E então ele finalmente foi lá e fez. Depois de três anos classificando o acordo nuclear com o Irã como “terrível“, “desastroso“, e “insano“, Donald Trump compareceu à Sala Diplomática da Casa Branca na tarde de terça-feira para fazer anunciar oficialmente que “os Estados Unidos irão se retirar do acordo nuclear com o Irã” e “começar a reinstituir sanções nucleares dos EUA ao governo iraniano”.

“Isso deixará a América muito mais segura”, declamou o presidente, apontando seus dedos na direção dos jornalistas.

Adivinhem quem está comemorando a decisão do presidente de violar um acordo de não proliferação de armas nucleares assinado pelos Estados Unidos há menos de três anos? Seu novo conselheiro de segurança nacional, John Bolton, que foi palestrante remunerado de um ex-grupo terrorista iraniano obcecado há tempos pela “mudança de regime” em Teerã; o príncipe-herdeiro – e governante de fato – da Arábia Saudita, Mohhamed bin Salman, que alega que o líder supremo do Irã “faz Hitler parecer bonzinho”; e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que insistentemente compara a República Islâmica com o assim chamado Estado Islâmico.

Não se deixem enganar: essa desastrosa decisão unilateral de Trump não irá aumentar a segurança dos EUA. Nem a de Israel, aliás. Até mesmo os belicosos de carteirinha que odeiam a República Islâmica acham que Trump está louco de se retirar do Plano de Ação Conjunto Abrangente – o JCPOA, na sigla em inglês, denominação oficial do acordo nuclear.

Pois adivinhem quem não está comemorando? Todo o sistema militar norte-americano: o secretário de Defesa James Mattis, que afirma ter lido três vezes o texto do acordo e considerá-lo “bastante robusto”; o presidente do Estado-Maior Conjunto, general Joseph Dunford, que diz que “o Irã está cumprindo suas obrigações do JCPOA” e que uma decisão de abandonar o acordo “teria um impacto na boa vontade de outros para assinar acordos”; o chefe do Comando Estratégico dos EUA, general John Hyten, que considera que “o Irã está cumprindo o JCPOA” e defende que  “é nosso trabalho cumprir os termos do acordo”; e o chefe do Comando Central dos EUA, general Joseph Votel, que entende que o acordo nuclear “atende aos nossos interesses [dos EUA]”, porque “propõe uma saída para uma das principais ameaças iranianas que precisamos enfrentar”.

E esses são apenas os generais na ativa. Em março, uma declaração assinada por 100 veteranos da área de segurança nacional dos Estados Unidos, de diversos matizes políticos, dizia que o acordo nuclear “aumenta a segurança dos EUA e da região” e “desprezá-lo não serviria a nenhum propósito de segurança nacional”. Cinquenta dos cem signatários eram militares da reserva, incluindo importantes republicanos, como os generais da reserva Brent Scowcroft, que atuou como conselheiro de segurança nacional de George H.W. Bush, e Michael Hayden, que foi diretor da CIA e da NSA durante o governo de George W. Bush.

Há ainda o general da reserva Colin Powell, conselheiro de segurança nacional de Ronald Reagan e secretário de Estado no governo George W. Bush, que já se referiu ao JCPOA como “um acordo bastante bom”. E o próprio ex-conselheiro de segurança nacional de Trump, prestes a entrar para a reserva, general H.R. McMaster, que estava “trabalhando em conjunto com dois importantes senadores para evitar que Trump destruísse o acordo do Irã“, até ser dispensado e substituído por Bolton em março.

Adivinhem quem mais não está comemorando? As autoridades de segurança de Israel. Netanyahu pode até alegar que possui milhares de “arquivos nucleares secretos” que mostariam que o JCPOA foi “construído à base de mentiras”, mas os generais e chefes de espionagem de Israel discordam, a saber: o chefe de pessoal das Forças de Defesa de Israel, general Gadi Eisenkot, que declarou que o acordo, “com todos os seus problemas, está funcionando”; o presidente da Agência Espacial Israelense, o premiado cientista militar Isaac Ben-Israel, que diz que “o acordo não é nada ruim, é inclusive bom para Israel”, porque “evita uma bomba atômica pelos próximos quinze anos”; o ex-diretor da agência de espionagem Mossad, Efraim Halevy, que diz que o JCPOA dá uma “resposta verossímil para a ameaça militar iraniana por pelo menos uma década, se não mais”; o ex-chefe da agência de segurança doméstica Shin Bet, Carmi Gillon, que considera que o acordo nuclear ajudou a “tornar a região e o mundo um lugar mais seguro”; o ex-chefe da inteligência militar israelense, Amos Yadlin, que entende que “rasgar o acordo criaria um vazio perigoso”; e o ex-primeiro ministro israelense, o soldado mais condecorado do país, Ehud Barak, que diz que sair do acordo seria um “equívoco”.

Vamos então ser claros: de um lado, temos uma espantosa lista de generais e chefes de espionagem da ativa e da reserva, tanto dos Estados Unidos quanto de Israel, que não são amigos ou admiradores do Irã, mas que concordam, todos, que a República Islâmica está cumprindo os rígidos termos do JCPOA, e que os Estados Unidos deveriam permanecer no acordo, porque ele promove segurança não só nos EUA, mas também em âmbito regional e mundial.

E do outro lado? Um ex-incorporador imobiliário e estrela de reality show; um militarista covarde que quer bombardear todo mundo; um príncipe do Golfo de 32 anos que não consegue vencer uma guerra contra rebeldes do mais pobre dos países árabes; e um político supostamente corrupto que vem afirmando que o Irã está “entre três e cinco anos” de distância de desenvolver armas nucleares desde… 1992.

O que está em jogo não é a segurança ou a proteção das cidades americanas – ou israelenses – contra mísseis iranianos. Trump & Compania não estão tentando evitar a guerra contra o Irã. Eles querem uma guerra contra o Irã.

Foto em destaque: O presidente dos EUA Donald Trump exibe um Decreto Presidencial assinado depois de emitir da Casa Branca uma declaração sobre o acordo nuclear com o Irã, em 8 de maio de 2018.

Tradução: Deborah Leão