Esta reportagem foi financiada por nossos leitores


Meu irmão, se liga
No que eu vou lhe dizer
Hoje ele pede seu voto
Amanhã manda a polícia lhe bater

“Você acredita no governo?”. A pergunta foi feita a nós por um traficante da facção Terceiro Comando Puro no mês passado, enquanto caminhávamos pelas vielas de uma favela do Rio de Janeiro até o local onde ele nos levaria para conceder uma entrevista. Por motivos de segurança, não podemos revelar o nome da comunidade.

A frase bem que poderia ser um verso da música “Candidato caô caô”, de Bezerra da Silva, lançada pouco depois da redemocratização do Brasil, em 1988. “Ele subiu o morro sem gravata, dizendo que gostava da raça”, alertava o cantor que era também uma espécie de consciência popular do morro.

Morto em 2005, Bezerra sabia o que cantava: os caras de terno e sorriso muito branco aparecem nas periferias de quatro em quatro anos, pedem votos, e somem. Nós pedimos autorização para filmar nas favelas, mas obviamente não foi para a prefeitura e nem para o governo do estado. Se o tráfico domina áreas inteiras do Rio e do Brasil, ele é um agente importante e precisa ser ouvido nesse momento tenso da vida nacional, em que a pobreza – simbolizada pela falta de emprego – e a segurança estão na ponta da língua dos candidatos. Os dois temas são os mais visíveis nas periferias do país.

O que é um ano eleitoral na visão das duas maiores facções do Rio de Janeiro? Fomos ouvir o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro. Como frisou José Cláudio Souza Alves, autor do livro “Dos barões ao extermínio: a história da violência na Baixada Fluminense”, “não existe poder paralelo”: essa estrutura é “parte do poder legalmente constituído.”