Pep Guardiola é insuspeito de ser um arauto da violência no futebol. Meses atrás, o técnico trovejou contra o que denunciou como tolerância demasiada da arbitragem com faltas sofridas pelos jogadores do Manchester City. Alguns deles haviam se contundido. Na opinião do catalão, os apitadores consentiram com patadas e outras maldades.

Anos antes, depois de um jogo em que a profusão de faltas havia reduzido a velocidade do Barcelona e castigado as canelas dos seus boleiros, Guardiola chiou, mas ponderou: os blaugranas tinham facilitado a caçada, ao reter em excesso a bola; era recomendável acelerar o jogo, tocar com rapidez, dificultando a marcação e a truculência.

Trocando em miúdos: sem absolver os adversários botinudos, Pep cobrou também o seu time.

No domingo, o Neymar se tornou a maior vítima de faltas, numa só partida, em duas décadas de Copas. Depois de 1998, é o recordista. Foram dez, no empate de 1 a 1 com a Suíça. O atacante saiu com o meião esquerdo rasgado. Mancou, devido a uma pancada no tornozelo direito – o médico negou que tenha sido no pé operado neste ano. Três adversários receberam cartão amarelo ao pará-lo. Ele rendeu menos do que é capaz, mesmo para quem ficou três meses de molho. Ontem, sentiu dor e abandonou o treino manquejando.

Neymar se tornou a maior vítima de faltas, numa só partida, desde a Copa de 1998.

O Neymar nunca foi treinado pelo Guardiola. Chegou ao Barça um ano após a despedida do mais influente herdeiro das concepções do Cruijff. Nada o impede, contudo, de aprender a lição: só se segura a bola quando há benefício para o time, e não por capricho. Uma coisa é correr com ela em direção ao gol adversário, para ameaçá-lo, ou esperar a aproximação de companheiros para tabelar.

Outra é atrasar a jogada, permitindo ao oponente se recompor ou recuperar a pelota. Foi isso o que Neymar fez em certos momentos na estreia. Prendeu a bola, na intermediária oposta, e de costas para o goleiro Sommer. Parecia esperar a falta ou planejar um drible consagrador, muito longe do gol. Passou a impressão de supor que se tratava de um confronto Neymar, e não Brasil, versus Suíça.

O meião rasgado de Neymar Jr. durante a partida entre Brasil x Suíça, válida pela primeira rodada do grupo E da Copa do Mundo 2018.

O meião rasgado de Neymar durante a partida entre Brasil x Suíça, válida pela primeira rodada do grupo E da Copa do Mundo 2018.

Foto: Marcelo Machado de Melo /Fotoarena/Folhapress

Nada contra o hedonismo do Neymar fora de campo, cada um na sua. No entanto, dentro dele sua genialidade deveria estar a serviço da equipe, e não do egoísmo de craque vaidoso. Todo mundo conhece seu talento assombroso. É um dos três melhores do planeta. A Copa é sua chance de entrar para a seleção brasileira de todos os tempos. Mais importante, de ser decisivo na conquista do hexa.

Messi e Cristiano Ronaldo são jogadores estelares que defendem seleções limitadas. Neymar tem a vantagem de contar ao seu lado com, ao menos no papel, um potencial timaço. Se jogar bem, muito menos gente se importará em polemizar: seu novo penteado-cheguei se assemelha mais a uma calopsita ou ao Canarinho Pistola?

Esquerdismo

A seleção concentrou o jogo pelo lado esquerdo, o de Neymar. O time investiu nas triangulações entre ele, Marcelo e Coutinho. Ressentiu-se da ausência de Daniel Alves na lateral direita, onde Danilo é correto, mas sem virtuosismo no ataque.

Não surpreenderia um fanático do movimento Escola Sem Partido propor a proibição de menções à seleção na sala de aula: o escrete aparenta jogar apenas pela esquerda. O reaça poderia bronquear com a superabundância de camisas vermelhas nas equipes da Copa (talvez a belga seja a mais bonita). E logo na antiga terra do Lênin…

A última vez que o Brasil não vencera em estreia de Mundial havia sido em 1978. Nos cinco títulos, sempre triunfou na primeira partida. É possível que a euforia com a seleção competitiva que o Tite engendrou tenha contribuído para o sentimento de fracasso, mesmo em jogo presumivelmente renhido contra a sexta colocada do ranking da Fifa. Mais de um comentarista referiu-se, em ato falho, à “derrota” ou às oportunidades de gol para “empatar” no final (seria desempatar, ganhar).

Não recorrerei a Shakespeare para dizer que é muito barulho por nada, porque me frustrei com o placar macambúzio e o futebol meia-boca da seleção, depois dos minutos iniciais empolgantes. Mas vou de Eça e seu Conselheiro Acácio: não se julga o desempenho numa competição somente com base numa partida.

Tomara que, ao menos por enquanto, o Tite mantenha o quarteto técnico e ofensivo, com Neymar, Willian, Coutinho (que golaço!) e Gabriel Jesus (ou Firmino). O problema hoje não é a escalação, mas a capacidade de impor contra seleções de ponta o futebol vistoso e bem-sucedido das Eliminatórias.

O Alisson não falhou: o goleiro confiou na defesa; o cruzamento de escanteio pelo Shaqiri foi muito rápido.

Será péssimo se a controvérsia sobre a arbitragem (de campo e de vídeo) minimizar a preocupação com as limitações futebolísticas apresentadas no estádio de Rostov. Registro, porém: achei falta no Miranda, no gol de cabeça do Zuber. O zagueiro e outros brasileiros estavam mal colocados. O Alisson não falhou: o goleiro confiou na defesa; o cruzamento de escanteio pelo Shaqiri foi muito rápido. Outro pitaco: não considerei pênalti no Gabriel Jesus.

Que os gols que faltaram no domingo venham depois de amanhã, contra a Costa Rica, com atuação cintilante do Neymar, a despeito das dores. O Brasil precisa dele. Nosso melhor jogador tem de lembrar que quem segura demais a bola apanha mais e prejudica o coletivo, como ensina o Guardiola e sabe todo peladeiro.

Foto em destaque: Neymar sofreu 10 faltas no jogo contra a Suíça.