NO PONTO MAIS ao norte dos Estados Unidos, em Point Barrow, no Alasca, um local de coleta da Agência Nacional de Segurança permitiu que analistas observassem o avanço militar da Rússia 24 horas por dia, com o derretimento do gelo ártico abrindo uma nova zona de conflito. A NSA também monitorou uma disputa entre a Índia e o Paquistão em relação ao acesso ao sistema do rio Indo, alimentado por geleiras no alto do Himalaia, que agora está encolhendo. E com a pesca enfrentando uma pressão crescente de mares cujas correntes e temperaturas já foram significativamente alteradas pelas mudanças climáticas, a NSA ouviu conversas telefônicas e monitorou o movimento de barcos pesqueiros envolvidos em práticas potencialmente ilegais que ameaçam os estoques cada vez menores de peixes.

Documentos inéditos vazados pelo ex-contratado da NSA Edward Snowden mostram como a agência reuniu informações destinadas a dar suporte aos interesses dos EUA relacionados a desastres, conflitos e recursos ambientais. Nos próximos anos, a poluição por gases de efeito estufa causada pela queima de combustíveis fósseis aumentará a frequência de crises ecológicas e conflitos em torno de recursos naturais. Os documentos fornecem uma visão do papel que a agência de vigilância internacional mais extensa dos Estados Unidos terá em um mundo alterado.

Os documentos mostram que, embora o interesse da NSA pelas questões ambientais seja limitado, ele é de grande alcance e cresceu ao longo dos anos. Não há surpresa no fato de que a agência é movida não por um imperativo para evitar crises ecológicas induzidas pelo clima, mas pela necessidade de responder a tais crises, uma vez que elas ameaçam os interesses políticos e econômicos dos EUA ou explodem em confrontos violentos.

De acordo com os documentos, a NSA visa sua vigilância nas disputas por recursos naturais, desde a pesca decrescente do Mar do Sul da China até os recém-inaugurados canais de navegação do Ártico. Também desempenha um papel no monitoramento de desastres naturais, reunindo inteligência inclusive depois que um terremoto e um tsunami atingiram o Japão em 2011. Documentos relatados anteriormente mostram que a agência analisa rotineiramente as discussões internacionais sobre o clima, dando aos negociadores dos EUA uma vantagem ao evitarem se comprometer com as drásticas reduções de emissões necessárias para escapar aos efeitos potenciais mais terríveis das mudanças climáticas. A inteligência é compartilhada não apenas com diplomatas e socorristas, mas também com funcionários de órgãos como a Agência de Proteção Ambiental e o Departamento do Interior.

A eco-espionagem da NSA coincidiu com as repetidas descobertas na comunidade de inteligência de que as preocupações ambientais tinham implicações na segurança nacional. As forças militares há muito reconhecem a mudança climática como uma grande ameaça e, ao longo dos anos, o Departamento de Defesa a classificou como um “multiplicador de ameaças”, inflamando conflitos ao adicionar à mistura questões como seca, perda de acesso à água potável ou irrigação, aumento do nível dos mares, migração e morte de caça, incêndios florestais, tempestades catastróficas e o deslocamento humano resultante de todos esses problemas. Um documento da NSA publicado anteriormente, datado de 14 de maio de 2007, citou o então subsecretário de Defesa para Inteligência, James Clapper, em uma conferência interna da NSA, dizendo: “Cada vez mais, o ambiente está se tornando um adversário para nós. E eu acredito que as capacidades e os recursos da Comunidade de Inteligência serão cada vez mais utilizados na avaliação do ambiente como um adversário”.

A Avaliação da Ameaça Mundial da comunidade de inteligência dos EUA, lançada em fevereiro de 2018, dedica uma seção à questão da mudança climática. “Os impactos das tendências de longo prazo na direção do aquecimento do clima, mais poluição do ar, perda de biodiversidade e escassez de água provavelmente estimularão o descontentamento econômico e social – e possivelmente revoltas – ao longo de 2018”, diz a avaliação.

Mas, no governo do presidente Donald Trump, as autoridades de segurança às vezes evitam falar sobre a mudança climática. Nem a estratégia defensiva de 2018 do Departamento de Defesa nem a estratégia de segurança nacional do presidente destacam o problema como uma ameaça à segurança. No entanto, as agências militares, de inteligência e de fronteira de Trump estão respondendo a questões cujas relações com a mudança climática podem não ser evidentemente aparentes – da guerra na Síria, ligada a uma seca anterior, aos furacões que assolaram Houston e Porto Rico, passando pela a emigração da América Central, onde um período prolongado sem chuva nos últimos anos tornou a agricultura no corredor seco da região extremamente difícil. Os documentos sugerem, mas não apreendem totalmente, o papel potencialmente vasto do estado de vigilância em um mundo com mudança climática.

A NSA se recusou a fazer comentários.

Navio da Agência de Polícia Marítima da China usa canhões de água para perseguir no mar um navio da Força de Vigilância das Pescas vietnamita perto das disputadas Ilhas Paracel em 27 de maio de 2014.

Navio da Agência de Polícia Marítima da China usa canhões de água para perseguir no mar um navio da Força de Vigilância das Pescas vietnamita perto das disputadas Ilhas Paracel em 27 de maio de 2014.

Foto: The Asahi Shimbun via Getty Images

Monitoramento dos movimentos de embarcações pesqueiras chinesas

Um desafio ambiental particularmente incômodo para a NSA foi o rastreamento de barcos de pesca comercial chineses, que rotineiramente se tornavam fantasmas eletrônicos, que se acreditava estarem a centenas ou milhares de quilômetros de onde realmente estavam. Isso se deveu a uma combinação de erros estranhos ocorrendo em fronteiras hemisféricas, além de um complexo sistema de desinformação intencional adotado pelos chineses, de acordo com um artigo de 2012 do SIDtoday, o site de notícias interno da diretoria de inteligência de sinais da NSA. Os barcos “estão frequentemente envolvidos em incursões [da Zona Econômica Exclusiva] e atividades de pesca ilegal”, afirma o documento.

De fato, no Mar do Sul da China, uma luta pela pesca substituiu uma luta de poder mais ampla entre as nações localizadas ao longo de suas margens. A China reivindicou uma ampla faixa do mar. As águas que proclama serem suas se sobrepõem a territórios marítimos reivindicados por outras nações conforme o sistema de zonas econômicas exclusivas da ONU, ou ZEEs. Os conflitos territoriais são muitas vezes enquadrados como tendo a ver com petróleo, mas talvez igualmente importante seja a vida marinha que representa uma parte fundamental das economias e dietas de diversas nações.

A pesca do Mar do Sul da China está em declínio – à beira do colapso, segundo os cientistas. Os estoques encolheram de 70 a 90% desde a década de 1950, em grande parte devido à sobrepesca. Isso incentivou ainda mais as nações em torno do mar a irem para a batalha em torno de territórios disputados. Regular a pesca tornou-se impossível, uma vez que aceitar as leis de pesca de outra nação seria aceitar sua jurisdição sobre o território. Os pescadores que não conseguem mais acessar áreas dominadas pelos chineses, em nações como as Filipinas – um aliado dos EUA –, recorrem cada vez mais a métodos de pesca ilegais. E, algumas vezes, as disputas pela pesca resultaram em impasses militares.

“As disputas sobre direitos de pesca estão se tornando cada vez mais focos de incidentes internacionais.”

“Com os recursos marítimos estressados pelo aumento das pressões pesqueiras, as disputas sobre direitos de pesca e violações da ZEE são uma preocupação crescente e estão se tornando cada vez mais focos de incidentes internacionais”, informa o artigo da SID de 27 de junho de 2012. “O monitoramento dos locais e atividades das frotas pesqueiras estrangeiras é uma missão importante da Guarda Costeira dos Estados Unidos e de muitos dos nossos parceiros, além de ser um item de preocupação para o Departamento de Estado dos EUA.”

A maior parte das grandes embarcações marítimas usa o que é conhecido como sistema de identificação automática, o que permite que outros navios na área saibam onde estão e quem são. “Naturalmente, não foi surpreendente ouvir as preocupações de nossos clientes quando um grande número de embarcações de pesca chinesas foi observado transmitindo suas posições a 1.600 quilômetros de onde realmente estavam”, afirma o artigo. “Isso não apenas representava uma ameaça à segurança da navegação dos navios que operavam nas proximidades desses navios de pesca, como também dificultava o monitoramento da ZEE para os Estados Unidos e nossos parceiros. Um esforço conjunto entre a NSA Colorado e parceiros surgiu desse problema.”

Uma das causas do problema parecia ser acidental – as coordenadas dos barcos chineses “parecem ‘saltar ou refletir’ do equador e da linha de dados internacional, à medida que os navios seguiam para o leste ou para o sul”, diz o artigo.

Assim, por exemplo, um barco localizado na costa do Pacífico da América do Sul parece estar no norte da Índia. Alertada para o problema, a China o corrigiu em 2011, de acordo com o documento.

Um segundo problema “não foi um erro, mas um ‘mau uso’ intencional do protocolo de mensagens AIS para produzir um sistema de coordenadas diferente (desenvolvido internamente)”, diz o documento. Pelo menos 18 navios chineses foram encontrados usando uma definição alternativa do sistema de latitude e longitude, que jogou suas coordenadas para todos os outros usando o sistema padrão. O resultado: Embora os chineses soubessem onde seus navios estavam, os barcos vizinhos, não. “A razão subjacente pela qual a República Popular da China optou por usar esse sistema de coordenadas alternativas para alguns dos seus navios de pesca ainda é desconhecida”, diz o artigo.

Escutas telefônicas para parar um barco de pesca apátrida

A NSA também esteve envolvida no policiamento de práticas de pesca proibidas usadas por navios apátridas. A pescaria com rede de deriva em alto-mar envolve a fixação de boias no topo de uma rede de quilômetros de extensão que desce até as profundezas do oceano. A rede é às vezes conectada a um navio, mas outras é deixada para flutuar, coletando passivamente qualquer vida marinha que passe por ela, incluindo peixes ou baleias que não tenham qualquer interesse comercial para os pescadores. A rede funciona emaranhando as guelras dos peixes em sua malha fina. Frequentemente, as redes são feitas de nylon e colocadas no local durante a noite, para que se tornem invisíveis à vida marinha.

Outro artigo do SIDtoday, escrito por um diretor técnico da NSA Havaí e datado de 16 de outubro de 2012, indica que a NSA trabalha com a Guarda Costeira dos EUA para perseguir barcos de pesca que usam o método de pesca destrutivo. Em setembro de 2011, a Guarda Costeira capturou uma grande embarcação de pesca usando redes de deriva 4.100 quilômetros ao sul de Kodiak, no Alasca, mas a embarcação parceira do barco escapou. Sete meses mais tarde, a NSA captou um sinal de um telefone por satélite associado ao barco. “Era a hora de agir”, afirma o documento.

“Um linguista da NSA no Havaí escutou as comunicações da embarcação de pesca em busca de sinais de que a tripulação resistiria a uma operação de embarque pela Guarda Costeira”, diz o artigo. Um pacote de informações de inteligência relacionadas à perseguição era fornecido pelos analistas do Havaí ao Centro de Fusão de Inteligência Marítima da Guarda Costeira duas vezes por semana.

Finalmente, em 27 de julho de 2012, a 700 milhas náuticas a leste de Yokosuka, no Japão, a Guarda Costeira embarcou no navio de pesca. “A tripulação da embarcação era composta de 26 chineses e um taiwanês, e o navio afirmava ser indonésio, mas, depois de contato com a Indonésia, foi determinado como apátrida”, diz o documento.

E continua: “A bordo do Da Cheng, a equipe de embarque descobriu 10 milhas náuticas de redes de deriva, 500 quilos de barbatanas de tubarão, mais de cinco toneladas de carcaças de tubarão e 30 toneladas de atum.” O navio foi entregue ao Departamento de Pesca da China para uma investigação mais aprofundada.

Trabalhadores caminham em uma ponte tendo ao fundo o projeto hidroelétrico de 450 MW de Baglihar, construído no rio Chenab, em Chanderkot, cerca de 154 quilômetros ao norte de Jammu, Índia, 10 de outubro de 2008.

Trabalhadores caminham em uma ponte tendo ao fundo o projeto hidroelétrico de 450 MW de Baglihar, construído no rio Chenab, em Chanderkot, cerca de 154 quilômetros ao norte de Jammu, Índia, 10 de outubro de 2008.

Foto: Channi Anand/AP

NSA acompanhou disputa de represa na Índia e no Paquistão

Não é apenas nos oceanos e mares que a NSA está atenta a disputas aquáticas. Uma das fontes mais importantes de água do sul da Ásia é o sistema do rio Indo, que é alimentado por água glacial no alto do Himalaia. Um estudo recente projetou que pelo menos um terço das geleiras montanhosas da Ásia derreterão até o final do século, potencialmente desestabilizando as fontes de água. Padrões instáveis de monções exacerbarão a situação.

O acesso à água tem sido um ponto de tensão entre a Índia e o Paquistão, e são permanentes as disputas quanto ao acesso aos afluentes, que foram divididos entre as duas nações sob o Tratado das águas do Indo. Em meados da década de 2000, o projeto da barragem de Baglihar na Índia foi um ponto-chave de discórdia. O Paquistão alegou que a barragem poderia privar a nação de água que deveria ser designada para seu setor agrícola que, em algumas áreas do país, depende quase exclusivamente do sistema Indo.

A NSA estava ouvindo tudo.

A NSA espionou uma série de entidades não-governamentais para acessar informações sobre conflitos relacionados à água.

Um artigo do SIDtoday publicado em 22 de março de 2006, no Dia Mundial da Água, observa: “Os relatórios da NSA acompanharam as atuais tensões em torno do Tratado da Índia e do Paquistão sobre as águas do Indo e a construção da Barragem de Baglihar, fornecendo aos nossos clientes informações exclusivas enquanto monitoram esta região volátil”.

Na verdade, a agência estava de olho em várias disputas ciliares e previu um futuro de crescente escassez de água e conflitos. “À medida que a competição pela água cresce entre os países da bacia do Nilo na África, os analistas continuam relatando projetos controversos de extração de água que poderiam levar a conflitos na região”, escreveu o autor, um contato da NSA sobre “economia e questões globais”.

O documento indica que a NSA espionou uma série de entidades governamentais e não-governamentais para acessar informações sobre conflitos relacionados à água, afirmando que “o amplo acesso da NSA a autoridades governamentais, organizações multilaterais e ONGs produziu perspectivas únicas sobre a disponibilidade de água para pessoas deslocadas internamente (PDI) no Sudão, enchentes no Afeganistão e fontes de água contaminada em Bagdá”.

E esse “amplo acesso” previa um futuro em que essa coleta poderia ser cada vez mais importante. “Enquanto a população mundial triplicou no século 20, o uso de recursos hídricos cresceu seis vezes. Nesse ritmo, mais de 2,7 bilhões de pessoas enfrentarão grave escassez de água até o ano de 2025 e outros 2,5 bilhões viverão em áreas onde será difícil encontrar água potável suficiente”, diz o documento. A inteligência de sinais “forneceu uma visão crítica sobre questões que vão desde disputas interestatais de água e segurança alimentar até economia e compartilhamento de tecnologia, infraestrutura de saúde e desastres naturais”.

Expedição Barneo no acampamento de gelo no Ártico, em 13 de abril de 2016.

Expedição Barneo no acampamento de gelo no Ártico, em 13 de abril de 2016.

Foto: Valeriy Melnikov/Sputnik via AP

No Ártico, vigilância 24 horas sobre os russos

De acordo com um documento interno, em resposta às mudanças climáticas, a NSA aumentou sua vigilância mais ao norte. No inverno passado do hemisfério norte, a cobertura de gelo no Ártico foi a segunda menor da história, logo atrás do ano imediatamente anterior. O gelo do mar nos verões diminuiu cerca de 40% desde os anos 1980, e o que resta é muito mais fino. Um estudo de 2018 liderado por pesquisadores da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica federal dos EUA mostra que seria quase impossível que as temperaturas no Ártico subissem tão alto como subiram sem o impacto dos gases do efeito estufa.

O resultado é que novas rotas de navegação se abriram no topo do mundo. Áreas antes indiferentes tornaram-se acessíveis para o transporte de mercadorias, o movimento de embarcações militares e a exploração de combustíveis fósseis. Uma avaliação de 2009 indicava que o Ártico potencialmente contém 13% do petróleo ainda não descoberto no mundo e 30% do gás natural restante. Em resposta, a Rússia aumentou drasticamente sua presença militar.

As bases especiais serão “parte vital dos esforços da NSA contra o emergente problema da Inteligência Ártica.”

O derretimento do gelo no Ártico e a crescente concorrência por hidrocarbonetos e minerais forçaram os EUA a fazer do Ártico uma prioridade maior, reconheceu um diretor técnico da NSA no Centro de Operações da Missão do Alasca em artigo da SIDtoday de 29 de novembro de 2011.

Para a NSA, os planos da Rússia para duas novas brigadas do exército no Ártico e novos barcos quebra-gelo eram uma preocupação especial. “Esses planos, juntamente com uma crescente presença chinesa e um interesse expresso pelo Ártico, representam um desafio significativo de inteligência para os Estados Unidos, o Canadá e os outros países do Ártico”, diz o documento.

A NSA “mantém vigilância 24 horas sobre a atividade aérea militar russa no Ártico”, acrescenta o documento. Usando várias técnicas de coleta, incluindo interceptações de rádio de ondas curtas e transmissões de satélites estrangeiros, a NSA monitorou os bombardeiros russos e assistiu aos voos de reabastecimento da Rússia para a estação de gelo de Barneo, perto do Pólo Norte.

A operação do Ártico da NSA estava centrada na época no Centro de Operações de Missões do Alasca na Base Conjunta Elmendorf-Richardson em Anchorage, mas a agência também tinha uma “instalação remota de interceptação” em Point Barrow, no Alasca.

A instalação, situada no chamado Local do Radar de Longo Alcance da Força Aérea, incluía um conjunto de antenas, um FRD-13 Pusher – uma enorme antena circular, apelidada de “gaiola de elefante”, usada para interceptar comunicações de rádio – e uma instalação de informações compartimentadas sensíveis, contendo equipamentos de coleta. Dois funcionários estavam sempre estacionados em Point Barrow.

“A instalação em Barrow está se movendo para o futuro das operações da NSA”, diz o documento, observando que em breve haveria atualizações na instalação de Barrow, incluindo um sistema de coleta de rádio de banda larga conhecido como “GLAIVE”.

“O AMOC está posicionado exclusivamente para continuar sendo parte vital dos esforços da NSA contra o emergente problema da Inteligência Ártica”, diz o texto.

Pessoas visitam a Praça da Paz Celestial, envolta em forte nuvem de poluição, em 16 de janeiro de 2014, em Pequim.

Pessoas visitam a Praça da Paz Celestial, envolta em forte nuvem de poluição, em 16 de janeiro de 2014, em Pequim.

Foto: VCG via Getty Images

Mudança climática é uma prioridade crescente para a NSA

Documentos inéditos indicam que a mudança climática se tornou um tópico de interesse em meados dos anos 2000 e início dos anos 2010. A mudança climática é mencionada repetidamente em relatórios descrevendo as questões prioritárias da NSA. Um relatório secreto da NSA descrevendo tendências geopolíticas para o período de 2011 a 2016, por exemplo, classificava a mudança climática como nº 31 de 34 prioridades (o número 1 era “segurança energética global”).

Para atualizar os analistas sobre essa questão cada vez mais urgente, a NSA ofereceu várias oportunidades de aprendizado. Por exemplo, antes das negociações da ONU em Cancún, no México, em 2010, aproximadamente 50 analistas participaram de todo um “Dia da Mudança Climática”, de acordo com o SIDtoday. E, no verão de 2006, a agência realizou um seminário sobre as causas e os efeitos da mudança climática intitulado “Fogo e Gelo”. Uma descrição diz: “As mudanças climáticas (provavelmente como resultado do aquecimento global) deverão acelerar a uma taxa sem precedentes nas próximas décadas e já foram relacionadas à seca e à fome decorrente dela, às mudanças na precipitação e à perda de recursos de água doce. Padrões climáticos extremos são uma ameaça crescente”. E acrescenta: “pontos de vista alternativos também serão abordados”.

Mais de uma década depois, a comunidade de inteligência parece menos preocupada com a validade de pontos de vista alternativos. A avaliação de ameaças mundiais de 2018 da comunidade de inteligência divulgada publicamente observa que “os últimos 115 anos foram o período mais quente da história da civilização moderna, e os anos mais recentes foram os mais quentes já registrados. Eventos climáticos extremos em um mundo mais quente têm o potencial de maiores impactos e podem, com outros impulsionadores, agravar o risco de desastres humanitários, conflitos, escassez de água e alimentos, migração populacional, escassez de mão-de-obra, choques de preço e falta de energia. A pesquisa não identificou indicadores de pontos de ruptura em sistemas terrestres ligados ao clima, sugerindo uma possibilidade de mudança climática abrupta.”

O texto ressalta que a poluição do ar grave pode gerar protestos na China, na Índia e no Irã. A escassez de água gerará conflitos relacionados à construção de barragens e complicará os acordos em torno do uso da água de rios. E a aceleração da perda de biodiversidade causada pela poluição, o aquecimento, a pesca insustentável e a acidificação dos oceanos “comprometerá ecossistemas vitais que sustentam sistemas humanos críticos”.

Foto de capa: Barcos de pesca zarpam de um porto para pescar no Mar do Sul da China em 16 de agosto de 2017, em Sanya, província de Hainan, na China.

Tradução: Cássia Zanon