O que você sabe sobre o Hamas?

Que jurou destruir Israel? Que se trata de um grupo terrorista, proscrito tanto pelos EUA quanto pela União Europeia? Que comanda a Faixa de Gaza com mão de ferro? Que já matou centenas de israelenses inocentes com foguetes, morteiros e atentados suicidas?

Mas você sabia que o Hamas – sigla em árabe que significa “Movimento de Resistência Islâmica” – provavelmente não existiria hoje se não fosse pelo Estado judeu? Que os israelenses, no fim dos anos 1970, ajudaram a transformar um punhado de islamistas palestinos marginalizados em um dos mais famosos grupos armados do mundo? Que o Hamas foi um tiro que saiu pela culatra?

Isso não é teoria da conspiração; é um fato admitido inclusive por ex-funcionários do governo de Israel, como o general de brigada Yitzhak Segev, governador militar de Gaza no início dos anos 1980. Segev disse a um jornalista do New York Times que seu governo havia ajudado a financiar o movimento islamista palestino, para que ele servisse de “contrapeso” à esquerda secular da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e do partido Fatah, liderado por Yasser Arafat (que se referia ao Hamas como “cria de Israel”).

“O governo israelense me deu uma verba a ser repassada para as mesquitas”, confessou o general de brigada, então na reserva.

“Infelizmente, o Hamas é uma criação israelense”, afirmou Avner Cohen, ex-responsável de assuntos religiosos do governo de Israel, em entrevista ao Wall Street Journal, em 2009. Cohen havia trabalhado em Gaza durante mais de duas décadas e, em meados dos anos 1980, chegou a escrever um relatório para seus superiores no qual alertava contra a política israelense de “dividir e conquistar” os Territórios Ocupados, que consistia em apoiar os islamistas palestinos contra a esquerda secular. “Sugiro concentrar nossos esforços na busca por uma maneira de abater esse monstro antes que a realidade exploda no nosso rosto”, escreveu.

Mas não lhe deram ouvidos. E o resultado foi o Hamas, como explico no quinto episódio da minha série de curtas-metragens sobre os efeitos indesejados de certas políticas. Primeiro, os israelenses ajudaram a fortalecer o braço armado do ativismo islâmico palestino, o Hamas, além de seu precursor, a Irmandade Muçulmana; mais tarde, Israel mudou de ideia e passou a tentar eliminar o Hamas através de bombardeios, cercos e do isolamento.

Só na última década, Israel foi à guerra contra o Hamas três vezes – em 2009, 2012 e 2014 – deixando um rastro de cerca de 2.500 civis palestinos mortos em Gaza. Por sua vez, o Hamas matou mais civis israelenses do que qualquer grupo secular palestino. O tiro saiu pela culatra, e o custo disso é em vidas humanas.

“Quando olho para trás e penso naquela sequência de acontecimentos, acho que cometemos um erro”, disse David Hacham, especialista em assuntos árabes para o exército israelense em Gaza nos anos 1980. “Mas, na época, ninguém pensava no que poderia acontecer”, completou.

Como sempre, não é mesmo?

No próximo episódio: a OTAN a Líbia e o terrorismo suicida

Tradução: Bernardo Tonasse