Ao se sentar no banco dos réus do tribunal do júri de Curitiba, na próxima terça-feira, quase nove anos após causar um acidente de trânsito que matou na hora dois jovens de 26 e 20 anos, o ex-deputado estadual Luiz Fernando Ribas Carli Filho, 35, será o primeiro membro de uma família da elite política paranaense a responder por assassinato perante um corpo de jurados.

Carli Filho, como é conhecido, nasceu em berço político em Guarapuava, uma próspera cidade localizada no centro do estado, 252 km a leste da capital. Com mais de 167 mil habitantes, o município tem, segundo o IBGE, IDH elevado (0,731), uma universidade estadual, uma agroindústria pujante, que responde por 20% da produção de malte do Brasil, e trabalhadores formais com uma renda mensal média de 2,6 salários mínimos, o que o coloca entre os 500 melhores do país no quesito.

A modernidade da economia, contudo, não se reflete na política. Como em boa parte do Paraná, em Guarapuava mandam os de sempre – entre eles, os Ribas Carli.

O clã Ribas Carli

Luiz Fernando Ribas Carli, pai do ex-deputado réu, é político há décadas. Ainda na ditadura, filiou-se ao MDB. Em 1988, elegeu-se prefeito de Guarapuava pelo PDT, o que o aproximou do então pedetista Jaime Lerner, eleito naquele ano prefeito de Curitiba pela terceira vez. Em 1995, Ribas Carli assumiu uma cadeira na Câmara dos Deputados, mas logo se licenciou para ser secretário da Casa Civil no primeiro mandato de Lerner como governador do Paraná. Em seguida, elegeu-se duas vezes deputado estadual, já pelo PPB, precursor  do atual PP. Em 2004, voltou à prefeitura de Guarapuava para mais dois mandatos consecutivos.

Em entrevista concedida à pesquisadora Solange Fiúza em 2016, o político contou detalhes da história de sua família. O sobrenome Ribas vem de sua mãe, descendente das famílias que chegaram a Guarapuava no início do século 19 para colonizar as terras de região, entregues pela coroa portuguesa através de sesmarias.

“A família do meu pai é que chegou mais tarde. Agora, a família da minha mãe é toda daqui. Atrás desse Ribas está Siqueira, Ferreira, Maciel, Rocha Loures, Alves. São as famílias ligadas”, explicou ele a Fiúza. Os Rocha Loures a que ele se refere são, sim, a família do ex-assessor de Michel Temer flagrado com uma mala de dinheiro em junho do ano passado.

A política está no sangue de Carli Filho também por parte da mãe, Ana Rita Slaviero Guimarães Carli. Ela é irmã do deputado estadual Plauto Miró Guimarães, do DEM, primeiro secretário – isto é, o homem que tem a chave do cofre – da Assembleia Legislativa. Também é prima do vice-prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel Slaviero (PSDB), por sua vez neto do ex-governador Paulo Pimentel.

“A região [de Guarapuava] é terreno particularmente fértil para a reprodução dos tipos de relações que se fundamentam na continuidade das estruturas de poder ao longo dos processos de mudanças políticas”, anota a pesquisadora em sua tese de doutorado apropriadamente intitulada “Famílias, poder e políticas sociais em Guarapuava”.

Era natural, assim, que os filhos seguissem os passos do pai, que há tantos anos se perpetua em mandatos e cargos na administração pública. Em 2006, com 23 anos, Carli Filho candidatou-se a deputado estadual pelo PSB. Ao TSE, informou não possuir bens a declarar, tampouco apresentou propostas de mandato. Bastou-lhe o sobrenome para eleger-se com 46.686 votos. Em Guarapuava, colheu 37.386 deles – 45% dos eleitores do município que foram às urnas o escolheram.

“Um de nossos jovens atropeladores”

Lembrado pelos pares como um deputado na melhor das hipóteses discreto, sem projetos ou discursos de qualquer relevância, Carli Filho tornou-se manchete da mídia nacional na madrugada de 7 de maio de 2009, uma quinta-feira. Segundo o relato de testemunhas, o político bebeu quatro garrafas de vinho na companhia de um casal de amigos num restaurante em Curitiba. Em seguida, embriagado, recusou carona e deixou o local dirigindo o próprio carro, uma perua importada.

Carli Filho tinha a carteira de habilitação suspensa, com mais de 130 pontos em infrações, 90% delas por excesso de velocidade.

Poucos quilômetros adiante, no alto de uma colina numa via expressa àquela hora semi-deserta, o carro decolou e, desgovernado, atingiu outro, em que estavam Gilmar Rafael Souza Yared, 26 anos, e Carlos Murilo de Almeida, 20. Os dois voltavam para casa após saírem de um shopping center e morreram na hora – um deles, decapitado pela violência do choque. “Carli Filho tinha a carteira de habilitação suspensa, com mais de 130 pontos em infrações, 90% delas por excesso de velocidade. A perícia estabeleceu que o carro dele ia a uma velocidade entre 167 e 172 km/h”, enumera o criminalista Elias Mattar Assad, contratado como assistente de acusação pela família de uma das vítimas.

Colisão entre um veículo Honda Fit e um Passat (alemão) colidiram na rápida do Campo Comprido sentido Centro. O casal que ocupava o Honda morreu no local.

Carro do ex-deputado Carli Filho após o acidente em 7 de maio de 2009. Os dois jovens que ocupavam o outro veículo morreram na hora; um deles, decapitado pela violência do choque.

Foto: Átila Alberti / Tribuna do Paraná

 

“Ele é um dos nossos jovens atropeladores”, afirma o sociólogo Ricardo Costa de Oliveira, professor associado da UFPR, especialista em relações entre famílias e poder político. Oliveira faz referência a outros dois casos célebres no Paraná.

Em outubro de 2001, João Arruda, sobrinho do senador Roberto Requião, envolveu-se em uma batida no centro de Curitiba em que duas jovens morreram. Segundo testemunhas, a camionete que ele dirigia desrespeitou o sinal fechado. Condenado por homicídio culposo, Arruda converteu em pagamento de multa parte da pena de prestação de serviços. Atualmente, ele é deputado federal pelo PMDB.

“Isso mostra o ethos dessa juventude privilegiada e sem limites.”

Em 2009, Eduardo Miguel Abib, filho de Abib Miguel, o Bibinho, figura central no escândalo dos Diários Secretos da Assembleia Legislativa, causou acidente em que quatro pessoas morreram. Irá responder por homicídio simples e lesão corporal no Tribunal do Júri, mas o julgamento ainda não tem data para acontecer.

“Isso mostra o ethos dessa juventude privilegiada e sem limites. Está na tradição cultural brasileira, está desenhado no Brás Cubas, do Machado de Assis”, teorizou Oliveira. “Nem na República velha tivemos oligarquias tão ativas”, compara.

A dinastia continua

Assad, o advogado de acusação, acredita que não há berço de ouro que consiga evitar a condenação de Carli Filho. “Esse processo é uma Monalisa, um pós-doutorado em processo penal. É um exemplo claro de dolo eventual [em que se assume o risco de matar] na condução de veículo”, jactou-se, confiante.

Os defensores de Carli Filho – entre os quais figurou René Dotti, mais conceituado criminalista paranaense, assistente de acusação da Petrobras nos processos da operação Lava Jato – conseguiram adiar o júri por longos sete anos. Agora, com o julgamento marcado para a próxima semana, ainda tentaram protelar a confrontação de Carli Filho ao júri popular. Na quarta, 21, pediram ao Supremo Tribunal Federal que seja formado um novo júri em outra cidade do estado, alegando não haver condições de segurança e de isenção para que o ex-deputado seja julgado na capital. A análise coube a Gilmar Mendes, que negou o pedido e ratificou a realização do júri. Um dos advogados que representou Carli Filho no STF, Ticiano Figueiredo, também trabalha para o ex-deputado Eduardo Cunha, artífice do impeachment de Dilma Rousseff.

The Intercept Brasil procurou a defesa de Carli Filho, que não quis se pronunciar. A imprensa local vem noticiando que uma das estratégias dos advogados será alegar que houve uma campanha de difamação contra o político após o acidente. Veem uma prova disso no fato de a mãe de uma das vítimas, Cristiane Yared, ter sido eleita para a Câmara Federal em 2014 – ela foi a mais votada do Paraná naquele pleito, e é cotada para disputar uma cadeira no Senado em outubro próximo, pelo PR.

A comoção gerada pelo caso, contudo, não afetou a próspera trajetória política do clã Ribas Carli. Um ano após o acidente, em 2010, Bernardo Ribas Carli, então com 24 anos, irmão mais novo do réu, herdou-lhe a cadeira na Assembleia Legislativa, com 33.645 votos – 19 mil deles conquistados em Guarapuava. Há quatro anos, conseguiu um segundo mandato, com o apoio de 55.481 eleitores – 53% deles de sua cidade natal. Em outubro, o caçula dos Ribas Carli deverá buscar mais quatro anos no cargo. A depender do histórico do eleitorado de Guarapuava, já pode contar com o diploma.