Há dois anos, Marcello Reis, líder do Revoltados Online, apareceu revoltado em vídeo após ver a página do seu grupo removida pelo Facebook. Chorando copiosamente, dizia ser vítima de uma “ditadura” logo ele, que já defendeu uma intervenção militar e hoje é garoto-propaganda de Bolsonaro. Segundo o Facebook, a página foi banida por violar as regras do site, que proíbem conteúdos como discurso de ódio e homofobia. Os Revoltados Online também foram responsáveis por divulgar para milhões de seguidores a informação de que o filho de Lula seria dono da Friboi e que Paulo Pimenta (PT-RS) seria sócio da boate Kiss, palco da tragédia em Santa Maria (RS).

O cumprimento das regras pelo Facebook chegou com anos de atraso. Depois de muito tempo fabricando boatos e promovendo discursos de ódio, o Revoltados atingiu 2 milhões de seguidores, e Marcello Reis virou um dos protagonistas da campanha pela derrubada de Dilma. Antes do impeachment, se reuniu mais de uma vez com Eduardo Cunha. Depois, com Temer presidente, foi recebido pelo ministro da Educação e chegou a levar propostas para o setor ao lado do ator Alexandre Frota, ex-líder do grupo.

Durante as manifestações pelo impeachment, MBL e Revoltados Online disputavam o protagonismo na militância da nova direita. Em determinado momento, os ânimos se acirraram e eles acabaram por romper relações. O grupo de Kim despontou no cenário político, enquanto o de Marcello caiu no ostracismo. Mas, na última semana, os dois grupos esqueceram as diferenças e se juntaram em frente ao edifício que abriga o escritório do Facebook em São Paulo. Sentem-se vítimas de censura. É que na última semana a empresa removeu 300 páginas e perfis, muitos deles ligados ao MBL, que violaram as regras de uso da empresa.  

Assisti ao protesto contra a “censura” do Facebook, que foi livremente transmitido pelo MBL em sua página do… Facebook. Confesso que me diverti horrores. Com pouquíssimas pessoas presentes (pelas imagens consegui contar 16), o acampamento foi sendo montado na calçada, totalizando sete barracas.

Berrando no microfone como um pastor neopentecostal, o vereador do democratas Fernando Holiday exaltou a presença de Marcello Reis e puxou um grito de guerra, falhando miseravelmente na rima: “Sem fake news! Devolve o meu perfil!”

MBL comete atentado contra a língua inglesa em protesto contra o Facebook.

(Foto/Facebook do MBL)

O mico coletivo estava gostoso de assistir. Celene de Carvalho, que ganhou fama por hostilizar Suplicy numa livraria e atacar Judith Butler no aeroporto, estava lá para — acredite se quiser — defender a liberdade de expressão. Ela foi ao microfone e gritou “viva as redes sociais!”, se esquecendo que estava ali protestando contra uma rede social.

O vereador Holiday mandou Conrado Leister, diretor do Facebook no Brasil,  descer para encarar os manifestantes. “É bom descer, Conrado!”, intimou.

Um garoto empolgadíssimo, aparentando ter no máximo 17 anos, seguiu na mesma linha do confronto: “O MBL não vai sair daqui, Conrado. (…) Porque nós fomos forjados na guerra! E o MBL vai continuar nessa guerra!”

Um outro guerreirinho forjado na guerra foi o único a ter a dignidade de tentar esclarecer a revolta dos liberais contra a liberdade de ação da empresa: “Nós somos os primeiros a defender a iniciativa privada, mas também estamos agora correndo atrás dos nossos direitos!”

Renan Santos, um dos principais líderes do MBL, gravou vídeo dizendo que “isso é uma intervenção de uma empresa estrangeira em conluio com o TSE, que é presidido por um ministro do STF para intervir nas eleições”. Ele realmente acredita que o MBL é vítima de um complô de órgãos estatais em conjunto com os comunistas que comandam o Facebook: “As páginas que se dedicam a denunciar corrupção, a defender a visão de mundo conservadora ou liberal, de combate à putaria de esquerda, de combate a todo tipo de merda que a esquerda propaga…as chances delas serem censurada são enormes”.

Manifestantes exibem cartazes em protesto contra o Foicebook, de propriedade do comunista Marx Zuckerberg.

Segundo Kim Kataguiri, a remoção foi “absolutamente autoritária” e não houve nenhuma explicação por parte da empresa para justificá-la, o que não é verdade. Em nota, o Facebook esclarece que os reais responsáveis pelas páginas e perfis que foram removidos ficavam ocultos através de contas falsas e escamoteavam “a origem de seu conteúdo com o propósito de gerar divisão e espalhar desinformação” — uma evidente violação das regras de uso do site.

Bom, quem acompanha o MBL no Facebook sabe que o grupo sempre alimentou páginas de direita cujos responsáveis são geralmente anônimos e se dedicam a espalhar notícias falsas e manipular a opinião pública. Não nos esqueçamos de que o MBL é o grupo que sistematicamente organiza ataques contra jornalistas e agências de checagem de dados.

Ainda não se sabe quais são todas as páginas removidas, a não ser pelas mais conhecidas como Ceticismo Político, Diário Nacional e Jornalivre, que vinham violando as regras do site a olhos vistos, contando com a conivência da empresa durante todo esse tempo. Essas páginas eram usadas para espalhar notícias sensacionalistas ou falsas para manipular a opinião pública. O MBL sempre negou qualquer ligação com essas páginas, mas ao se insurgirem contra a remoção das páginas mostraram o contrário. O movimento insiste em dizer que é tudo mentira, que não existe nenhuma rede de notícias falsas ligada a eles. Bom, pelo menos as três páginas citadas acima são notórias disseminadoras de notícias falsas e estão comprovadamente ligadas ao MBL.  

O Ceticismo Político, por exemplo, ficou famoso por divulgar texto com a seguinte manchete “Desembargadora quebra narrativa do PSOL e diz que Marielle se envolvia com bandidos e é ‘cadáver comum'”, que foi compartilhado logo em seguida pelo MBL e por mais 360 mil perfis e páginas no Facebook. O texto repercutia reportagem de Mônica Bergamo na Folha, que contava sobre os boatos publicados por uma desembargadora logo após a morte de Marielle. A reportagem deixou claro a irresponsabilidade da desembargadora, que ligou Marielle ao Comando Vermelho tendo como única fonte “um texto de uma amiga”. Mesmo tendo ciência disso, o Ceticismo Político divulgou o boato dando ares de veracidade. A magistrada e o MBL apagaram as postagens, mas o Ceticismo Político, que foi o principal responsável por impulsionar a onda de difamação contra Marielle, mantém a notícia no ar até hoje. O responsável pelo site é Luciano Ayan, cuja ligação com o MBL é umbilical. Ele tem duas empresas em sociedade com dois dirigentes do movimento.

O Jornalivre é outra página famosa por disseminar notícias falsas. “Bolsonaro quer comunista assumido e colunista da Carta Capital como seu conselheiro”, manchetou. O “comunista” em questão é Delfim Netto, o maior governista do Brasil, que deu sua contribuição em praticamente todos os governos no Brasil, desde os de Lula até os do regime militar. Trata-se de uma mentira que cai como uma luva para o MBL, que, apesar das afinidades com Bolsonaro, disputa o mercado eleitoral de direita com ele. Em outra manchete, o Jornalivre informa “Um dia depois de dizer que Marisa recebia 20 mil de aposentadoria, Lula foi às ruas defender que sistema não mude”. Marisa nunca recebeu 20 mil de aposentadoria e Lula jamais fez tal afirmação. Essas duas mentiras permanecem no ar, desinformando a população. A relação do Jornalivre com o MBL é mais do que umbilical. Segundo apuração da Vice, integrantes da cúpula do movimento são administradores do site.  

Depois que o Jornalivre foi desmascarado, o número de postagens do site diminui drasticamente. Nessa mesma época, em outubro do ano passado, surgiu o Diário Nacional, cujo conteúdo baseado na deturpação de notícias da imprensa passou a ser compartilhado freneticamente pelo MBL no Facebook. Metade da equipe que integra o site é filiada ao movimento de Kim Kataguiri.

O pânico que tomou conta do MBL, levando até o vereador Fernando Holiday a dormir em frente ao escritório do Facebook, sugere que a derrubada dessa rede de comunicação ligada ao grupo tenha minado o seu principal ativo: o capital eleitoral. O MBL riu da queda das ações do Facebook, mas riu de nervoso. Com candidatos sendo lançados pelo próprio movimento e por partidos aliados, a perda dessa rede é um baque imensurável e reduz o poder de barganha do grupo em suas negociações políticas partidárias. Se aliar ao MBL hoje é se aliar a um poderoso núcleo de comunicação com alta capilaridade nas redes sociais e grande alcance entre os jovens. Um boato ou notícia deturpada disseminados por essa rede podem ajudar a alavancar ou destruir uma candidatura.

O procurador Ailton Benedito — sempre ele! — que tem o hábito de compartilhar notícias do Ceticismo Político, do Diário Nacional e do Jornalivre em suas redes (inclusive a notícia que ligava Mariele ao tráfico de drogas), enviou ofício ao Facebook exigindo explicações. Além disso, o MBL apelou para o Marco Civil — uma lei que sempre foi duramente criticada pelo movimento — para embasar um mandado de injunção no STF que pede uma regulamentação pública para as redes. Sim, os nossos jovens liberais, que sempre tiveram asco de regulamentação, agora querem uma forcinha do Estado para colocar freio em empresas privadas.

Campanha do MBL por menos regulamentações nas empresas.

(Imagem/Facebook)

Ironicamente, enquanto partem para o ataque nas ruas contra uma empresa privada, os liberais “forjados na guerra” apostam todas suas fichas no Estado para reaver sua rede de comunicação clandestina. Parece que a mão invisível do mercado nem sempre dá conta de tudo, não é mesmo?