A morte de Otavio Frias Filho expôs em cores vivas a crise que acomete o jornalismo diário no Brasil. Diagnosticado com câncer do pâncreas em setembro de 2017, o diretor de redação do jornal Folha de S.Paulo sucumbiu à doença em atordoantes 11 meses. Uma saída de cena com tamanha rapidez surpreenderia, obviamente, os mais previdentes editores e obituaristas.

Ainda assim, não se trata de personagem menor. Envolvido desde a adolescência no comando do “maior jornal do país em circulação e audiência”, Frias Filho entrara na história muito antes de sair da vida. Nenhum herdeiro ou diretor de conglomerado brasileiro de mídia teve relevo igual ao seu nos últimos 30 anos. Isso torna ainda mais chocante a superficialidade da cobertura de sua morte nos jornais tradicionais.

A imensa maioria dos obituários disponíveis na praça exibe, antes de tudo, uma gritante incapacidade de relacionar o diretor de redação da Folha ao contexto histórico em que viveu. Neles, Frias Filho figura como uma espécie de Hamlet relutante, que assume o jornal da família aos 27 anos e dá início a uma bem-sucedida ofensiva modernizadora contra vento e maré, apanhando pelo caminho a bandeira das Diretas.

Esquece-se, assim, que o Projeto Folha é a culminância de uma estratégia empresarial por meio da qual uma cadeia de jornais anódina e subserviente à ditadura militar tornou-se porta-voz dos anseios por redemocratização. A cautela política por trás desse plano esteve longe de ser espontânea: foi inspirada pelo próprio regime, perplexo diante da oposição intransigente do conservador O Estado de S. Paulo, dominante na maior metrópole do país.

O próprio Frias Filho contou esse episódio, em entrevista de 1997 a Alzira Alves de Abreu e Fernando Lattman-Weltman:

“Golbery [general aliado ao futuro presidente Ernesto Geisel e artífice da abertura política] delineou os rumos que eles pretendiam impor ao novo governo, falou da necessidade de uma descompressão política, enfim, expôs todo aquele ideário que se tornou bastante conhecido. Inclusive, chegou a mencionar para meu pai [Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha] – me lembro disso, pelo relato que meu pai me fez – que não era conveniente que houvesse em São Paulo só um jornal forte, em termos de peso na opinião pública, que era do interesse do governo que houvesse dois jornais.”

Abria-se assim o caminho para a série de reformas “politizantes” (termo utilizado por Frias Filho em oposição a “esquerdizantes”, preferido por integrantes do regime que viam o jornal com maus olhos) que distinguiriam a Folha nos 10 anos seguintes. É dessa época, por exemplo, a seção Tendências em Debate, na qual articulistas expõem visões diferentes, muitas vezes opostas ao posicionamento editorial do próprio jornal, sobre assuntos da atualidade. Passados mais de 40 anos da posse de Geisel e mais de 30 do fim da ditadura, essa seção continua sendo um monumento ao pluralismo numa imprensa diária que, em muitos aspectos, se recusa a sair do armário.

Na quase totalidade dos textos, omite-se o papel de Cláudio Abramo como mentor de Frias Filho no jornalismo. Foi de Abramo o toque de arejamento da Folha nos anos 1970, com escalação do melhor time de colunistas do país (Alberto Dines, Samuel Wainer, Tarso de Castro, Lourenço Diaféria) e cobertura corajosa de atrocidades como a morte do jornalista Vladimir Herzog sob tortura no DOI-Codi do II Exército. Pelo mesmo passe de mágica, desaparece a gestão de Boris Casoy, de 1977 a 1984, após o afastamento de Abramo da direção de redação.

O Manual da Folha resultou em texto tipicamente pobre.

Entre outros efeitos de ilusionismo histórico, está o esquecimento da longa (e, ao final, vitoriosa) campanha de Frias Filho contra a obrigatoriedade do diploma para o exercício profissional do jornalismo, talvez um de seus legados mais duradouros. Declaradamente voltada contra o corporativismo e os privilégios, a medida, sacramentada pelo Supremo Tribunal Federal em 2009, teve como principal efeito a precarização do trabalho nas redações de todo o país, em particular no interior.

Quase não se fala dos efeitos contraditórios do Manual da Folha, que, se por um lado reforçou a preocupação com precisão e equilíbrio, por outro resultou em texto tipicamente pobre, verdadeira maldição que assolou o jornal por anos. Outra instituição patrocinada por Frias Filho foi a figura do ombudsman, inédito na imprensa brasileira. O jornalista que tinha por dever criticar o próprio jornal de dentro, por vezes, esbarrou nos limites impostos pelos próprios interesses dos proprietários.

Assim, o veículo que um dia publicou em branco a coluna de um colaborador preso por crime de opinião e ostentou a marca de primeiro jornal processado por um presidente da República, Fernando Collor, no exercício do cargo, foi o mesmo que patenteou a vergonhosa expressão “ditabranda” para se referir ao regime liberticida de 1964 e atribuiu os protestos de junho de 2013 a “jovens predispostos à violência por uma ideologia pseudorrevolucionária”.

Nos obituários de Frias Filho, somos brindados com uma torrente de informações irrelevantes: o Grande Homem era pós-graduado em Ciências Sociais, dramaturgo e ator de teatro infantil. Melhor seria dizer por que foi importante. Isso exigiria reconhecer que Frias Filho, politicamente conservador, economicamente liberal e culturalmente sofisticado, foi um dos responsáveis pela transformação de um diário provinciano num “veículo de opinião nacional”, capaz de exibir – em seu melhor momento – rara sintonia com a pressão social por democracia, direitos e livre debate.

Em outras latitudes, essas façanhas garantiriam a uma publicação, no máximo, o título de “jornal”. Entre nós, foram suficientes para mudar a história da imprensa e do país. Não é muito, mas tampouco é mais do mesmo.