Os tiros disparados contra um dos ônibus que integravam a caravana de Lula não podem receber outro nome que não o de atentado político. A barbárie que vem rodando a disputa política nos últimos anos arrombou a porta e promete ficar para a eleição.

A escalada da violência contra a caravana começou com pedradas, pauladas, ovadas, chicotadas e culminou com uma emboscada seguida por quatro disparos efetuados por arma de fogo. É triste ter que dizer o óbvio, mas não pode ser chamado de democrata quem não repudiou o ato com a veemência necessária, quem relativizou ou quem tentou imputar a co-autoria do crime à vítima.

Quando Marielle foi assassinada, a direita mais obscura tratou de espalhar notícias falsas dizendo que ela estava associada ao tráfico. Era uma tentativa de controlar a narrativa culpando a vítima e despolitizando o crime. O mesmo mecanismo se repete agora. Além dos exércitos de bárbaros digitais de sempre, jornalistas e políticos importantes relativizaram o crime e alguns chegaram a insinuar que tudo teria sido forjado pelos próprios petistas. Assusta a irresponsabilidade de atores que deveriam estar extremamente preocupados com os rumos que a democracia está tomando.

Políticos que irão se candidatar neste ano não foram capazes de tratar o caso com a mínima civilidade democrática. A primeira reação de Michel Temer diante do atentado foi mais inacreditável do que a sua legitimidade como presidente:

“Essa onda de violência não foi pregada talvez por aqueles que tomaram essa providência [as pessoas que atacaram a caravana], talvez tenha sido, tenha começado lá atrás. E a história de uns contra outros, realmente cria essa dificuldade que gera atritos dessa natureza.”

O atual presidente da República chama de “providência” e “atrito” um atentado a tiros contra uma caravana de um ex-presidente da República. Pior: como uma criança de 5 anos, insinua que as vítimas dessa tentativa de homicídio é que começaram a briga. Foi uma declaração do tamanho do espírito democrático de Temer.

O governador de São Paulo Geraldo Alckmin deu uma declaração mais franca e direta, mas igualmente deplorável:  “Acho que eles estão colhendo o que plantaram”. Não me parece uma declaração dada no calor do momento, mas calculada para atingir o coração de parte do eleitorado de direita que está com o Bolsonaro.

Após as primeiras declarações, tanto Alckmin quanto Temer baixaram o tom e repudiaram o acontecimento de forma protocolar, mas o que eles realmente pensam já havia sido dito.

O senador paranaense Álvaro Dias (Podemos) considerou uma provocação o fato de Lula circular livremente para fazer política em seu Estado e também culpou os petistas pela violência da qual foram vítimas:

“O que está ocorrendo é uma provocação do ex-presidente, e a sociedade tem que responder a essa provocação de alguma maneira. A responsabilidade é de quem provoca. Eu não compactuo com nenhum tipo de violência, mas se há violência é porque houve desrespeito de alguém que deveria oferecer exemplo de um comportamento civilizado.”

O futuro ex-prefeito de São Paulo não ficou para trás e também manteve o nível o mais baixo que pôde: “O PT sempre utilizou da violência, agora sofreu da própria violência.”

O candidato mais representativo do obscurantismo de direita, Jair Bolsonaro, fez questão de amplificar a teoria da conspiração espalhada nas redes sociais de que o PT teria forjado o atentado. “É tudo mentira. Está na cara que alguém deles deu os tiros.” Há muita gente compartilhando dessa tese sem apresentar um mísero indício sequer. Uma busca no Twitter por “atentado forjado” revela centenas de antipetistas com a absoluta convicção de que tudo não passou de uma grande fraude do PT.

Já o principal cabo eleitoral de Bolsonaro no Paraná, o deputado federal Fernando Francischini, um entusiasta do lema “bandido bom é bandido morto”, chamou os integrantes da caravana do Lula de “bandidos”.

O governador do Paraná Beto Richa, acusado por integrantes do PT de ter sido negligente com a segurança da caravana, também minimizou o acontecimento e disse ter sido “algo muito localizado”. Em entrevista à Folha, foi confrontado com a informação de que o delegado paranaense responsável pelo caso reclamou da demora da chegada da perícia ao local do atentado, em virtude da falta de estrutura da Polícia Civil do Estado. Richa negou e associou a reclamação ao fato de sempre haver “esquerdopatas no meio do funcionalismo”.

O Estadão revelou que este mesmo delegado, que tratava o caso como tentativa de homicídio, acabou sendo afastado por causa de suas declarações. “Quem quer dar susto dá tiro para cima ou para o chão. Quem atirou assumiu o risco de matar uma pessoa”, afirmou o delegado um dia antes de perder o comando da investigação. A polícia e o delegado afirmam oficialmente que não houve afastamento, apenas uma redistribuição do inquérito. O curioso é que o novo delegado responsável pelo caso apresentou uma linha de investigação diferente: “Estamos tratando como disparo de arma de fogo e dano. Não estamos tratando como tentativa de homicídio”. Durmamos com esse barulho.

Nas manchetes dos veículos da grande mídia, a palavra usada para classificar o acontecimento foi “ataque”. O Valor Econômico foi o único a chamar o atentado de atentado. Mas, tudo bem, não chega a ser uma opção semântica inaceitável. O que é inaceitável é a opinião irresponsável de colunistas como Merval que foi capaz de criar um pot-pourri de casos de violência que teriam sido praticados pela esquerda. Um feito digno de um bolsominion comentarista de portal.

Noblat, por sua vez, repudiou fortemente o que chamou de “atentado contra a democracia” e os políticos que preferiram relativizar. Mas Noblat precisava ser Noblat e jogou mais tensão no horizonte político.

 


Talvez seja a mesma fonte que havia lhe garantido que
Temer renunciaria em maio do ano passado. Ou talvez não. Se depender do espírito democrático do presidente, a possibilidade de não termos eleições é tão grande como uma nova barriga de Noblat. Dias antes, Temer deixou claro em reunião com empresários e políticos que não considera que o Brasil tenha sido vítima de um golpe de Estado em 1964. Temos um presidente inimigo da democracia. Sem eleições, sem um novo presidente com legitimidade, o quadro de tensão política só aumentará.

Quando homens públicos importantes no cenário político dão declarações absurdas como essas, passando pano e relativizando a selvageria, estão, na prática, incentivando extremistas capazes de atirar em um adversário político. Se Lula tivesse sido assassinado, o que seria dito? Que lhe foi tirada a vida porque pregava o “nós contra eles”? Que ele pagou pela violência que promoveu? E se militantes petistas resolverem revidar os 4 tiros em alguma comitiva de seus adversários? Isso seria justificável já que foram “eles” que iniciaram os ataques com armas de fogo?  

Essas reações repugnantes dos nossos homens públicos alimentam o extremismo e estimulam a continuação do ciclo da violência. Numa época em que obviedades precisam ser ditas, aqui vai mais uma: os quatro tiros não foram disparados contra Lula e o PT, mas contra a democracia.