Nesta campanha eleitoral, o Brasil escancarou algumas práticas que deveriam repousar na história. A uma semana do primeiro turno, mais uma delas veio à tona quando alguns patrões resolveram decidir em quem seus funcionários deveriam votar para que mantivessem seus empregos.

O voto de cabresto foi amplamente utilizado há 100 anos, na República Velha, e alguns patrões seguiram mandando no voto de empregados em diferentes locais. Agora, a prática é mostrada ao vivo no Facebook, direto de um dos estados mais ricos do país, Santa Catarina.

No Brasil profundo do vale do Itajaí, quem cumpre o papel de coronel é Luciano Hang, dono da Havan. No lugar da velha propriedade rural, entra uma rede de lojas de departamento conhecida por espalhar cópias da Estátua da Liberdade em beiras de estradas.

A ameaça de Hang não tinha sutileza: o dono avisou aos funcionários que eles podem perder o seu emprego se Jair Bolsonaro não for eleito presidente. “A Havan vai repensar o planejamento. Talvez não vai mais abrir lojas”, disse o empresário em um vídeo gravado em uma sala vazia na última semana. “E aí, se nós não abrirmos mais lojas, você está preparado para sair da Havan? ”

As ameaças de Hang chegaram ao seu ápice durante o seu “movimento cívico” – como ele chamou a reunião que juntou centenas de funcionários vestidos com camisetas de Bolsonaro em filas mal organizadas. Em uma mistura de documentário de estética nazista com comédia pastelão de 39 minutos, Hang comanda seus funcionários enquanto conta porque a experiência comunista na Rússia e na Alemanha foram mal sucedidas. Nos intervalos, projetou: se a esquerda ganhar, na avaliação dele, 15 mil pessoas ligadas à Havan perderiam o emprego – prejudicando, no total, 60 mil.

É inverossímil imaginar que centenas de funcionários acordariam numa segunda-feira por livre e espontânea vontade para ouvir seu patrão falar sobre perestróica e glasnost, a abertura política e econômica da União Soviética, que ele contou ter ouvido falar em uma viagem para lá nos anos 1990. A coerção, nesse caso, não precisa sequer de ameaças veladas. A relação entre patrão e empregado nunca é simétrica e, por isso mesmo, uma mera sugestão é uma ordem.

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O vice de Bolsonaro critica o fim do 13º salário, mas o patrão promete mantê-lo.

Foto: reprodução

O Ministério Público do Trabalho considerou esses atos e vídeos ilegais, e pediu que eles sejam interrompidos imediatamente.

O caso da Havan não é o único. Em uma carta aos seus empregados, Pedro Joanir Zonta, dono do supermercado Condor, de Curitiba, elencou onze motivos para apoiar Bolsonaro. “Preservação da família” e “país sem corrupção” estão entre elas. Como razões para não votar na esquerda estão a “transformação do Brasil em uma Venezuela” e o “fim da família”.

No fim do comunicado, o empresário fez uma ameaça travestida de pedido. “Nesta carta, fica meu compromisso, com você meu colaborador hoje, de que não haverá de forma alguma, corte no 13º (décimo terceiro) e nas férias dos colaboradores do Grupo Condor. Acredito no Bolsonaro, votarei nele e peço que confiem em mim e nele para colocar o Brasil no rumo certo”, escreveu Zonta.

‘Terror psicológico’

Ainda que as práticas de Hang e Zonta remetam ao começo do século passado, hoje elas atendem pelo nome de assédio moral. Em sua acusação contra Hang, o Ministério Público do Trabalho de Santa Catarina usa um termo ainda mais claro: terror psicológico.

Os procuradores lembram que o assédio moral começa quando não se aceita quem pensa diferente. Sem permitir essa discordância, o patrão obriga que os seus funcionários se comportem de determinada maneira, ou façam coisas para quais eles não foram contratados – como ficar prostrado às dez da manhã ouvindo Hang falar de política.

Para o MPT, dessa forma Hang infringiu uma série de direitos previstos na Constituição – incluindo a “existência digna” prevista a todos os brasileiros. Por isso, eles pedem que Hang pare imediatamente a divulgação dos seus vídeos e veicule um direito de resposta “em pelo menos três canais de grande audiência da rede nacional, em horário nobre, por pelo menos três dias”.

No caso do supermercado Condor, procuradores eleitorais do estado disseram se tratar de “temor reverencial”, ou seja, o receio do empregado em desagradar o patrão. Em um período de desemprego, esse medo piora. “Quando o dono de uma grande empresa divulga a seus funcionários em quem irá votar e, ao mesmo tempo, pede ‘que confiem em mim e nele para colocar o Brasil no rumo certo’, há clara ofensa ao direito de escolha desses empregados”, disse a procuradora Eloisa Helena Machado, responsável pelo caso.

O terror também se espraiou para empresas menores, com o sinal invertido: algumas prometiam churrascos e folgas caso Bolsonaro fosse eleito. A maior promessa veio de uma gráfica em Cianorte, interior do Paraná: três dias de folga, carne e chope. Cartazes de outras três empresas também prometiam ao menos um dia de folga em caso de vitória.

Segundo apurou o jornalista Eduardo Militão, o Ministério Público Federal abriu uma investigação sobre esses casos no Paraná.

Durante essa campanha, o Judiciário se mostrou rápido em tomar atitudes que influenciam no debate eleitoral – como soltar acusações, publicar delações e até determinar a prisão de candidatos. A curiosidade, agora, é saber se ela terá a mesma vontade e rapidez para julgar esses casos.