A ala oeste da Casa Branca, em Washington, no dia 1º de fevereiro de 2018.

A ala oeste da Casa Branca, em Washington, no dia 1º de fevereiro de 2018.

Foto: Mandel Ngan/AFP/Getty Images

CARO FUNCIONÁRIO ANÔNIMO DE TRUMP,

Você alega, nas páginas de opinião justamente do “falido” New York Times, que altos funcionários que trabalham para o presidente dos Estados Unidos “estão trabalhando diligentemente de dentro para frustrar partes da agenda e das piores inclinações dele”.

“Eu sei disso”, você acrescenta dramaticamente. “Eu sou um deles.”

Desculpe, mas qual era o objetivo dessa peça em particular? E o que você quer de nós? Um cartão de agradecimento? Uma salva de palmas? A gratidão eterna da nação?

Vá. Se. Ferrar.

Não há redenção. Nada de exoneração para você ou seus colegas dentro desta merda de administração. Você acha que um artigo de opinião no jornal vai resolver? Dê um tempo. Você não pode escrever um artigo admitindo os impulsos “antidemocráticos” do presidente ao mesmo tempo em que diz que quer que a administração dele “tenha sucesso”. Você não pode publicar um artigo de 965 palavras criticando as “piores inclinações” de Donald Trump omitindo toda e qualquer referência ao racismo, à intolerância, à islamofobia, ao antissemitismo e nacionalismo branco dele.

Você encontrou espaço, no entanto, para elogiar a si mesmo e a seus colegas. “Heróis desconhecidos.” “Adultos na sala.” “Resistência silenciosa.” “Governo estável.”

Você está brincando? Onde estavam seus “heróis desconhecidos” quando esta administração foi arrancando crianças de seus pais e trancando-as em gaiolas? Drogando-as e negando-lhes água para beber?

Onde estavam seus “adultos na sala” quando esta administração deixou 3 mil americanos em Porto Rico para morrer porque, aparentemente, é uma ilha “cercada por água, muita água, água do oceano”? Onde eles estavam quando o presidente estava negando que o furacão Maria era uma “catástrofe real” e jogando papel toalha para os sobreviventes?

Onde estava sua “resistência silenciosa” quando o presidente exaltava racistas de extrema direita como “pessoas muito boas” e depositava a culpa pela violência em Charlottesville em “ambos os lados”? O quanto vocês ficaram “quietos” quando, mais tarde, ele desmentiu sua denúncia indiferente e tardia dos “KKK, neonazistas, supremacistas brancos e outros grupos de ódio” como “o maior erro que cometi”?

Onde estava seu “governo estável” quando o presidente demitiu o diretor do FBI porque, ele disse à NBC News, “essa coisa da Rússia com Trump e a Rússia é uma história inventada”? Ou quando ele mandou embora Preet Bharara, advogado dos EUA para o Distrito Sul de Nova York, e Sally Yates, procuradora-geral em exercício? Ou quando ele tuitou, no início desta semana, que o atual procurador-geral, Jeff Sessions, não deveria ter indiciado dois aliados republicanos por seus supostos crimes financeiros?

A realidade é que você e seus colegas são facilitadores de Trump. Vocês são protetores e defensores dele. Você mesmo diz isso. Por que havia apenas “sussurros dentro do gabinete quanto a invocar a 25ª Emenda”, que prevê que o gabinete afaste o presidente do cargo se ele for incapaz de fazer seu trabalho? Por que não invocá-la e deixar Mike Pence assumir? (A propósito, você é Mike Pence?)

Se, como você afirma – e todos concordamos! – o presidente a quem você serve “continua agindo de maneira prejudicial à saúde de nossa república” com “impulsos mal orientados”, como você pode advogar por algo além de sua rápida remoção do cargo?

Sua defesa é de que “ninguém queria precipitar uma crise constitucional”. Sério? Você não concorda com o ex-secretário de Estado John Kerry de que já estamos no meio de “uma genuína crise constitucional”, considerando seu próprio artigo tratando do “comportamento errático” e das “decisões imprudentes” de Trump e o novo livro de Bob Woodward descrevendo “um golpe de Estado administrativo” e um “colapso nervoso” no centro da Casa Branca de Trump?

Você faz questão de lembrar aos leitores liberais do New York Times que a sua resistência “não é a ‘resistência’ popular da esquerda” e que você acredita que as políticas deste governo “já tornaram a América mais segura e próspera”. Você fala em “reforma tributária histórica” e “desregulamentação efetiva” como os supostos “pontos de destaque que a cobertura negativa quase incessante da administração não consegue captar”. Mas, por reforma tributária, você está se referindo aos cortes de impostos de Trump, que dão ao 1% mais rico dos americanos quase metade dos benefícios? E por desregulamentação, você se refere à rescisão das proteções da era Obama para os oceanos; ao fim dos controles da poluição tóxica do ar; e à luz verde para Wall Street mais uma vez causar estragos nos mercados financeiros?

Então, com o que você discorda? Bem, a mim me parece que sua maior preocupação é “não o que o Sr. Trump fez à presidência”, mas como os americanos “se afundaram com ele e permitiram que nosso discurso fosse despojado da civilidade”.

Você está brincando, né? A desonestidade generalizada, a corrupção desenfreada, o racismo descarado, o crescente autoritarismo, as acusações de conluio… nada disso encabeça sua lista de abusos e infrações de Trump? Mas a “civilidade” do nosso discurso, sim? Foda-se a civilidade.

Além disso, o que você achava que iria acontecer quando se candidatou a trabalhar para um astro de reality show que era acusado de agressão sexual por mais de uma dúzia de mulheres e de estupro pela primeira esposa? Que deu o calote em centenas de contratados, roubou alunos da Trump University, traiu sua terceira esposa poucos meses depois de ela dar à luz e cortou o plano de saúde do bebê doente do próprio sobrinho em um ataque de raiva?

Você sabia de tudo isso e ainda assim escolheu trabalhar para ele no mais alto nível de governo. Você agora reconhece que “a raiz do problema é a amoralidade do presidente”. Mas e a sua própria amoralidade? Eu odeio concordar com seu chefe, mas você é um “covarde.” Você é um covarde sem vergonha, um oportunista cínico.

Não se esconda atrás do anonimato. Não finja que você foi “muito longe” para conter Trump e “colocar o país em primeiro lugar”.

Diga-nos o seu nome. Largue seu emprego. Denuncie esse presidente em público.

Denuncie-o por sua intolerância, sua falsidade, sua absoluta incapacidade mental e emocional para o cargo que ocupa. Denuncie-o diante de uma comissão do congresso. Ou um tribunal de justiça.

Caso contrário, digo novamente: Vá. Se. Ferrar.

Atenciosamente,

Mehdi Hasan

Tradução: Cássia Zanon