“Quando a princesa Iemanjá abriu a boca, saíram dela milhares de estrelinhas. Eram estrelinhas de todos os tamanhos. Estrelinhas que brilhavam mais e estrelinhas que brilhavam menos”. São trechos como esse que fazem parte do livro infantil Omo-Oba – Histórias de Princesas, que foi questionado por um grupo de pais da Escola Sesi, em Volta Redonda, no Rio de Janeiro. Eles não queriam que seus filhos, alunos do 3º ano do Ensino Fundamental I, tivessem contato com a “cultura africana”.

A autora, Kiusam Oliveira, que é Doutora em Educação pela USP, conta histórias tradicionais do povo iorubano sobre seis princesas que se tornaram rainhas: Oiá, Oxum, Iemanjá, Olocum, Ajê Xalugá e Oduduá – que também são, no Brasil, entidades cultuadas por religiões de matrizes africanas. As histórias das ancestrais são narradas destacando suas habilidades com o objetivo de, segundo a autora, “empoderar meninas de todos tempos”.

“Um dos cuidados que tive foi de não ter uma conotação religiosa. O que as pessoas dificilmente sabem é que essas mulheres representam nossas ancestrais. E, aqui, com todo o racismo que a gente vive, quando se toca no nome delas, parece que você está falando de diabo e demônio. O livro vem para desmistificar uma série de situações”, explica a autora.

Omo-Oba é recomendado pelo MEC e utilizado em escolas em todo o Brasil desde 2009. “É a primeira vez em dez anos que algo desse tipo acontece. Para mim, isso reflete a atual conjuntura do nosso Brasil. As pessoas intolerantes e racistas estão se achando no direito de agir porque, agora, temos a impressão que tudo pode”, afirma Kiusam.

Ao ser questionada sobre o livro por um grupo de pais, a escola enviou um bilhete informando que os alunos seriam divididos em grupos de trabalho, e que a obra poderia ser substituída por outra caso algum grupo assim desejasse. A professora da rede pública Juliana Pereira de Carvalho, mãe de Gael Bretas Pereira, de 8 anos, que estuda na Escola Sesi, se indignou. Ela postou o comunicado no Facebook.

“Com certeza isso é um preconceito afro-religioso, não consigo perceber outra coisa. Eu tinha acabado de vir da manifestação da Marielle, estava muito sentida. Eu cheguei em casa e meu filho me entregou o bilhete. Eu vi aquilo e pensei ‘mas era só o que me faltava’”, conta.

O ensino de história e cultura africana e indígena nas escolas é determinado pela Lei 11.645, que foi mencionada por Juliana em sua postagem. As escolas também devem cumprir a Lei 10.639, que diz que o conteúdo programático deve incluir a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.

Com a repercussão da história nas redes sociais, o caso chegou à gerência da Educação Básica da Escola Sesi no Rio de Janeiro, que decidiu não substituir o livro. Fez mais: promoveu um debate com os pais. E manteve a postura: o livro será usado nas 15 unidades do Estado.

“Diante do que a gente defende como projeto pedagógico, isso não pode acontecer. Não terá nenhum outro livro adotado, porque o livro escolhido foi esse”, afirmou Giovanni Lima, gerente da escola.

Antes de Juliana, outra mãe publicou o mesmo bilhete nas redes sociais. Ela foi chamada pela pedagoga da instituição para uma conversa. A professora explicou que as medidas foram tomadas em respeito à religião dos pais insatisfeitos com o livro. A decisão de não utilizar outro livro só foi tomada após a repercussão da segunda postagem nas redes sociais.

“A escola não está descolada do nosso contexto político. Provavelmente, se a gente não tivesse causado essa discussão mais ampla, alguns pais que são neutros teriam se deixado levar pelos insatisfeitos, e a gente teria caminhado para a pior relação possível entre as crianças. Relatei a situação para o meu filho de forma que ele compreendesse, e ele ficou muito triste com o preconceito”, conta Juliana.

Racismo recorrente

“Isso é uma repetição. Já vi acontecer outras vezes, em outras escolas, com outros livros que trabalham a mesma temática. Já teve escola que simplesmente disse que ‘esse aqui não’”, conta Maria Mazza, fundadora da editora Mazza, dedicada a livros sobre a cultura negra e que publica o livro Omo-Oba.

Em 2009, um caso semelhante aconteceu em uma escola em Macaé, também no Rio de Janeiro, quando uma professora optou por trabalhar o livro indicado pelo MEC “Lendas de Exu”, de Adilson Martins, em aula. Mesmo argumentando não ter usado conotação religiosa, a professora foi afastada pela direção do colégio – que seria formada por diretores evangélicos.

O uso de livros de Jorge Amado em salas de aula também já foi questionado em São Gonçalo. “As pessoas acham que tudo que está ligado à cultura africana tem a ver com religião. Existe uma visão de demonizar as culturas afro-brasileiras. É preconceito e racismo religioso. A mitologia grega com a sua visão eurocêntrica ninguém pede para retirar da escola”, lembra o babalorixá Ivanir dos Santos, interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa.

A Escola Sesi voltou atrás em relação à divisão de grupos de trabalho que levem em consideração a religião do aluno. Porém, os efeitos da tentativa dos pais de boicotarem a obra foram sentidos. “O modelo de ação já foi dado, mesmo com a reparação. A minha preocupação é que outros livros sejam atacados. Precisamos ficar atentos”, teme a autora.