“Seu irmão criou o Estado Islâmico”, disse a estudante universitária Ivy Ziedrich a um perplexo Jeb Bush na saída de uma reunião na prefeitura de Reno, no estado americano de Nevada, em maio de 2015.  Ele, que na época alimentava esperanças de concorrer à presidência pelo Partido Republicano, tentou defender o ex-presidente George W. Bush culpando Barack Obama, que ordenara a retirada das tropas americanas do Iraque em 2011.

George W. Bush, fundador do EI? Isso cheira a teoria da conspiração, não? Entretanto, a acusação de Ziedrich não é totalmente disparatada.

Se não fosse pela decisão catastrófica de invadir e ocupar o Iraque em 2003, violando as leis internacionais, o grupo terrorista mais temido do mundo não existiria. O Estado Islâmico foi um tiro que saiu pela culatra.

No episódio desta semana da minha série de seis curtas-metragens sobre os efeitos indesejados da política externa dos EUA, analiso três motivos pelos quais a infeliz aventura de Bush na Mesopotâmia ajudou a criar uma organização considerada pelos próprios americanos como uma das maiores ameaças à segurança dos EUA e à paz no Oriente Médio.

Primeiramente, toda ocupação militar estrangeira tende a radicalizar a população local e a fomentar insurreições violentas. É o caso do Hezbollah, no sul do Líbano, e do Hamas, na Faixa de Gaza.

No Iraque, os EUA foram de heróis libertadores a ocupantes brutais em questão de semanas. Em Fallujah – que mais tarde se tornaria um bastião do EI – tropas americanas dispararam contra uma manifestação pacífica em abril de 2003, matando e ferindo dezenas de iraquianos.

As mortes de civis, a tortura e o caos generalizado provocados pela ocupação empurraram milhares de iraquianos da minoria sunita para os braços de grupos radicais liderados por criminosos violentos como Abu Musab al-Zarqawi. A filial iraquiana da Al Qaeda, criada por Zarqawi em 2004 para combater os americanos e seus aliados, foi a precursora do… Estado Islâmico.

Em segundo lugar, em maio de 2003, a Autoridade Provisória da Coalizão, chefiada pelos EUA, dissolveu o exército iraquiano – uma decisão criminosa de tão estúpida e imprudente. Isso mesmo: da noite para o dia, os EUA transformaram meio milhão de homens armados e bem treinados em uma massa de desempregados. Ninguém menos do que Colin Powell, secretário de Estado do governo Bush e ex-detentor do mais alto posto militar dos EUA, chegou a descrever aqueles soldados dispensados como “recrutas em potencial para os rebeldes”.

Nos últimos anos, vários líderes do EI têm sido identificados como ex-oficiais do exército de Saddam Hussein. Coincidência?

Em terceiro lugar, o exército dos EUA prendeu dezenas de milhares de iraquianos – muitos deles civis – em Camp Bucca, no sul do Iraque, onde jihadistas puderam não só radicalizar novos recrutas bem debaixo dos narizes americanos, como também planejar futuras operações e atentados. “Muitos de nós receávamos que Camp Bucca fosse uma panela de pressão do extremismo, e não um mero centro de detenção”, diria mais tarde James Skylar Gerrond, ex-comandante da prisão.

Um dos presos em Camp Bucca, aliás, era ninguém menos do que Abu Bakr al-Baghdadi. Isso mesmo, aquele homem que se proclamou califa e que é o cabeça do Estado Islâmico. Segundo o especialista em terrorismo iraquiano Hisham al-Hashimi, al-Baghdadi “absorveu a ideologia jihadista e ganhou prestígio em Camp Bucca”.

Podemos afirmar, portanto, que o Estado Islâmico é um produto da invasão e ocupação do Iraque. E não sou só eu que estou dizendo. David Kilcullen, ex-assessor do general David Petraeus e da ex-secretária de Estado Condoleezza Rice e um dos maiores especialistas mundiais em contraguerrilha, afirmou, em entrevista para o Channel 4 News, em março de 2016: “É inegável que o Estado Islâmico não existiria se não tivéssemos invadido o Iraque”.

Na semana que vem: o Irã e a deposição de Mossadegh pela CIA

Tradução: Bernardo Tonasse