Listas de melhores de todos os tempos são tanto prazer quanto desprazer para quem se entretém elaborando-as. São passatempo saboroso, mas incomodam. Mesmo brincadeira, parecem colocar o mundo nas costas do, digamos, eleitor. Não por quem escolhemos, e sim por quem preterimos. A culpa corrói.

Quem são as cinco maiores cantoras brasileiras vivas? Por ordem alfabética, Alcione, Bethânia, Elza, Fafá, Gal, Leny, Nana. Dá mais alegria eleger cinco ou mais tristeza excluir duas? E olha que, está na cara e no gogó, temos mais “finalistas” do que sete.

Nos dez filmes top da história dói não encontrar um lugar para O último metrô e A mulher do lado, do Truffaut, já representado por Os incompreendidos. Quer dizer, às vezes eu encontro, porque as minhas listas variam ao ritmo do ciclo lunar ou, mais volúveis ainda, das marés.

Tenho matutado um jeito de encaixar Forrest Gump, e fracasso – seria criminoso dispensar Casablanca, Rastros de ódio e O império dos sentidos, certo? Janela indiscreta talvez esteja acima de O homem que sabia demais (a versão produzida nos Estados Unidos), porém no primeiro filme o Hitchcock não rodou uma sequência tão genial como a do tiro harmonizado com o som dos pratos da orquestra. Ou filmou?

Listas são pessoais e intransferíveis, mas há quem se insurja contra o gosto que lhe é estranho: “Com base em quê, energúmeno, fulano está fora?”. Com base no que cada um sente e pensa. Ninguém precisa encrencar.

Só um maluco barraria hoje o Neymar da seleção brasileira de todos os tempos. Ele é o quarto artilheiro da história do escrete. É um dos atuais três craques supremos do planeta. Acontece, e fica aqui entre nós, porque é capaz de pegar mal, que a cria do Santos por enquanto não entra no meu time. Maluquice, eu sei. A 21ª Copa do Mundo, que abre daqui a oito dias na Rússia, é a chance de o Neymar se consagrar ainda mais. E de entrar na minha seleção, façanha, é evidente, irrelevante para ele.

Quem não atirou a primeira pedra que atire agora: como um doido varrido, também não escalo no meu onze legendas, gênios e gigantes como Gilmar dos Santos Neves, Carlos Alberto Torres, Djalma Santos, Junior, Roberto Carlos, Gérson, Rivellino, Romário, Ronaldo, Tostão, Rivaldo e Leônidas da Silva. É de tirar o sono e, merecido, morrer culpado.

Brasileiro, torcedor esperança

Selecionei com base no que vi – também em velhos vídeos – e no que ouvi e li. Uma das minhas primeiras lembranças da infância é a Copa de 70, acompanhada pela TV. Assisti em loco a quatro Mundiais (94, 98, 2002 e 2014). Como torcedor ou jornalista, passei por mais de 150 estádios, e é possível que tenha tangenciado os 200. Fui mais de cem vezes à Boca do Lobo. E muito mais ao Maracanã, onde estreei em 1971.

Meu time, com três na defesa, quatro no meio e três no ataque (o sistema se adapta aos jogadores, e não o inverso): Barbosa; Leandro, Domingos da Guia e Nilton Santos; Falcão, Didi, Zizinho e Zico; Garrincha, Pelé e… Ronaldinho Gaúcho.

Dos onze, seis não conquistaram a Copa. Pior para a Copa. O Paulo Sérgio, bom atacante campeão em 1994, era mais jogador do que o Falcão, derrotado em 1982? Os perdedores podem ter tanto ou mais encanto do que os vencedores. O futebol é metáfora da vida, e vice-versa.

O técnico? Telê! Coordenador técnico: Zagallo. Diretor de seleções: Parreira. “Núcleo de inteligência e análise” (nomezinho pomposo, imensa relevância técnica): Cláudio Coutinho.

Telê Santana, comandante do Brasil nas Copas de 82 e 86.

Telê Santana, comandante do Brasil nas Copas de 82 e 86.

Foto: Pisco Del Gaiso/Folhapress

O Ronaldinho é titular porque no seu auge jogou mais do que o Neymar até este comecinho de junho. Pena que tenha sido breve o auge do gaúcho, deslumbrante no Barcelona e brilhante no penta de 2002. É provável que o apogeu do paulista esteja por vir. E dure mais. Torço para que o Neymar logo se imponha na minha seleção porque, quanto mais ele comer a bola na terra do Yashin, melhor para nós.

No domingo, o Neymar regressou depois de três meses parado por causa de uma fratura no pé direito. Marcou um golaço em Liverpool, na vitória de 2 a 0 do Brasil no amistoso contra a Croácia. A seleção não terá na Copa o Daniel Alves, lesionado. Danilo deve substituí-lo na lateral direita. O Thiago Silva tomou o lugar do Marquinhos na zaga.

No meio, o Renato Augusto foi para o banco. O Taison, atacante pelotense talentoso, está mais próximo de ser campeão do que o craque do século, Messi, tonificante de uma Argentina anêmica. O Brasil do Tite promete. Brasileiro, torcedor esperança.

7 a 1 sem fim

Semanas antes da Copa de 2014, li comentários céticos de um antropólogo sobre a empolgação popular no país anfitrião. Quem conhece a alma nacional não duvidava que os brasileiros não deixariam, a partir do apito inicial, de viver com intensidade uma de suas paixões mais ardentes. O entusiasmo de última hora deve se repetir.

A camisa verde-amarela foi vestida nos últimos anos por fanáticos pró-golpe de Estado e pregadores de “intervenção militar”. A CBF confirmou-se como antro de gatunagem. Não faz tanto tempo o jornalista Juca Kfouri era processado por denominá-la Casa Bandida do Futebol. Há quem não se esqueça do Neymar pedindo votos para Aécio Neves, o bom de bola.

“Faz sentido torcer para uma equipe que vai envergar em campo o mesmo fardamento que foi expropriado pelos manifestoches do impeachment?”, perguntou o jornalista Nirlando Beirão. “Para alguém que torceu a favor em 1970, chancelar em 2018 a hipocrisia, a burrice e a vulgaridade que passaram a exalar da pátria em chuteiras é missão ironicamente mais dolorida que a da época da ditadura. Em 1970, o povo ainda desabafava no futebol uma alegria asfixiada, mas esperançosa. […] Quem quiser vestir o figurino corrupto da CBF e dos patos patetas que se locuplete.”

Sentimento legítimo, o do Nirlando. Torcer pela seleção é direito, e não dever pachequista, ao contrário do que supõem patrulheiros da torcida alheia. Da minha parte, torcerei, e muito, pelo hexa brasileiro. Já nos tiraram muita coisa. Só faltava tirarem o direito de torcer. Só não contem comigo para cânticos patopatéticos como “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”.

Muito menos depois dos Jogos Jurídicos Estaduais, disputados no fim de semana entre alunos de faculdades de direito do Rio de Janeiro. De acordo com numerosas testemunhas, estudantes negros da UFF, da Uerj e da Universidade Católica de Petrópolis foram alvo de racismo de alguns alunos e torcedores da PUC-Rio. Os agressores arremessaram casca de banana, imitaram macacos, chamaram uma atleta de macaca.

“Com muito orgulho, com muito amor?”

O 7 a 1 não tem fim.

Foto em destaque: Neymar abre o placar para o Brasil em amistoso contra a Croácia, em Liverpool, no último domingo (3).