O candidato Guilherme Boulos, do PSOL, tem insistido em afirmar nos últimos debates que “o Brasil é um país rico”, que nosso problema é a desigualdade, a concentração de renda nas mãos de poucas pessoas.

O Brasil é, sim, um país com renda e riqueza altamente concentrada. Mas a afirmação de que somos um país rico é imprecisa e algo perigosa.

Em 2017, ocupávamos a oitava colocação entre as maiores economias do mundo, com um PIB na casa dos US$ 2 trilhões. À frente de países como Canadá, Itália, Coreia do Sul, Austrália, Espanha etc. Isso, no entanto, não significa que somos um país realmente rico.

Desde a obra seminal de Adam Smith “Uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações”, publicada em 1776, os economistas medem o nível de riqueza de um país em termos do nível do bem-estar de sua população. E, desde então, a medida básica é a renda per capita, resultado da divisão de toda a renda de um país, o PIB, dividido pelo número de seus habitantes. É a renda média de uma pessoa.

Quanto maior o nível de renda per capita de um país (ou de uma região), maior o nível de bem-estar médio de sua população. Tirando fora alguns países produtores de petróleo e diamante, há uma correlação quase perfeita entre o nível de PIB per capita e toda uma série de variáveis que medem o bem-estar de um povo: saúde, expectativa de vida, educação, acesso à cultura e lazer, segurança, saneamento. Ou qualquer outra variável que você possa imaginar.

Pelos dados coletados pelo Banco Mundial para o ano de 2017, são dez países com maior renda per capita: Luxemburgo, Suíça, Noruega, Islândia, Irlanda, Catar, Estados Unidos, Singapura e Dinamarca.

Renda per capita em dólares americanos (R$) de 2017

País Renda per capita (R$)
Membros da OCDE 151.575,02
Itália 126.802,00
Coreia do Sul 118.031,33
Espanha 111.737,45
Portugal 83.877,29
Uruguai 64.469,04
Chile 60.900,65
Panamá 59.874,03
Argentina 57.152,90
Brasil 38.975,24
América Latina e Caribe 36.685,48
México 35.329,87
Oriente Médio e Norte da África 29.167,34
Peru 26.079,93
Colômbia 25.007,27
Paraguai 17.324,05
Bolívia 13.468,75
Honduras 9.842,03

Fonte: Banco Mundial, com conversão para reais (cotação do dia 20/08)

A renda per capita em Luxemburgo, cuja população é de menos de 600 mil pessoas, é de US$ 104.103, ou R$ 413 mil por ano. Enquanto na Dinamarca, a última colocada nesse ranking, é de US$ 56.307,50 – ou R$ 223 mil anuais.

O Brasil, graça à crise dos últimos anos, ocupa hoje a 80ª posição, com uma renda per capita de US$ 9.821,40, ou R$ 38,9 mil. Esse valor é pouco superior ao da Malásia, que tem renda per capita de US$ 9.944.90 (R$ 39.465), e da média da América Latina, US$ 9.244.40, R$ 36,6 mil.

Ou seja, mesmo na comparação de uma região pouco desenvolvida, como é a América Latina, o Brasil tem uma renda marginalmente superior à média local.

Um brasileiro médio vive com aproximadamente 70% da renda de um argentino médio, 64% da de um chileno e com 60% da de um uruguaio.

Na América do Sul, o Brasil tem renda per capita menor que a do Uruguai, Chile e Argentina. Um brasileiro médio vive com aproximadamente 70% da renda de um argentino médio, 64% da de um chileno e com 60% da de um uruguaio. Ou seja, o Brasil precisa percorrer ainda um longo caminho para chegar ao nível de bem-estar médio de um uruguaio, de um chileno ou um argentino.

Até meados dos anos 1980, a Coreia do Sul era um país mais pobre que o Brasil. Em 1980, a renda média do coreano equivalia a menos de 90% da brasileira. Prova das dificuldades econômicas daquela região é a grande colônia de coreanos que ainda existe no Brasil, fortemente concentrada no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Mas hoje qual coreano procuraria uma vida melhor no Brasil?

Hoje, a renda per capita da Coreia é de US$ 29.742,80 (R$ 118.031,33), de forma que a renda per capita brasileira equivale a pouco mais de 30% da coreana. Se o Brasil tivesse mantido o ritmo médio de crescimento de sua renda, verificado entre 1947 e 1980, estaríamos hoje num patamar de renda superior ao da Coreia. Seríamos, enfim, desenvolvidos.

Na classificação internacional, o Brasil está no grupo dos países de renda média. Nesse subgrupo, estamos no patamar classificado como “alto”.

Não somos, portanto, e mais uma vez, um país rico.

É exatamente onde estamos fracassado. Na mais famosa das avaliações internacionais de estudantes, conhecida pela sigla em inglês Pisa, no ano de 2015, os estudantes brasileiros ficaram em 66° em matemática, 63° em ciências e 59° em leitura entre os 73 países avaliados. Nesse último critério, enquanto os alunos brasileiros obtiveram 407 pontos, os chilenos conseguiram 459 pontos.

O nosso atraso em educação tem raízes profundas. Em 1900, só 35% da população brasileira era alfabetizada, enquanto no Chile essa taxa era de 43%, de 50% na Argentina e 90% nos Estados Unidos.

Apesar dos avanços que obtivemos, especialmente a partir dos anos 1990, o nível médio da educação no Brasil é extremamente baixo.

A má qualidade de nossas instituições econômicas, por sua vez, é medida através de rankings de competividade global, como desenvolvido pelo Fórum Econômico Mundial. Esse levantamento, nos coloca na posição 81, atrás do Chile (33°), México (57°), Colômbia (61°), Peru (67°) e Uruguai (73°). O Brasil, ainda que seja um mãe para muitos ricaços, é um péssimo lugar para se abrir, operar e fechar uma empresa. E quem mais sofre com isso, como de costume, são os pequenos e médios empresários.

Não podemos cair na tentação de achar que basta dividir a renda, de forma fornecer um padrão de vida alto para nossa população.

Sobre o ambiente político, a recente crise fala e grita por si só.

Não podemos cair na tentação de achar que basta dividir a renda, de forma fornecer um padrão de vida alto para nossa população. Isso não corresponde aos números. O desafio do Brasil é aumentar a renda per capita e distribuí-la de forma mais equitativa.

Temos não só uma renda média relativamente baixa, como a dispersão dessa renda é muito grande. Isto é, a diferença entre ricos e pobres no Brasil é algo pornográfico. E essa diferença não está baseada na meritocracia, mas fundamentalmente na chamada “loteria da vida”, como explica o economista Naércio Menezes Filho.

Conforme um artigo do sociólogo Marcelo Medeiros, maior especialista do assunto no país, o 1% mais rico do Brasil abocanha 25% de toda a riqueza produzida aqui. Os 5%, levam metade de tudo. O 0,1% mais rico, 140 mil pessoas que estão no topo da pirâmide econômica, levam 10% de tudo o que se gera de riqueza no Brasil.

No Brasil, o 0,1% do topo da pirâmide têm renda anual de quase US$ 800 mil (mais de R$ 3 milhões), enquanto o 1% mais rico ganha US$ 540 mil.

Na festa do PIB brasileiro, 5% dos convidados ficam com metade do bolo.

Um trabalhador que ganha um salário mínimo, por sua vez, tem renda anual de R$ 11.448. De forma que ele precisaria trabalhar mais de 260 anos (e não gastar nenhum centavo), de forma a acumular os rendimentos obtidos em um ano pelo topo da pirâmide.

Na festa do PIB brasileiro, 5% dos convidados ficam com metade do bolo. Os 95% restante, dividem entre si a outra metade. Isso não só é imoral como prejudicial para o crescimento econômico e para o funcionamento da democracia.

Saiba, porém, que você que está lendo esse artigo, muito provavelmente faz parte do topo dessa pirâmide. Se seu salário é de R$ 3.000, você ganha mais que 90% da população brasileira.

E o problema do Brasil não é apenas a pobreza. Temos aqui ainda uma multidão de miseráveis. Miséria no sentido mais estrito e cruel do termo. Gente que vive em palafitas, sem acesso à alimentação adequada, sem saneamento básico, sem perspectivas. Em resumo, não somos um país rico, porque a renda da (maioria) dos brasileiros é baixa e somos profundamente desiguais.

O papel do presidente, como representante da sociedade, é duplo: fazer a economia crescer e distribuir seus frutos de forma igualitária.

*Alguns valores desta reportagem foram convertidos com a cotação do dólar a R$3,97, referente ao dia 20 de agosto.