Eu sou americano, filho de um brasileiro, e, desde fevereiro, trabalhava no abrigo para crianças desacompanhadas Southwest Key, em Tucson, Arizona. Dava aulas de capoeira para jovens entre 13 e 17 anos. A maioria era de guatemaltecos que cruzaram a fronteira do México com os Estados Unidos sabendo que iam ser detidos pelos oficiais. Eles adoravam as aulas, nas quais eu dava a eles nomes de capoeira.

No dia 28 de maio, um dia antes do meu aniversário, recebi a informação de que jovens brasileiros iam chegar ao abrigo. Naquele dia, eu já estava com uma ideia pronta: ia pedir minha namorada em casamento no dia seguinte. No judaísmo, há uma crença de que as almas gêmeas são separadas no nascimento. Então, se eu a pedisse em noivado no dia do meu aniversário, seria como se as nossas almas tivessem se encontrado de novo. Mas, quando os três primeiros chegaram, tudo mudou. Era um trio de irmãos de 8, 14 e 17 anos que saíram de Minas Gerais e que contaram que viviam em regiões conflagradas no Brasil e que e suas famílias estavam sendo ameaçadas.

Eu estava preocupado porque, em 7 de maio, o procurador-geral dos EUA, Jeff Sessions, anunciara que iria prender e processar qualquer pessoa que cruzasse a fronteira do país ilegalmente. Se a família cruzasse com filhos, as crianças seriam separadas dos pais.

“Ele chorava muito e perguntava o que ia acontecer com eles, em quanto tempo poderiam ver a mãe.”

No dia seguinte, quando completei 32 anos, eu estava com o anel de noivado no bolso, mas não conseguia pensar em outra coisa que não fosse o rosto de desespero dos dois meninos e da menina que haviam sido separados da mãe na véspera. Eles estavam sem dormir desde as 2h. Quando os encontrei à tarde, eles haviam tomado banho, feito o exame de admissão e estavam confusos porque ninguém os entendia e eles não entendiam ninguém. Pensavam que iam sair em dois, três dias, e eu não sabia o que responder.

O mais velho, de 17 anos, estava petrificado de medo porque o abrigo contratou um sistema de tradução por telefone tosco que o informou que a mãe estava desaparecida. Não sei bem dizer se era isso, mas foi assim que ele entendeu. Ele pensava que a mãe estava morta. Eu disse que não, que ela estava em outro centro, mas não tinha qualquer informação. Ele chorava muito e me perguntava o que ia acontecer com eles, em quanto tempo eles poderiam ver a mãe. Eu perguntei para o gerente do caso deles essas informações, mas ele também não sabia responder.

O gerente morou um ano no Brasil, mas falava mal português e pedia para eu traduzir algumas frases. Eu era apenas o professor de capoeira do local e fiquei o tempo todo me oferecendo como tradutor. Cheguei a participar de uma sessão com uma terapeuta, uma menina jovem que queria ajudá-los de verdade. Eu queria me tornar tradutor do abrigo porque falo quatro línguas (inglês, português, espanhol e hebraico) para ajudar mais as crianças. No entanto, o pessoal do abrigo era muito resistente a mudanças e começou a vetar todos os meus pedidos para mudar de cargo.

Essa cadeia de abrigos para imigrantes, uma ONG, tem um modelo muito lucrativo, segue padrões rígidos e é resistente a qualquer mudança que possa resultar em mais gastos. Como argumento para não me promover, diziam que tinham funcionários que sabiam espanhol, como se espanhol fosse português, e o serviço de tradução por telefone. Os funcionários falavam espanhol com os brasileiros, e eles não entendiam nada. Era uma situação absurda. Os meninos só repetiam “não entendo”, “não entendo” e alguns funcionários achavam que eles já estavam entendendo porque a frase é parecida no espanhol, no entiendo.

“Quando eu via os irmãos, lembrava  dos meus amigos do Conjunto Manguariba, nº 21, no Rio.”

Depois disso, comprei uma outra batalha com a diretora educacional. As crianças seriam encaminhadas a uma escola durante o período em que estivessem no abrigo e passaram por um teste para definir qual série deveriam ser encaminhados. Depois do resultado, fizeram algo ainda mais cruel com os jovens: separaram os irmãos. E colocaram eles numa aula de espanhol para aprender inglês. Não fazia qualquer sentido. No dia 24, o mais velho completa 18 anos e ganha maioridade – e ninguém sabe o que vai acontecer com ele.

Eu achava que conseguiria ajudá-los e mudar as coisas por dentro. Quando eu via os irmãos, lembrava dos meus amigos do Conjunto Manguariba, nº 21, no Rio de Janeiro. Quando era adolescente, meu pai decidiu nos trazer para viver onde ele havia nascido. Passei oito meses no Rio, de chinelo na rua, jogando capoeira.

Nós somos de Palo Alto, Califórnia. Meu pai, Mestre Beiçola, dava aulas de capoeira na Universidade Stanford e não queria que a gente, meu irmão e eu, conhecêssemos só aquela realidade americana, de viver entre milionários. Ele achava que teríamos uma ideia errada do que é o mundo na verdade. Essa experiência abriu a minha cabeça. Foi lá que eu aprendi a ser humilde. Depois, morei dois anos em Israel e, durante cinco anos, estudei para ser rabino.

Teve um dia dessa primeira semana que o menino de 14 veio correndo atrás de mim. Ele me lembrava o meu irmão – tive uma empatia muito grande por ele. Estava indo ao seu encontro quando um funcionário da ONG me deteve porque o abrigo tem uma política de evitar envolvimento emocional com as crianças. Eu disse que não ia obedecer e segui adiante.

Começaram então a me chamar por rádio: “Antar Davidson, Antar Davidson”. Eu segui em frente e fui falar com o menino. A ONG está instalada em uma região pobre e costuma contratar pessoas sem qualquer preparo para lidar crianças e jovens. Eles divulgam por aí que tem um quadro de funcionários talentoso e preparado, mas isso não é verdade. O garoto queria me dizer que estava muito triste e que não entendia nada das aulas. Eu ficava com muita pena.

Foi então que me disseram para reforçar com os irmãos a ordem de não se abraçar. A ordem veio de uma das líderes da ONG, que se diz humanitária. Eles são muitos frios, falam de maneira padronizada como se fossem robôs e só repetiam “no touch policy” (política do não tocar). Não davam qualquer justificativa porque não estavam preocupados com o estado emocional das crianças.

Enquanto isso, seguíamos sem notícias dos pais dos irmãos.

Na quarta, dia 30, chegaram mais quatro brasileiros. Eu fui trabalhar com uma camiseta da seleção brasileira para demonstrar que estava preparado para recebê-los. Quinta era meu último dia de trabalho na semana (folgava nas sextas e sábados).

Na semana seguinte, porém, comecei a perceber que não conseguiria ajudá-los. Uma garotinha de 8 anos veio me pedir: “tio, me dá um batom, estou com a boca doendo”. Ela tinha rachaduras nos lábios – o tempo é muito seco no Arizona nesta época do ano. Eu prometi que traria, mas eles me proibiram. Disseram apenas que iriam passar vaselina de manhã e à noite. No outro dia, ela veio: “tio, cadê meu batonzinho?” Eu me senti muito mal de não ter como dar a ela.

Fiquei emocionalmente perturbado. Pedi folga no domingo (10) e disse que queria tirar uma semana para pensar em tudo. Depois de separarem as crianças dos pais, separaram os irmãos e proibiram que se abraçassem. Pedi demissão na terça (12), quando eles me chamaram de volta. Se eu não conseguia ajudá-los estando lá dentro, eu ia tentar do lado de fora. Eu ganho um salário mínimo, mas não ia aceitar aquilo. Eu não conseguia dormir pensando nas crianças.

Na quinta (14), dei uma entrevista à imprensa para o Los Angeles Times – minha mãe é Karen de Sá, repórter investigativa do San Francisco Chronicle. Desde então, eu não paro de falar com repórteres nas quatro línguas que eu falo.

Em oito dias, revelamos ao mundo os equívocos da política de tolerância zero de Trump até ele assinar nesta quarta uma ordem executiva para proibir a separação das famílias na fronteira com o México. A ordem executiva, no entanto, não altera o destino dos irmãos brasileiros que já estão no abrigo. Ainda não sei o que vai acontecer com eles.

Mas a política de imigração não vai mudar porque as prisões privadas fazem parte de uma indústria bilionária que financia o presidente. Essa ONG, a Southwest Key, que administra abrigos para imigrantes como o de Tucson, ganhou US$ 1,5 bilhão de repasses federais. Elas não têm interesse que essa política de “tolerância zero” acabe. O mundo precisa saber disso. E eu vou continuar a dizer a verdade de novo, de novo e de novo, quantas vezes forem necessárias para isso acabar. Por que não tem nada a ver com segurança. Tem a ver com dinheiro.

Foto em destaque: Centro de detenção de imigrantes ilegais em McAllen, Texas.

Texto redigido por Sílvia Lisboa conforme narrado por Antar Davidson de Sá.