, há espaço para algumas vitórias, e é isso que espero que aconteça em 2018:

2018 vai ser o ano da reorganização. Depois de tomar uma surra daquelas, você pode simplesmente manter a mesma estratégia e continuar perdendo, ou pode repensar tudo, se recompor, e só então voltar à luta, agora com mais chances de ganhar. É uma lição que precisamos aprender com a Erica: organizar, organizar, organizar. Para fazer as coisas acontecerem, é preciso estar presente, trabalhando, especialmente diante das adversidades.

Se conseguirmos fazer isso, 2018 será um ano de planos melhores e ações mais bem executadas. Em 2017, tivemos várias derrotas seguidas no campo da reforma do sistema criminal, mas cada vitória – de alguns avanços essenciais no tratamento de jovens infratores à ampliação da legalização e descriminalização da maconha – exigiu muita luta e bastante organização. Alguns promotores mais reformistas foram eleitos em 2017. Nos EUA, passaremos a usar, de 2018 em diante, o que aprendemos e compreendemos nessas eleições em centenas de outras corridas eleitorais no âmbito do ministério público — disputas que até então estavam em segundo plano.

Na segunda-feira, dia 1º de janeiro, o uso recreativo da maconha se tornou lícito na Califórnia. Esse é um avanço que não pode ser desprezado. O impacto que terá no sistema de justiça e na economia da Califórnia é imenso. E a Califórnia dita o ritmo para boa parte dos EUA. À medida que outros estados perceberem os benefícios, 2018 será o ano em que um número recorde de cidades e estados começarão a seguir o exemplo, promovendo as reformas necessárias ou criando os mecanismos para analisar a questão. (E ainda falando da Califórnia, o estado também fará significativo progresso na ampliação da assistência universal de saúde.)

Legalizar a maconha significa que, em 2018, veremos um movimento crescente para limpar a ficha criminal de pessoas que foram condenadas por crimes relativos a essa droga na Califórnia e em outros lugares. Haverá também avanços na restauração do direito ao voto para ex-presidiários em todo o país [nos EUA, existem prazos após o cumprimento da pena para que seja restaurado o direito ao voto].

Por fim, teremos um comparecimento recorde às urnas de todo o país em 2018 para as importantes eleições de meio de mandato, igual ou mesmo maior que o das últimas eleições presidenciais. Essa tendência deve se manter em 2019 e 2020, e provavelmente levará Democratas e progressistas em geral a começarem a recuperar poder.

Há muito trabalho pela frente. Nada disso será fácil. Mas se nos esforçarmos, podemos esperar tudo isso e muito mais. Podemos encontrar nosso caminho rumo ao progresso.

Foto do título: Erica Garner, que faleceu no final de dezembro de 2017, segura as lágrimas enquanto conversa com a imprensa em 11 de dezembro de 2014, em Staten Island, NY, depois de liderar uma marcha que protestava contra a decisão do júri de não indiciar o policial envolvido na morte de seu pai, Eric Garner, por estrangulamento, em julho de 2014.

Tradução: Deborah Leão