Há meses que o celular de Camila Zurbriggen não para de tocar. Desde que as argentinas tomaram as ruas de seu país para exigir a legalização do aborto, que pode ser aprovada nesta quarta-feira, a procura pelo serviço voluntário oferecido pela moça de 25 anos explodiu. Ela e outras mulheres que formam a Socorristas en Red (Socorristas em Rede), um grupo de voluntárias de várias áreas espalhado por toda a Argentina, têm uma missão: ajudar mulheres a abortar com segurança em um país em que a interrupção voluntária da gravidez ainda dá cadeia.

Em 2015,Camila Zurbriggen passou por uma tentativa de aborto dolorosa. Depois de ingerir misoprostol – a substância abortiva do medicamento usado para úlcera do estômago Cytotec –, ela teve inchaço, cólicas e uma pequena hemorragia, mas não conseguiu interromper a gravidez. Assustada, ligou para a Socorristas en Red. Maria Elena Ale, “socorrista” de 45 anos e pioneira da rede, a tranquilizou e informou como terminar o procedimento. Tocada com o serviço voluntário que salvou sua vida, Zurbriggen decidiu se tornar uma socorrista.

O acompanhamento em casos como esse é uma prática padrão das Socorristas en Red. Encontradas pela internet – elas têm um site –, e pelos cartazes que espalham pelas ruas, primeiro elas organizam encontros em que as mulheres que desejam abortar trocam experiências pessoais cara a cara. “Para algumas, é tranquilizador saber que outras mulheres passaram e estão passando pela mesma coisa que elas”, contou a socorrista Gimena Bacci, de 27 anos.

Abortar nunca está nos planos de nenhuma mulher.

Depois dessa conversa inicial, quem deseja levar adiante o aborto passa a ser acompanhada por uma das socorristas. Elas oferecem informações sobre cuidados com a saúde, sobre o procedimento de aborto e sobre os casos de aborto legal contemplados pela legislação argentina (estupro e risco à saúde física, mental e social da mulher, embora este último não costume ser respeitado).

Na hora H, vem a fase da “guarda ativa”, como elas chamam, que é quando a voluntária fica disponível por telefone para sanar qualquer dúvida ou inquietude que possa surgir durante o aborto. São cerca de 50 linhas disponíveis em todas as regiões do país. O procedimento costuma levar seis horas. Segundo o grupo, 13 mil mulheres já foram assistidas por elas desde a fundação da rede em 2013.

Zurbriggen explica que não existe uma função técnica durante a guarda ativa. A ideia é simplesmente tranquilizar a mulher e amenizar suas dores – algo que, por experiência própria, ela sabe ser essencial para que tudo se desenrole sem problemas. “Tomei os medicamentos às 2h da madrugada. Depois que liguei para elas me acalmei e consegui terminar o procedimento. Às 9h, um amigo me pegou para irmos correr. Para mim, não foi traumático.”

A ação da ativista e de sua rede de solidariedade é essencial para que as mulheres tenham acesso aos comprimidos abortivos. “Só não fornecemos o medicamento porque isso seria crime, mas damos informações para que as mulheres cheguem a ele”, explicou Maria Elena Ale. Em Buenos Aires e em algumas províncias, é possível conseguir o remédio para úlcera em unidades públicas de saúde. Mas, clandestinamente, ele pode custar R$ 650, uma fortuna na Argentina.

“É tranquilizador saber que outras mulheres passaram pela mesma coisa”, contou a socorrista Gimena Bacci, de 27 anos.

Com o remédio em mãos, vem o maior desafio: usá-lo de forma segura. E aí que entra rede, explicando as reações que ele causa, o modo como age no organismo e o tempo que o procedimento costuma levar. É verdade que abortar nunca está nos planos de nenhuma mulher. Zurbriggen acreditava que só as “imbecis” faziam abortos. Com a própria gravidez indesejada, sua perspectiva mudou. Hoje engajada na luta pela legalização, ela carrega um celular destinado unicamente aos socorros. “Quando tive que viajar, minha mãe atendia para mim e encaminhava as mulheres a uma amiga”, conta.

Segundo o ministro da Saúde argentino, Adolfo Rubenstein, cerca de 50 mil mulheres são internadas a cada ano por complicações após abortos inseguros. Um estudo da senadora Nancy Gonzales indica que o governo gastaria até 55% menos com a legalização do que gasta hoje lidando com complicações por procedimentos clandestinos. Como mostra a Organização Mundial da Saúde e a experiência de outros países que legalizaram a prática, cairiam também o número de abortos e de mortes de mulheres.

Aprovado por 129 a 125 votos na Câmara dos Deputados em 14 de junho deste ano, o projeto que pode legalizar o aborto no país a partir desta quarta-feira não representa o fim da luta das socorristas. Para elas, o preconceito contra as mulheres que abortam não vai mudar tão cedo – as agressões verbais feitas contra as militantes nas ruas de Buenos Aires nos últimos dias estão aí para provar.

Veterana da luta pela descriminalização, Maria Elena Ale acredita que uma das tarefas mais importantes das socorristas é justamente retirar do aborto o caráter traumático que a sociedade confere a ele. “Muitas mulheres mantêm essa experiência em segredo para sempre nos seus círculos de afeto, mas compartilham isso com desconhecidas como nós. Isso nos enriquece.”

Foto em destaque: Protesto organizado pelas socorristas em prol da legalização do aborto na Argentina.