No primeiro turno das eleições de 1989, Jô Soares chegou em sua zona eleitoral para votar quando foi abordado por João Doria Jr., que o abraçou efusivamente, fingindo uma intimidade que nunca existiu entre os dois. Logo depois, um cidadão que presenciou a cena se aproximou de Jô e iniciou o seguinte diálogo:

– Você conhece esse cara?

– Não,pelo contrário, não tenho nenhuma simpatia.

– Você vai votar no Collor?

– Não. Vou votar no Covas. Por que a pergunta?

– Porque esse cara que te abraçou acabou de colar um adesivo “Vote Collor”nas suas costas.

A cena narrada pelo próprio Jô já indicava que Doria tinha o senso de oportunismo de uma velha raposa da politicagem brasileira. À época, ele havia acabado de sair de uma gestão desastrosa na Embratur de Sarney, onde teve de dar explicações ao TCU sobre desvios de verbas e propôs transformar a seca no Nordeste em atração turística, diminuindo investimento em irrigação e aumentando em turismo. Depois de enriquecer com uma empresa que faz a ponte comercial entre órgãos públicos e empresários você também pode chamar de lobby se preferir –, uma função essencialmente política, ressurgiu como candidato a prefeito dizendo não ser político, mas apenas um gestor. Perceba como a picaretagem sempre foi uma marca presente na carreira de Doria.

Essa semana, o futuro ex-prefeito de São Paulo anunciou que disputará as prévias do PSDB para a escolha do candidato ao governo do Estado. A decisão foi tomada depois de prometer ao menos 15 vezes que cumpriria o mandato até o fim. “Todos os compromissos que eu assumo, eu cumpro. Todos. Não preciso assinar papel, não preciso publicar. Eu cumpro. Eu não sou candidato a nada.” Mesmo assim, chegou  a assinar um documento prometendo cumprir o mandato integralmente.

A falta de compromisso não chega a ser uma novidade. Nas prévias para a escolha para o candidato do PSDB à prefeitura, Doria foi denunciado por correligionários por compra de votos e, segundo um jovem filiado do partido, chegou a oferecer o pagamento da festa da sua formatura .

O tucano já havia demonstrado o seu desdém com os eleitores paulistanos ao usar o mandato como vitrine para a sua candidatura à presidência. Viajou pelo país para construir uma imagem nacional. Só em agosto do ano passado, esteve em 9 cidades diferentes, 5 delas no Nordeste, onde cavou títulos de cidadão junto aos seus aliados na região. Essa obsessão em se tornar presidente contribuiu para que sua popularidade na capital despencasse, o que minou suas pretensões presidenciais.

Mas permanecer na prefeitura seria ruim para a imagem de alguém que vive de imagem. São Paulo é uma cidade difícil de administrar, e sua gestão vem sendo duramente criticada, inclusive por aliados e pela grande imprensa (que foi muito simpática durante a eleição). Doria correria o risco de terminar o mandato ainda mais desgastado e impopular. Disputar o governo do Estado, onde os tucanos nadam de braçada há décadas, lhe pareceu a melhor saída para a sua carreira política.  

Para justificar a quebra do compromisso com os paulistanos assinado em documento, Doria deu um duplo twist carpado argumentativo digno de Patropi:

“Firmar um documento ou não firmar um documento têm o mesmo valor, independentemente de documento ou não”.

Em suas redes sociais, o prefeito disse que foi convocado pelo partido e não poderia negar esse chamado. O sujeito que sempre se vendeu como um gestor mais preocupado com a administração pública do que com a política, deu preferência para seus correligionários em detrimento do compromisso com milhões de cidadãos paulistanos. Doria rasgou a fantasia do gestor, o que pode lhe custar caro eleitoralmente.

Mas essa não foi a única promessa de campanha não cumprida. Segundo um levantamento feito pelo G1 em janeiro, de 80 promessas feitas por ele, apenas 12 foram cumpridas e 14 estão em andamento. Em um ano, praticamente nenhuma das propostas relativas a direitos humanos, por exemplo, saiu do papel.

A relação da prefeitura com os mais pobres é cruel. A proposta da farinata, mais conhecida como ração humana, virou o símbolo da demagogia do prefeito com os mais desfavorecidos. A violência no tratamento com os usuários da Cracolândia e a expulsão de moradores por jatos d’água lançados por funcionários da prefeitura foram recorrentes.

A área da saúde, que era sua prioridade absoluta durante a campanha eleitoral, não teve a atenção prometida. O prefeito chegou a anunciar que havia “zerado a fila dos exames”, mas não passou de mais uma frase com fins marqueteiros. Na vida real, um cidadão com incontinência urinária leva quase um ano para realizar um exame. Para piorar a situação, Doria decidiu acabar com 108 AMAs (assistências médicas ambulatoriais) para cortar gastos, o que até José Serra considerou como “uma verdadeira monstruosidade contra o atendimento de saúde da população”.

Em seu discurso de posse, o futuro ex-prefeito prometeu dialogar com a oposição e afirmou que “Diálogo é o princípio de valor humano”. Esse espírito democrático se mostrou tão fake como suas fantasias de gari. Doria aprovou na marra uma reforma previdenciária municipal que afeta substancialmente os salários dos servidores sem nunca ter aberto uma mesa de negociação com eles. O caráter autoritário da administração foi reforçado pela forma violenta com que a Guarda Civil Metropolitana agrediu professores que protestavam contra a aprovação da reforma.

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Professora é agredida durante protesto contra a reforma da Previdência Municipal.

Suamy Beydoun/Folhapress

Já para os grandes empresários a gestão foi uma bênção, principalmente aqueles que são filiados ao Lide, a empresa de lobby da família do prefeito. A relação promíscua entre a prefeitura e os negócios privados do prefeito ficou mais do que evidente. Isso para não falar da nova instituição paulistana que tanto agradou os grandes empresários: as doações premiadas.  

Apesar de ainda ter força dentro do partido, Doria vem causando muitos problemas dentro do PSDB. Ofendeu Alberto Goldman publicamente, cutucou FHC e traiu Alckmin ao se movimentar para construir uma pré-candidatura presidencial. Mario Covas Neto, filho de Mario Covas e tio do vice-prefeito, se indignou com o desejo do prefeito em abandonar o mandato e se desfiliou do partido fundado por seu pai.

Eu, como paulistano, poderia dar graças a Deus que o prefeito está fazendo as malas. Mas o problema  que a cidade de São Paulo agora ficará sob o comando de Bruninho Covas, que nunca teve experiência em um cargo executivo e está sendo acusado pelo MP de favorecer a Ambev empresa filiada ao Lide  em uma concorrência para patrocinar o carnaval.