A cada ano, aproximadamente dois milhões de pessoas visitam o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, fazendo dele o segundo ponto turístico mais visitado do estado, atrás apenas do Cristo Redentor. Desde 1912, famílias viajam de todas as partes do mundo e do próprio Brasil para subir a montanha no histórico bondinho e aproveitar a vista panorâmica exuberante de uma das cidades mais bonitas do planeta.

Mas agora, além da vista majestosa, os visitantes do Pão de Açúcar veem algo mais, algo que está estrategicamente posicionado em um dos espaços mais destacados do local: uma fotografia de dois homens se beijando. E nos três meses durante os quais a foto ocupou este lugar de destaque no Pão de Açúcar, ela gerou uma onda de raiva e reclamações.


Quando entram na área de espera para os bondinhos do Pão de Açúcar, os grupos de visitantes são fotografados em frente a uma tela verde. Depois são avisados de que podem adquirir as fotografias impressas, com uma paisagem de sua escolha ao fundo, em uma loja localizada no topo da montanha.

A loja exibe vários exemplos de fotos, com cada uma das paisagens disponíveis, dispostas em filas no balcão onde as fotos são impressas e vendidas. No alto do mostruário, ocupando o lugar mais central, está a imagem de dois homens brasileiros se beijando romanticamente em frente a uma imagem icônica do Rio, com o Cristo Redentor reluzente ao fundo.  

A foto foi deliberadamente colocada ali por Pedro Lotti (na foto abaixo), o gerente de 29 anos da empresa que gere o serviço de fotografias, FTG-Fotográfica. Ao descrever as reclamações, muitas vezes tóxicas, que recebe diariamente, ele deixou claro que não tem a intenção de removê-la.

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Photo: The Intercept

“Eu fiz isso especificamente porque aqui 70% dos funcionários são gays, e passam por sérios problemas por conta disso”, disse ele. Lotti não é gay, mas contou que viu no uso da foto uma grande oportunidade de tornar a atração mais segura para o público LGBT.

“A gente demorou para conseguir fazer com que gays tirassem a foto do beijo aqui, porque eles tinham medo de fazê-la”, contou ele ao Intercept Brasil. “Na entrada, eu notei que casais do mesmo sexo sempre hesitavam em se tocar, dar as mãos ou se beijar nas fotos” – como fazem os casais hétero –  “entravam e saíam da área das fotos, obviamente com medo de como as pessoas poderiam reagir”.

Lotti disse que ver como os casais gays tinham medo de fazer coisas que casais héteros fazem naturalmente – mostrar seu afeto em uma fotografia de férias – o tornou determinado a criar um ambiente aonde casais LGBT podiam se sentir seguros para demonstrar seu carinho. “Quando via um casal que poderia ser gay, eu perguntava: vocês são um casal? Se eles respondiam que sim, eu dizia: se vocês quiserem das as mãos ou se beijar, podem fazer isso”.

Quando o casal – dois homens brasileiros de Minas Gerais que têm uma relação de longa data – fez a foto, Lotti imprimiu a fotografia e imediatamente pediu autorização para exibi-la na loja. O casal consentiu, e Lotti propositalmente escolheu o lugar de maior destaque para a foto, onde é praticamente impossível não vê-la. Desde então, Lotti e seus empregados enfrentam uma permanente onda de ódio e queixas.


“Infelizmente, a grande maioria reage mal. Nós recebemos reclamações todos os dias”. As pessoas em geral reclamam, especificamente, de que a foto esteja à vista das crianças, e têm raiva de que seus filhos tenham visto a imagem. Os pais muitas vezes questionam se “seria necessário que isso estivesse aqui, onde as crianças podem ver”.

Lotti notou que o mostruário das fotos quase sempre exibe fotos de casais heterossexuais se beijando. Mas, diz ele, “ninguém nunca reclamou destas”.

Lotti disse que, ocasionalmente, a foto gera interações inspiradoras entre pais e filhos. Algumas vezes, diz ele, as crianças perguntam aos pais sobre a foto com curiosidade, e alguns respondem: “isso é amor”. Lotti diz que “isso não acontece muito frequentemente. Não é comum. O que me deixa feliz quando isso acontece, é que quando os pais falam com abertura e tranquilidade com os filhos, eles aceitam sem nenhum problema, porque as crianças nunca têm um problema com isso no início”.

“O problema”, continua Lotti, “está sempre com os pais, não com as crianças. Dependendo da resposta dos pais, você vê se o filho reage positiva ou negativamente”. São os pais, diz ele, que perpetuam nas crianças este tipo de “preconceito louco”.

A exibição deliberada da fotografia em um dos sítios turísticos mais icônicos do país é particularmente ousada em um momento em que a igualdade LGBT se tornou tão controversa no Brasil, o país com a maior população católica do mundo e um crescente movimento político evangélico de direita.

Com o líder das pesquisas para a eleição presidencial de 2018, o ex-presidente Lula da Silva, preso e na virtual iminência de ser impedido de concorrer, o primeiro lugar das estimativas fica para o Deputado Federal Jair Bolsonaro, candidato proto-fasicista da extrema direita. Ele é conhecido por seus ataques virulentos contra LGBT’s, que recentemente se transformaram em uma clara estratégia dos movimentos que o apoiam. Eles afirmam que os LGBTs tentam ativamente transformar as crianças brasileiras em gays para poderem molestá-las.

Brasília - Conselho de Ética rejeita processo contra o deputado Jair Bolsonaro por citar Brilhante Ustra (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Na semana passada, como reportado pelo Intercept Brasil, um dos três filhos de Bolsonaro que ocupam mandatos políticos, o Vereador pelo Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro, foi flagrado postando imagens falsas em suas mídias sociais, que afirmavam que grupos LGBT estavam adicionando a letra P à sigla para militar pela pedofilia. Grupos de direita tiveram êxito em provocar o cancelamento de uma exposição no ano passado que, segundo eles, promovia a pedofilia.

O clã Bolsonaro e seu movimento falam tão frequentemente sobre pedofilia que deixam no ar uma dúvida sobre esta obsessão. Na semana passada, em entrevista ao jornal O Globo, Jair Bolsonaro foi questionado a respeito de uma entrevista concedida à revista Playboy em 2011, onde afirmava que preferia “que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí”. Quando Bolsonaro explicou que sua resposta era meramente destinada a “combater a questão de ensinar sexo para criancinha a partir de seis anos de idade”, o seguinte diálogo aconteceu:

O senhor acha que é possível ensinar a ser gay?

Não é ensinar, mas estimular. Se você passa um filme na escola de dois meninos se beijando, o Joãozinho no intervalo pode dar uma bitoquinha no Pedrinho. O garoto, até uma certa fase, imita.

Neste clima, a ousada escolha de Lotti de dar destaque a uma fotografia de dois homens se beijando, em uma tradicional atração turística frequentada por milhões de famílias e crianças, não é um gesto menor. Mas ele parece não apenas contente e sem medo de falar publicamente sobre sua escolha, mas também orgulhoso dela: “Esta forma de amor, entre dois homens ou duas mulheres, existe há milhares de anos, muito antes de este tipo de valores ignorantes que agora escutamos com tanta frequência, que são provocados por uma simples imagem de amor”.