Em 20 de maio, o telefone de Miguel Amaya tocou. Miguel, um imigrante sem documentos que vive em Oakland, na Califórnia, aguardava ansiosamente uma ligação de sua esposa, Jhoseline, que, juntamente com a filha de 8 anos dos dois, Michelle, estava enfrentando a perigosa jornada de El Salvador até os Estados Unidos. Alguns dias antes, Jhoseline e Michelle haviam escapado de uma experiência de quase morte, trancadas na carreta de um caminhão onde elas e outros imigrantes quase ficaram sufocados depois de ser abandonados pelo “coiote” [como são conhecidos os “guias” nas travessias ilegais de fronteira] que os acompanhava.

A voz do outro lado da linha não era de Jhoseline, mas de um agente do Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro, ICE. O que mãe e filha acharam que seria o fim da jornada representou, na verdade, o começo de um novo pesadelo. Pela política de “tolerância zero” do governo Trump, Jhoseline e Michelle foram separadas no momento de sua captura. Foi a primeira vez que Jhoseline esteve longe de sua filha.

As semanas seguintes foram marcadas por angústia e desespero para a família Amaya. Enquanto Miguel tentava localizar sua filha, Jhoseline permanecia em um centro de detenção em El Paso, aguardando o retorno a El Salvador, pois um juiz havia determinado que ela não se qualificava para um pedido de asilo e assinou uma ordem final de deportação. Depois de duas semanas de busca frenética, Miguel finalmente localizou Michelle. Começou então o intimidante processo de conseguir a liberação da menina, acrescido de uma escolha nada invejável: brigar para reuni-la a sua mãe, ainda presa e com grandes chances de ser deportada, ou a seu pai, que poderia ser deportado caso acionasse o sistema.

Enquanto milhares de menores são reunidos às suas famílias, a história dos Amaya traz à tona os impactos duradouros da “tolerância zero”, mesmo depois que Michelle foi libertada para ficar com seu pai. Jhoseline, enquanto isso, continua a rezar por sua própria libertação: os advogados conseguiram reverter a ordem final de deportação e recorreram, requerendo a revisão de seu pedido de asilo. O futuro permanece incerto, mas o trauma psicológico e emocional causado a essa jovem família é visível e permanente.

Tradução: Deborah Leão