“O governo está com estoque alto e não quer ter prejuízo se a validade vencer, jogar fora sai mais caro que vacinar o povo”. Essa frase faz parte de um relato sobre a vacina de febre amarela feito por uma suposta enfermeira, que não se identifica e diz trabalhar em um grande hospital, também desconhecido, que ficaria em Belo Horizonte (MG). O texto foi publicado em diferentes perfis e páginas de Facebook e tem circulado por grupos de Whatsapp. Nos comentários, pessoas chegam a levantar a possibilidade de ser tudo um plano do governo para matar a população. Para muitos usuários dessas redes, a morte da estudante Vitória Gomes, no Hospital Geral de Nova Iguaçu (RJ), na última semana, seria uma das provas do plano fantasioso. E, assim, mais um caso de notícia falsa se espalha pelo Rio de Janeiro.

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O mais preocupante é que a crença em teorias como essa, baseadas em falsas informações, possa se espalhar tão rápido, mesmo em um momento em que foram registrados 213 casos de febre amarela com 89 óbitos no período de julho de 2017 a 30 de janeiro deste ano.  

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Antes de qualquer laudo, diversas páginas de notícias no Facebook, todas da região onde a estudante vivia, publicaram que sua morte teria ocorrido por reação à vacina. A Irajá Notícias foi uma das poucas que refutou a informação e tratou o caso como notícia falsa, por não haver confirmação – a postagem foi denunciada e excluída do Facebook.

“Recebemos vários links de seguidores falando do caso e resolvemos explicar. Até aquele momento, não tinha nenhuma confirmação de morte associada à vacina. Ainda deixamos claro que, após o resultado de exames, poderia ser comprovado, mas que não tinha nada naquele momento, e as pessoas estavam disseminando o medo”, afirmou o administrador  da Irajá Notícias – que pediu para não ser identificado – a The Intercept Brasil.

Lorena Gomes, irmã de Vitória, explicou a The Intercept Brasil que a jovem começou a apresentar sintomas um dia após receber a dose da vacina e que “o laudo de óbito de Vitória tem como causa mortis três paradas cardíacas que tiveram como causa anterior uma pneumonia”. Ela conta ainda que, uma semana após o falecimento da irmã, não teve acesso a resultado de nenhum exame. Em nota divulgada pela Prefeitura de Nova Iguaçu, o hospital afirma ter descartado a possibilidade de febre amarela e que aguarda o resultado do exame de leptospirose.

“Saúde Pública é coisa séria.”

De fato, a vacina contra a febre amarela pode causar reações como febre e mal-estar, mas casos mais graves são considerados raros, ocorrendo uma vez a cada 400 mil aplicações. Bebês de até 9 meses, pessoas com imunodeficiências, transplantados de órgãos sólidos ou pacientes em quimioterapia não devem ser vacinados. Em caso de dúvida, é recomendada a avaliação médica – como no caso de maiores de 65 anos.

A Fiocruz reiterou a The Intercept Brasil que há um surto e que, por isso, a campanha de vacinação, que chegou a ser descartada em 2017, se faz necessária neste momento. “O vírus da febre amarela passou a circular em novas áreas da Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo, demandando a aplicação da vacina em um cinturão de contenção mais amplo e próximo a áreas urbanas”.

A fundação também ressalta que o conteúdo propagado nas redes sociais não é de fontes confiáveis: “Antes de compartilhar uma informação que possa causar pânico desnecessário e confundir, certifique-se que vem de uma fonte oficial. Saúde Pública é coisa séria”.