A maioria dos brasileiros tem que gastar sua franquia de dados para declarar imposto de renda pela internet. Se quiserem verificar se o Brasil compra mesmo dipirona com um vírus mortal da Venezuela, também têm que consumir o pacote de internet (a notícia é falsa, não se preocupem). No entanto, ninguém gasta dados, nem dinheiro, pra receber ou enviar as imagens da nova nota de R$ 50 com o rosto da Pablo Vittar, que foi longe demais, pelo WhatsApp. Isso não é obra do acaso.

O acesso privilegiado e gratuito a certos aplicativos é fruto de estratégias de empresas que, na intenção de aumentar os lucros, acabaram impulsionando a distribuição de notícias falsas, justamente por restringir o acesso à outras fontes de informação que estão na internet “além do Facebook”. E, convencidos por estratégias de marketing que propagandeiam WhatsApp, Messenger e Facebook grátis, os consumidores acabam restritos à navegação só nessas plataformas – um cenário perfeito para a propagação de mentiras.

Colonização digital

Em 2010, quatro anos antes da aprovação do Marco Civil da Internet, a TIM lançou sua primeira parceria com o Facebook para oferecer planos com “Facebook grátis”. Quando contratados, eles davam ao usuário uma quantidade ridícula de dados para navegação na internet, mas acesso ilimitado a uma versão mais simples da rede social, chamada Facebook Zero.

A iniciativa fazia parte de uma ofensiva da empresa, lançada na Mobile World Congress em fevereiro de daquele ano, para arrebatar a larga base de potenciais usuários em países em desenvolvimento. A idéia, lançada em mais de 50 países, era permitir que usuários da internet entrassem no Facebook mesmo com celulares antiquados.

A nota de lançamento diz o seguinte: “a grande vantagem do Facebook Zero, então, é acessar a rede social a partir de um celular comum, um dumbphone sem plano de dados.” A estratégia de viciar os usuários ao Facebook desde o primeiro acesso era tão agressiva que o app vinha instalado de fábrica em vários modelos, especialmente os mais baratos, treinando o usuário a usar o aplicativo antes de usar o próprio navegador.

Deu certo: no final de 2011 Facebook desbancou o Orkut e se tornou a rede social mais acessada no Brasil, com 36 milhões de usuários conectados. De dezembro de 2010 para dezembro de 2011 o Facebook teve um aumento de 192% na quantidade de usuários únicos no Brasil. Um salto absurdo em comparação com outras redes que não eram oferecidas com acesso grátis – e um resultado da estratégia controversa de expansão.

Em vez de melhorar os preços do acesso à internet ou liberar o SMS em celulares pré-pagos – que são 60% dos planos no Brasil –, as operadoras colaboraram para um cenário onde o usuário faz tudo pelo Facebook, até porque não tem outra opção acessível. Em dezembro de 2012, o Facebook descolou o app de conversas Messenger da obrigação de se ter uma conta prévia no Facebook, na tentativa de concorrer com o envio de SMS e com o WhatsApp, aplicativo que na época ainda não era totalmente gratuito, mas já contava com mais de 200 milhões de usuários ativos no mundo.

Boatos têm bastante espaço para se espalhar antes que alguém possa checar sua veracidade fora dos muros do Facebook. Afinal, custa dinheiro sair do aplicativo.

Essa estratégia agressiva trancou os usuários brasileiros num esquema de zero rating, prática que consiste em privilegiar certos aplicativos que tenham acordo com operadoras no acesso à internet – hoje, proibida pelo Marco Civil da Internet. Com ela, os usuários podem usar certos aplicativos de graça sem consumir planos de dados – isso se empresas pagarem para as operadoras de telefonia. Em 2014, o Facebook comprou o WhatsApp e passou a ser dono dos espaços onde 100 milhões de brasileiros se comunicam e lêem notícias.

Quando as fake news viraram assunto no Brasil, ficou óbvia a característica mais marcante do ecossistema da internet no país: o brasileiro utiliza o que as operadoras oferecem de graça – no caso o Facebook e o WhatsApp, chegando, muitas vezes, a pensar que a internet está restrita a esses dois ambientes. Não por acaso, notícias descontextualizadas, boatos, fofocas e notícias falsas têm bastante espaço para se espalhar antes que alguém possa checar sua veracidade fora dos muros do Facebook. Afinal, custa dinheiro sair do aplicativo.

Ecossistema fechado

Em um país que não valoriza bibliotecas, onde adolescentes não dispõem de acesso a recursos educacionais abertos nem à internet de qualidade nas escolas, não é de se admirar que mentiras enaltecendo a Ditadura Militar no Brasil, por exemplo, encontrem um ambiente favorável para se espalhar exatamente entre jovens. Pacotes de acesso à internet mais baratos, oferecidos nos planos pré-pagos, oferecem o Facebook Messenger, o WhatsApp e o Telegram, Facebook, Instagram (que também pertence à empresa de Mark Zuckerberg) e Twitter, fechando assim um ecossistema que privilegia informações que vêm de amigos e conhecidos.

Nas telas dos jovens, abundam títulos descontextualizados de notícias e imagens que possam ser lidas rapidamente e compartilhadas de modo a conseguir a maior recompensa social. Esse ecossistema deprecia a entrada de informações verificadas, pinça trechos específicos de histórias para contar aquilo que mais fizer sentido para quem recebe a mensagem – não necessariamente a verdade – ou cria e dissipa mentiras criadas para fazer valer uma visão de mundo. Foi o caso das notícias falsas sobre a Marielle, por exemplo. Essa descontextualização bagunça as narrativas, criando pequenas bolhas de informações que distorcem fatos, impulsionando as mentiras e o lucro de operadoras e de empresas como o Facebook, que têm como comprar o acesso privilegiado aos seus apps.

Há quem defenda que o zero rating é positivo, como o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, que permitiu que as empresas sigam com a estratégia predatória. O brasileiro já usa os aplicativos de graça e incorporou isso ao seu dia-a-dia e, agora, para corrigir a distorção, o remédio é a liberação de portais de notícias, sites de governo, Wikipedia, sites de recursos educacionais, dicionários e bibliotecas.

Na prática, a internet móvel está se tornando uma espécie de TV a cabo, com diferentes pacotes para diferentes acessos – planos pré-pagos, por exemplo, não têm acesso grátis à Netflix. Refém dos pacotes mais baratos, a maioria da população acaba ficando na mão das informações passadas de boca-a-boca – ou de zap a zap.