Em agosto, o presidente colombiano Juan Manuel Santos deu lugar a Iván Duque, encerrando um ciclo de oitos anos à frente da Casa de Nariño, sede do poder executivo em Bogotá. Eleito com a ajuda de Álvaro Uribe e do conservador Centro Democrático, Duque tem entre seus principais desafios gerir o polêmico acordo de paz firmado com as Farc, que colocou fim a mais de 50 anos de conflito armado no país, e provar que não é um fantoche do mentor.

Duque sempre se opôs ao acordo, principalmente à anistia concedida aos crimes cometidos durante o meio século de atividade guerrilheira. Ele foi um dos líderes da campanha do “não” no plebiscito sobre o tema, em 2016, que venceu por 60 mil votos – Santos, então, teve de aprová-lo via Congresso.

Com o país dividido, o então senador de primeira viagem – até 2014, o advogado de 42 anos nunca havia concorrido a nenhum cargo eletivo –, focou sua campanha em mudanças rígidas no atual acordo com a ex-guerrilha e na ideia de renovação da direita. Suas promessas, no entanto, esbarram em um retrospecto de corrupção e violência no combate às drogas lastreado na direita colombiana.

Há também a questão Uribe. Durante a campanha, em que terminou com 53,97% dos votos, Duque viveu à sombra do ex-presidente e hoje senador Uribe, que governou entre 2002 e 2010. Uribe, que no auge de sua controversa representação cunhou o termo “uribismo”, viu o culto à sua personalidade ser só mais um reflexo da longa trajetória da direita no poder. Ao que parece, esse caminho deve ser prolongado.

Novo governo quer alterar acordo de paz com as Farc

Já na posse do novo presidente, Uribe foi ovacionado durante discurso feito por Ernesto Macías, seu aliado mais forte no Senado. Enquanto Duque optou por um tom conciliador, sem direcionar críticas ao legado de Juan Manuel Santos, a fala de Macías, que roubou a cena, foi dura e apelativa, citando negativamente o governo que chegava ao fim e exaltando as mudanças que podem vir sob a tutela do “poder uribista”.

O próprio partido que abraçou a candidatura de Duque o liga a Uribe. A sigla Centro Democrático, criada em 2013, tem o ex-presidente entre os seus fundadores.

De qualquer forma, ainda que em diferentes níveis de abordagem, tanto representantes do CD como Duque e Uribe, querem mexer no Acordo de Paz, que completa dois anos em novembro. Entre as mudanças, estão acabar com anistia aos guerrilheiros e instituir uma proibição de que pessoas investigadas pela Justiça possam se candidatar, dois dos principais pontos da negociação.

Além disso, o presidente, empossado no dia de 7 de agosto, também quer garantir que todo o armamento usado pela ex-guerrilha seja entregue de fato. Em agosto de 2017, um total de 8 mil armas e ao menos um milhão de cartuchos foram entregues à ONU, segundo a entidade. Mesmo com conclusão do processo, estima-se que muitos itens bélicos ainda estejam perdidos pelo continente na mão de grupos dissidentes ou do narcotráfico descentralizado.

Enquanto o mentor Uribe abomina as condições atuais da medida, o novo mentorado, com autonomia questionada, mira, ao menos no discurso, no diálogo sutil, prometendo ajustes que não façam o país andar para trás na questão da segurança. O que resta, agora, é ver qual das estratégias vai prevalecer e qual será o nível de desalinhamento dentro do novo poder.

Anistia a guerrilheiros está sendo questionada

Santos, ex-ministro da Defesa de Uribe e que também chegou ao poder pela primeira vez com a ajuda do político –, personificou a trégua entre estado e guerrilheiros. O acordo lhe rendeu até o prêmio Nobel da Paz, ainda em 2016. Após apertar as mãos do ex-líder das Farc, Rodrigo Londoño “Timochenko”, o então presidente colombiano interrompeu uma guerra civil que matou ao menos 220 mil pessoas nos últimos 50 anos; a estimativa oficial é que outros 3 mil assassinatos tenham sido evitados desde então. Apesar de refletir em uma das jornadas eleitorais mais pacíficas da história recente do país, o pacto não é consenso.

A principal razão é a anistia dada a ex-integrantes da guerrilha, responsáveis por assassinatos, perseguições e desaparecimentos, duramente criticada por Duque na campanha. Com a garantia de “perdão”, esses casos podem ser arquivados, e os acusados devem ter caminho livre na política, já que, após a pacificação, a guerrilha se tornou um partido, mantendo a sigla, mas com novo nome – Força Revolucionária Alternativa do Comum. Para tornar tudo mais turbulento, alguns membros já assumem cadeiras no congresso esse ano.

O plebiscito feito ainda em 2016, em que 50,2% da população votou de forma contrária ao acordo, mostra o quão dividido o país está frente a questão. Em meio a esse cenário e ao desejo da cúpula uribista de endurecer a relação com a antiga guerrilha, Duque entrou em cena com a promessa de ser tornar o mediador entre os extremos. A polarização foi citada diversas vezes pelo novo líder como um dos problemas a se resolver.

Violência apoiada pela direita assusta o país

“Vou governar sem ódio e sem estigmatização”. Com essa frase, uma das mais analisadas em seu discurso de posse, Duque trouxe à tona a intenção de seguir em frente. Ao menos em relação à estratégia de combate ao narcotráfico. Isso porque os anos de atuação da direita no combate às drogas fracassaram, deixando um estigma de hostilidade, enquanto o estruturado narcotráfico, o verdadeiro alvo, foi pouco combatido.

Após uma baixa na produção e no comércio de cocaína na virada do milênio, o cultivo de coca voltou a crescer 44% em 2014, pulando de 69 mil para 174 mil hectares, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. A alta não parou por aí. De acordo com a ONU, em 2016 o cultivo cresceu 52%, dado apontado pelo presidente recém-empossado.

Por meio do Programa Nacional Integral de Substituição de Cultivos de Uso Ilícito, instituído por Santos, o mercado de coca encontrou uma brecha. Em parceria com as Farc, o programa fala em erradicação de cultivos de uso ilícito, e não de cultivos lícitos – como as plantações tradicionais das folhas de coca do povo andino –, o que daria margem para as plantações ilegais continuarem.

A forma como Duque irá lidar com a questão pode ser o divisor de águas entre o novo presidente ser visto como um político com ideias próprias ou apenas um fantoche. Para fazer o discurso ponderado valer, no entanto, ele terá de se afastar do modus operandi usado por Uribe, que ficou conhecido por incentivar a presença massiva de grupos paramilitares durante quase uma década de governo. Ligados ao governo, esses grupos atuavam como justiceiros, entrando em conflito tanto com as Farc quanto com traficantes.

Nos últimos quatro anos, o senador foi acionado ao menos três vezes pela justiça colombiana para prestar esclarecimentos sobre supostas relações com o paramilitarismo. As ordens recorrentes dos tribunais contra o político resgatam tempos de violência e pouca eficácia. Para deixar ânimos ainda mais tensos, a memória da violência extraoficial retorna pouco antes da Defensoria Pública divulgar números da onda de violência armada contra ativistas sociais: 311 mortos desde 2016.

O papel de Uribe (que pode ou não ganhar sobrevida com Duque) na guerra às drogas é destrinchado no livro “There Are no Dead Here – A Story of Murder and Denial in Colombia” (ou “Não Há Mortos Aqui – Uma História de Assassinatos e Negação na Colômbia” em tradução livre), da escritora Maria McFarland Sánchez-Moreno.

Na obra, a autora relembra o histórico de mortes associado à direita e a Uribe e explica por que, apesar de seus atos, ele ainda tem crédito entre os colombianos. Como a bandeira das Farc é ainda hoje associada a movimentos revolucionários de esquerda, parte da população ainda enxerga no ex-presidente uma figura combativa, que tentou, durante o seu governo, solucionar as mazelas com punho de ferro e confrontar o legado violento do grupo armado.

Com o país polarizado, Duque dá o pontapé inicial no novo governo buscando ser uma terceira via, distante dos anos ponderados de centrismo e trégua de Santos e do desgaste associado à direita tradicional.