(este texto contém correção)

“Que diferentes. Exóticos”, disse uma senhora branca que observava o grupo de quase 50 pessoas negras que participavam do rolezinho preto para assistir a Pantera Negra (Black Panther) no Shopping Leblon nesta segunda-feira. Entre olhares desconfiados e a escolta de seguranças, acompanhei o grupo que foi ver o filme, que tem equipe majoritariamente negra – brancos são secundários ou figuração.

Embarcando na onda da produção em que profissionais negros estão em lugares que geralmente ocupados por brancos, o rolezinho organizado pelo Coletivo Preto e o Grupo Emú foi planejado para um lugar tipicamente pela elite branca carioca. O evento também buscou uma crítica à falta de profissionais negros no audiovisual. Um levantamento feito pela ANCINE mostra que no Brasil apenas 7% dos profissionais são negros.

Esse tipo de encontro tem se repetido em diferentes cidades. Em São Paulo, um grupo fechou uma sala de cinema e reuniu 275 pessoas para uma sessão do longa. Com uma busca rápida nos eventos no Facebook, é possível encontrar vários outros roles marcados.

O longa da Marvel é considerado um marco por ter atores, produtores e diretor negro. Além disso, Pantera Negra foge dos estereótipos tanto do herói negro quanto da África que costumamos ver no cinema.

“É assim que os brancos se sentem o tempo todo”

O filme teve estreia mundial no dia 15 de fevereiro e, nos primeiros quatro dias de exibição, arrecadou 404 milhões de dólares. Os números e a mobilização em torno dele levantaram questionamentos sobre a adaptação do capitalismo às novas necessidades de mercado. Por mais que o elenco e a produção sejam formados por negros, afinal, a indústria ainda é formada majoritariamente por brancos que estão lucrando com isso.

Uma questão a ser levada em consideração, mas que não apaga a representatividade do filme. As pessoas que estão indo aos cinemas sabem que o mercado quer fazer dinheiro.

“A grande mensagem desse filme é que a gente tem que escrever, tem que produzir, tem que se unir e tem que fazer entre nós”, explica Licínio Januário, um dos organizadores do rolezinho no Leblon.

Um vídeo que circula nas redes mostra a reação de um homem ao ver o cartaz de divulgação: “é assim que os brancos se sentem o tempo todo”, ele diz. Se se ver em cartaz, em posição de protagonismo, causa reações eufóricas e desperta a vontade de fazer mais vezes esse papel, imaginem as mudanças que esse sentimento pode provocar para além das telas.

Correção: 21 de fevereiro, 14h

Originalmente, este texto dizia que Pantera Negra era o primeiro filme solo de herói. Porém, leitores lembraram da trilogia Blade, da própria Marvel, nos anos 1998, 2002 e 2004. Pantera Negra é o primeiro a ter o elenco majoritariamente negro. O texto foi atualizado para refletir essas mudanças.