Quando a violência no Congo tornou-se insuportável, Afonso, de 28 anos, decidiu que era hora de arrumar as malas.

Ele encontrou um grupo de contrabandistas e escapou da capital Kinshasa em um navio de carga com um punhado de outros imigrantes. À medida que o barco saiu da África, ao invés de seguir para o norte, rumo à Europa, tomou o caminho das Américas.

Afonso veio para o Brasil em um navio de carga e trabalhou durante o trajeto para pagar a viagem.

Afonso veio para o Brasil em um navio de carga e trabalhou durante o trajeto para pagar a viagem.

Marcelo Pereira

Afonso trabalhou no navio para pagar sua passagem. Duas semanas depois, estava no porto de Santos. Hospedado em um dos centros de acolhimento de refugiados da Missão Scalabriniana na cidade de São Paulo, passou a procurar emprego.

Ele faz parte de uma onda de imigrantes africanos e do Oriente Médio que optam por navegar clandestinamente até as Américas para evitar as gangues violentas que tomaram conta da rota europeia e o mesmo destino das dezenas de milhares de pessoas que morreram tentando atravessar o deserto do Saara e o Mediterrâneo nos últimos anos.

Relatório divulgado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, o Acnur, nesta terça-feira mostra que, em um ano, mais que dobrou o número de estrangeiros que buscam refúgio no Brasil. Cerca de 85% das pessoas com status de refugiados no mundo foram acolhidas por países em desenvolvimento.

A história de Afonso é incomum: a maioria dos imigrantes que desembarcam no continente evita o oceano, optando por um pacote que inclui visto, voo e hospedagem e que os deposita em segurança nas maiores cidades da América do Sul.

Na Caritas, uma organização da igreja católica que ajuda refugiados e imigrantes, conhecemos K, que pediu para não revelar seu nome completo por questões de segurança. Ele deixou Serra Leoa em abril de 2017. Seu avô era o principal sacerdote de uma sociedade secreta na qual, por tradição, o filho mais velho da família assume o posto assim que antigo sacerdote morre.

Cristão e formado em Tecnologia da Informação, K se recusou a assumir o lugar do avô e passou a ser perseguido. Ele fugiu para ficar com a família no interior do país, mas foi sequestrado e mantido em cativeiro no meio da floresta. Uma noite, ele conseguiu escapar para a cidade e conheceu uma mulher de uma organização cristã que arranjou passagens de avião para que ele pudesse partir imediatamente para o Brasil.

A irmã Eva Souza, diretora da Missão Scalabriniana em São Paulo, calcula ter recebido recentemente pessoas de países como Angola, Camboja, Congo, Egito, Guiné, Marrocos, Nigéria, Togo, Tunísia, Egito e Síria, entre outros.

O marroquino Mohamed Ali, de 40 anos, vive no alojamento da Missão Scalabriniana em São Paulo

O marroquino Mohamed Ali, de 40 anos, vive no alojamento da Missão Scalabriniana em São Paulo

Marcelo Pereira

Na Missão, os imigrantes recebem alojamento, comida, roupas e medicamentos. O grupo conta apenas com uma pequena quantia de apoio financeiro do governo e se esforça para ajudar os imigrantes a encontrarem empregos para que eles possam viver de forma independente.

A irmã diz que muitos dos que chegam à casa estão doentes; alguns, gravemente feridos, outros ficaram doentes durante a viagem ou sofrem por conta das condições em que viviam antes de chegarem a São Paulo. Desde 2015, ela diz ter recebido imigrantes nas situações mais diversas – de vítimas de tráfico humano e de escravidão a mulas de drogas, refugiados políticos e pessoas que perderam suas famílias no caminho.

Onda de imigração

Em 2003, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva criou uma política de refugiados focada na cooperação sul-sul. Isso colocou o Brasil um em um papel de destaque nesse cenário, levando a ondas de imigração: palestinos em 2007, haitianos a partir de 2010, após o terremoto que devastou seu país, e sírios em 2014. Mas também causou um aumento no número de imigrantes e refugiados africanos, asiáticos e do Oriente Médio em busca de asilo.

De acordo com as estatísticas oficiais, em 2010 o Brasil recebeu apenas 966 pedidos de asilo. Cinco anos depois, o número passou para 28.670. Muitos eram haitianos, mas funcionários de imigração apontam um aumento brusco no número de pessoas vindas da África e do Oriente Médio.

Nem todos foram bem vindos. Há 85.746 casos de asilo pendentes, de acordo com o Acnur, e apenas 10.264 refugiados reconhecidos oficialmente. Outros 52.341 se encaixam na rubrica “outras pessoas dentro do escopo do Acnur”, que são as que pedem residência temporária por dois anos justamente por causa da demora do processo de refúgio.

Muitas das pessoas que tiveram seus pedidos negados acabaram ficando no Brasil. Tanto vivendo ilegalmente quanto usando o país como ponto de partida para uma jornada para o interior do continente. Em 2015, de acordo com o Ministério do Turismo, 110.983 viajantes africanos chegaram ao país, vindos principalmente da África do Sul, Angola, Cabo Verde, Marrocos, Tunísia e Nigéria. A maioria foi para São Paulo.

Os números oficiais mostram que 1.366 pessoas do continente africano entraram no Brasil por terra — principalmente através do Paraná e dos estados do norte do país, Amapá, Roraima, Amazonas e Acre. Ao menos 125 chegaram pelo mar.

O ‘boom’ brasileiro

A esperança da consolidação do Brasil como uma potência econômica mundial alimentou a corrida para o país. Houve um boom na construção civil antes da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, durante o otimismo promovido pelos governos Lula e Dilma Rousseff.

Muitos disseram que, mesmo com a desaceleração na economia, estão melhores aqui do que em seus países de origem.

No Brasil não havia nenhum lugar mais atraente do que São Paulo: uma megalópole de mais de 12 milhões de habitantes, a capital financeira do país e uma das cidades mais ricas do mundo. O local tornou-se um destino importante para imigrantes. Quase metade dos residentes da cidade nasceram em outras partes do país e do mundo.

Embora a perspectiva econômica do Brasil, que passa desde 2015 por uma grave crise financeira, tenha se deteriorado, o fluxo de imigrantes continua forte. Muitos disseram que, mesmo com a desaceleração na economia, estão melhores aqui do que em seus países de origem.

Lalingé, um restaurante senegalês no movimentado centro de São Paulo, atrai imigrantes de todo o continente africano. Eles se reúnem para conversar, fazer negócios, retransmitir as últimas notícias de seus países e, claro, compartilhar as refeições africanas de que tanto sentem falta.

Arami, proprietária do local – cujo nome significa “A Princesa” em seu idioma –, está no Brasil há sete anos. Ela conta que abriu o restaurante em 2016 para que a comunidade africana no centro da cidade tivesse um lugar para se reunir.

O restaurante senegalês Lalingé, no movimentado centro de São Paulo, atrai imigrantes de todo o continente africano.

O restaurante senegalês Lalingé, no movimentado centro de São Paulo, atrai imigrantes de todo o continente africano.

Marcelo Pereira

A vizinha Praça da República, onde muitos imigrantes senegaleses trabalham como vendedores ambulantes, se torna palco de uma festa comunitária todas as noites. Os aparelhos de som tocam canções africanas tradicionais, e o ar é preenchido por conversas sobre a terra natal.

Carmem Silva, que lidera a Frente de Luta por Moradia, uma ONG que ajuda os sem-teto em São Paulo, diz que a maioria das pessoas que procuram a ajuda do grupo são imigrantes ou refugiados atrás de asilo. Boa parte quer ficar no país. Uns 20%, calcula, ainda o vêem o Brasil como parte do caminho para outros lugares, principalmente para os EUA.

Fitah, um refugiado somali de 32 anos, estava entre aqueles que esperavam usar o país como um trampolim para chegar aos Estados Unidos. Ele deixou a Somália em 2007 devido à guerra civil e foi para a África do Sul, onde ficou até março de 2017, e pousou em São Paulo com um passaporte de refugiado sul-africano depois de comprar documentos falsos por 4 mil dólares em Johannesburg. Ele queria ir para os Estados Unidos, mas o “pacote de viagem” oferecido por seus traficantes lhe deu apenas duas opções: Brasil ou Turquia. Os preços variam de acordo com o sexo, idade e destino, conta.

Desiludido pela tentativa do presidente dos EUA, Donald Trump, de impor uma proibição de viagem aos imigrantes da Somália e de outros países, agora pensa em ficar no Brasil. “Aqui eu posso pelo menos andar livre”, diz.

Corrupção na rota

Os imigrantes que vêm da África geralmente viajam de avião e entram no Brasil legalmente, sem a ajuda de coiotes, graças a nossa legislação de imigração mais aberta. No entanto, a rota não deixa de ter problemas, e muitos imigrantes contratam “agências” em seus países de origem que se comprometem a “facilitar o processo”. Para alguns deles, reunir os documentos necessários e um agente pode custar milhares de dólares.

Um oficial da polícia federal brasileira, que falou sob condição de anonimato, disse que as entradas de imigrantes no país – especialmente africanos –, são acordadas com funcionários corruptos na fronteira que retêm centenas de passaportes. Para fazer uma renda extra, eles carimbam pilhas de documentos em turnos noturnos silenciosos.

Os imigrantes também são extorquidos de outras formas. Alguns funcionários da alfândega não carimbam os passaportes dos imigrantes na entrada do país, mas marcam os endereços brasileiros dos recém-chegados. Meses depois, eles batem em suas portas e pedem dinheiro, ameaçando denunciá-los às autoridades.

A trilha de imigração através da África começa localmente: aqueles que fogem da crise da segurança no Congo, por exemplo, vão primeiro a Angola antes de atravessar o Atlântico.

Mas a corrupção também começa em casa. Em 2010, um diplomata angolano disse que um número significativo de pedidos de documentos de identidade emitidos em sua embaixada em Kinshasa, no Congo, foram, na verdade, feitos por imigrantes congoleses que se apresentavam como angolanos.

H, uma angolana de 42 anos que atualmente mora em um casa alugada pela igreja batista em um bairro abandonado de São Paulo, conta que muitos imigrantes angolanos subornam funcionários da fronteira africana para conseguir documentos. A trilha de imigração através da África começa localmente: aqueles que fogem da crise da segurança no Congo, por exemplo, vão primeiro a Angola antes de atravessar o Atlântico.

A casa em que H vive, anexada ao prédio da igreja e vizinha a uma boca de fumo, é rústica. Ela chegou há um ano, grávida e com dois de seus filhos. Seu marido e mais duas filhas ainda estão lá.

H diz que depois que a família do presidente angolano assumiu o mercado de bens contrabandeados em seu país, seu pequeno negócio de importação começou a desmoronar. A longo prazo, ela quer voltar para Angola, mas apenas em uma “situação política diferente”.

Atualmente, ela está desempregada, mas feliz por seu filho estar estudando, embora muitas vezes ele chegue em casa reclamando do racismo na escola. H não quer que ele brinque com as crianças do bairro, teme que ele seja atraído pelo tráfico caso se misture com a turma errada.

Embora o Brasil tradicionalmente tenha tido uma atitude receptiva em relação aos refugiados e sua legislação seja moderna e permissiva, a integração não é fácil e muitos imigrantes se queixam de discriminação.

Muitos africanos entrevistados em São Paulo ainda estavam à espera de documentos permanentes e, apesar de terem permissão para trabalhar com carteira assinada, a maioria trabalhava informalmente, como vendedores ambulantes. Caso do senegalês Abu, que vende tecidos em um quiosque improvisado perto da Praça da República, e de Jorge, da Guiné-Bissau.

Hoje com 37 anos, ele nasceu em Thiès, no oeste de Senegal, e chegou ao Brasil ainda em 2010 com a esperança de que a Copa do Mundo faria do país um lugar próspero e lhe ofereceria uma nova vida. Ele defende que os imigrantes devem ser respeitados por terem a coragem de deixar tudo para trás e recomeçar a partir do nada. A discriminação e a falta de emprego são um problema para ele, que diz que seu plano agora é economizar para ir para a Europa o mais rápido possível.

Quando chegou, Abu tinha dinheiro para ficar em um hotel por sete dias. Depois, conseguiu emprego como vendedor de rua e passou a comercializar itens contrabandeados e roupas tradicionais senegalesas costuradas no Brasil com tecidos africanos. Toda vez que a Guarda Municipal vem e apreende as peças, ele demora até cinco meses para recuperar o dinheiro perdido.

O refugiado senegalês Abu vende roupas costuradas com tecidos típicos em uma barraca no Praça da República, em São Paulo.

O refugiado senegalês Abu vende roupas costuradas com tecidos típicos em uma barraca na Praça da República, em São Paulo.

Marcelo Pereira

Jorge, um engenheiro formado da Guine Bissau, veio para o Brasil há dois anos e agora também vende roupas falsas e contrabandeadas em um mercado local. Sua namorada brasileira está grávida e ele está aguardando uma autorização de trabalho para conseguir um emprego como pedreiro.

Quando a Polícia Federal foi ao seu endereço para confirmar se ele estava morando lá – um passo essencial no processo de emissão de um visto de trabalho para um imigrante –, os colegas com quem dividia a casa acharam que queriam prendê-lo e negaram que Jorge vivesse no local. Isso atrasou sua chance de obter um trabalho legal e melhor remunerado. A falta de confiança nos funcionários públicos e policiais brasileiros é uma questão enorme entre refugiados e imigrantes. Muitos dizem que eles raramente fornecem ajuda ou apoio, mas, ao invés disso, dificultam suas vidas.

Há preocupações crescentes com a exploração de refugiados por facções criminosas, em particular as lideradas pela máfia boliviana no leste da cidade. Santa Efigênia é uma área com cerca de dez blocos de ruas no coração do centro onde os moradores afirmam que você “não encontrará nenhum produto original ou qualquer produto que tenha entrado legalmente no país”. Há dezenas de galerias com comerciantes locais, imigrantes e vendedores ambulantes que vendem suas mercadorias, multidões gritando e agarrando para vender eletrônicos falsificados e contrabando tarde da noite.

Quando a visitamos, um velho sem-teto acendia uma fogueira com lixo para se aquecer na esquina enquanto pessoas passavam gritando, reclamando da fumaça negra. A área acaba funcionando como um grande mercado de falsificação em São Paulo, com roupas costuradas ali mesmo por pessoas como Ibrahim, um imigrante do Senegal, que trabalha em um ateliê improvisado no centro.

Ele tem 41 anos e é especialmente talentoso na costura de logotipos falsos da Nike e Adidas. Embora seja um alfaiate profissional e prefira dedicar seu tempo ao seu trabalho original, Ibrahim diz que as pressões financeiras o obrigaram a se juntar ao mercado de falsificação de roupas de grife.

De acordo com um relatório do governo de São Paulo, 24,7% dos refugiados ajudados pelo Centro de Referência e Assistência aos Imigrantes tem ensino superior. Mas, devido à falta de reconhecimento institucional de suas qualificações, muitos acabam em empregos de segunda classe.

Clement Kamano, 24, da Guiné, participou dos protestos de setembro de 2009, que acabaram com mais de 150 mortos. Temendo que pudesse ser morto, seu pai lhe comprou uma passagem para o Brasil

Clement Kamano, 24, da Guiné, participou dos protestos de setembro de 2009, que acabaram com mais de 150 mortos. Temendo que pudesse ser morto, seu pai lhe comprou uma passagem para o Brasil

Marcelo Pereira

Clement Kamano, 24, estudou Ciências Sociais na Universidade General Lansana Conté, quando participou dos protestos de 28 de setembro de 2009, que acabaram com mais de 150 mortos. Depois, ele foi repetidamente perseguido por causa de seu envolvimento em movimentos sociais. Temendo que pudesse ser morto, seu pai lhe comprou uma passagem para o Brasil. Agora ele é um refugiado político quase fluente em português e que gosta de falar sobre os sociólogos e filósofos Emile Durkheim, Max WeberLeibniz e Nietzsche. Atualmente, está tentando uma vaga em uma universidade federal em São Paulo.

Outros também são atraídos para a economia informal e o tráfico de drogas na rua Guaianazes em torno dos bairros do centro. O local é considerado o coração de Cracolândia, um território controlado pelo crime organizado há mais de uma década, e que agora teria se tornado o lar de algumas gangues de tráfico de drogas lideradas por africanos.

“Eu amo o Brasil mais do que muitos brasileiros. Sou brasileiro até o dia em que voltarei para o meu país”. Abu, imigrante senegalês.

Lá há uma mesquita precária no segundo andar de um edifício antigo e degradado que é freqüentada por muitos imigrantes africanos. Do lado de fora, o cheiro de maconha e crack barato é inebriante. Uma multidão se reúne nas ruas em frente aos bares lotados, enquanto nos perguntam se queremos maconha barata.

Nós entramos em um bar sem sequer uma mesa ou cadeira: há um cartaz do jogador de futebol mais famoso do Camarões, Samuel Eto’o, na parede e uma grande mesa de sinuca no centro, enquanto todos os clientes jogam, discutem e fumam. O atendente diz que é um bar nigeriano, mas que é freqüentado por africanos de todas as nacionalidades. Entre as ofertas de maconha barata, crack e cocaína, risos, música e bate-papo alto, você mal pode ouvir o chamado do imã na mesquita.

Muitos daqueles que ficam em São Paulo estão construindo seus próprios espaços nesta cidade gigante. Eles estão abrindo restaurantes, mesquitas e igrejas que replicam lugares que remontam às suas origens. “Os imigrantes gostam de comer a comida do seu país de origem, e o mesmo vale para a religião”, diz o pastor Charles, fundador da igreja Ministry of the World of Fire.

Os recém-chegados estão lentamente se tornando paulistanos. “Em 40 anos, quem está nascendo agora, será capaz de administrar este país. Com educação, respeito e conhecimento”, disse o imigrante Abu. “A riqueza que vocês tem, ninguém tem. Devemos ser patriotas e amar o Brasil. Eu amo o Brasil mais do que muitos brasileiros. Sou brasileiro até o dia em que voltarei para o meu país”.

Imigrantes africanos participam de cerimônia na igreja Ministry of the World of Fire.

Imigrantes africanos participam de cerimônia na igreja Ministry of the World of Fire.

Marcelo Pereira

* Tradução de Adriano França. Reportagem realizada com o apoio da Transparency International e 100 Reporters.