Nesta semana o Congresso em Foco revelou que Luiz Nishimori (PR – PR), relator do PL do Veneno, é dono de duas empresas que comercializam agrotóxicos. Confrontado com o flagrante conflito de interesses, Nishimori desconversou: “Minha vida pessoal não tem nada a ver com a atuação parlamentar”. Esse mesmo nível de desfaçatez parece estar presente entre quase todos os defensores da PL do Veneno. Quando aparece alguém defendendo com unhas e dentes o liberou-geral da nova lei, pode jogar o nome no Google que você encontrará alguma ligação com o agronegócio. É batata.

O livro “Agradeça aos Agrotóxicos por Estar Vivo”, lançado no ano passado, vem sendo ovacionado por grandes veículos de mídia, colunistas, MBL e políticos ligados ao agronegócio como fruto de um trabalho jornalístico definitivo sobre o tema. Mas eles não nos contam o contexto que cerca o livro escrito pelo jornalista Nicholas Vital.

Para entender melhor, marquei uma conversa com o autor na região central de São Paulo. Antes de iniciarmos a conversa, Vital adoçou seu café com açúcar orgânico. Segundo ele, “porque é menos processado, não por causa dos agroquímicos”.

Ele é um jornalista paulistano que nasceu e cresceu na região da Avenida Paulista. Começou como jornalista esportivo na revista Placar em 2005, cobrindo futebol internacional. Em 2007, foi convidado para trabalhar na IstoÉ/Dinheiro Rural, onde trabalhou por 3 anos. “As pessoas ficam nessa ideia aí ‘o cara é lobista’. Não, eu caí nessa por acaso. Eu estava lá felizão (na Placar), trabalhava com uns caras top, até que um ex-chefe meu assumiu como editor na Dinheiro Rural/IstoÉ. Eles estavam atrás de alguém que não entendesse absolutamente nada de agronegócio, porque a revista era muito técnica e eles queria um olhar diferente. O salário era bem melhor e fui. Foi lá que eu aprendi o que é o agronegócio. Hoje eu sou um defensor do agronegócio.”

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Líderes do MBL entrevistam Nicholas Vidal.

(Reprodução/Youtube)

Mas Vital não é simplesmente um jornalista que cobre o agronegócio. Boa parte da sua trajetória profissional foi prestando serviços de relações públicas para o setor. Em 2011, ele foi convidado por Ibiapaba Netto, que havia sido seu chefe na IstoÉ/Dinheiro Rural, para trabalhar na Prole, uma empresa de relações públicas cujo lema é “influenciar a opinião pública é a nossa razão de ser”. Juntos, comandavam a comunicação de grandes setores do agronegócio e foram responsáveis por coordenar projetos para a Associação Nacional de Defesa Vegetal, a ANDEF — entidade que representa os produtores de agrotóxicos —,  com o objetivo de divulgar uma agenda positiva “para um dos setores mais atacados na mídia”.

Vital encara com naturalidade o serviço prestado para produtores de agrotóxicos: “Os caras tinham muita informação, mas não botavam pra fora. Nosso negócio era apurar as histórias que eles tinham, empacotar minimamente e tentar vender para a imprensa. Era um trabalho de assessoria de imprensa e relações públicas basicamente”.

Ibiapaba Netto, o ex-chefe e hoje amigo de Vital, já atuou também como representante da Associação Brasileira do Agronegócio e é autor do livro “A notícia relevante” — um guia para empresários entenderem o processo de decisão nas redações e aprimorar a relação com jornalistas. Hoje, ele é presidente da Citrus Br, a Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos, cuja principal missão é defender os interesses dos exportadores de laranjas. Coincidência ou não, a laranja é um dos alimentos mais contaminados por agrotóxicos, segundo um levantamento da Anvisa de 2016.

Vital é muito bem relacionado no mundo empresarial dos agrotóxicos. Renato Seraphim, o presidente da Albaugh Agro Brasil —  empresa que comercializa agrotóxicos — recomendou em seu LinkedIn o livro de Vital, que agradeceu de uma maneira que sugere que a relação de ambos é frequente: “Obrigado pelo apoio de sempre, Renato. Ab!”. Seraphim tem amplo currículo no mundo dos agrotóxicos e já trabalhou para as mais importantes fabricantes como Zeneca, Syngenta e Bayer.

Vital garante que seu livro foi feito de maneira totalmente independente. “O livro teve zero financiamento. Não teve nenhum tipo de patrocínio. Eu nem quis para não ter nenhum tipo de interferência no meu trabalho. Quando eu saí da Prole, fiquei 10 meses sem trabalhar, focado no livro. Por quê? Porque eu acreditava nessa história”.

A editora que topou publicar o livro é a Record, indicada para Vital pelo jornalista Leandro Narloch. A Record é conhecida por publicar livros “liberais e conservadores”, e cujo proprietário, Carlos Andreazza, defende nas redes sociais que Donald Trump ganhe o prêmio Nobel da Paz.

Apesar de prestar serviços de comunicação para o agronegócio e vender palestras para empresas e entidades representativas do setor, Vital rechaça a ideia de que faz um trabalho de relações públicas. “Meu trabalho é de jornalista. Eu nunca liguei pra jornalista para oferecer pauta. Meu trabalho era apuração e venda de pauta. E é o que eu faço até hoje. Continuo fazendo reportagem na Plant Project. Às vezes faço branded content, mas eu não assino, só faço. Eu nunca fui RP”, afirmou, apesar de ter admitido inicialmente ter prestado esse tipo de serviço serviço para a Andef quando trabalhava na Prole.

A Plant Project é uma revista com tiragem de 10 mil exemplares. Não é vendida em bancas e é voltada para as lideranças do agronegócio. Foi fundada por um ex-diretor da IstoÉ, Luis Fernando Sá, o criador da Dinheiro Rural, onde Vital começou sua carreira no agronegócio.

Em uma de suas matérias para a Plant Project, Nicholas escreveu sobre o lobby do agronegócio — um “lobby do bem”, segundo ele —, tentando desmistificar o lobismo. Ele entrevistou Silvia Fagnani, diretora executiva do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal, uma entidade que representa 35 produtores de pesticidas e está à frente do lobby pela aprovação do PL. “Às vezes, para chocar, em tom de brincadeira, eu me apresento às pessoas como lobista da indústria de agrotóxicos. É a pior imagem que uma pessoa pode ter”, afirma ela, que defende a atividade de lobista. “A negociação que seu filho faz para comer chocolate fora de hora é lobby.”

No mês passado, Nicholas palestrou na Conferência Nacional em Defesa da Agropecuária, realizado em Salvador (BA). O evento foi patrocinado pelo governo do estado da Bahia, pelo Ministério da Agricultura, pela Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária, pela  Associação Nacional de Defesa Vegetal, entre outros. Além de Nicholas Vital, palestraram também Luiz Nishimori o atual relator do PL do Veneno e o ministro da Agricultura Blairo Maggi, que criou o PL em 2002.

Nos fim do livro, Nicholas faz um agradecimento pelo “apoio ao longo do projeto” a 14 “executivos”, todos eles — sem exceção — trabalham (ou já trabalharam) para as principais entidades representantes da indústria do agrotóxico.