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“Má e tem gente aqui que votou no PT?”, surpreende-se o padre Ireno Lusa, 81 anos, separando bem as sílabas e reforçando a tônica aberta de cada palavra, uma das características da fala de quem nasceu e mora na colônia italiana do Rio Grande do Sul, no coração da serra gaúcha.

Outras são modificar o som das expressões terminadas em “ão” para “ón” e pronunciar o “r” invariavelmente sem a força da letra dupla (rr), por exemplo, usando “tera” no lugar de “terra”.

Por isso, quando padre Ireno Lusa é informado que na pequena Nova Pádua, onde 82% dos 2.308 eleitores votaram em Jair Bolsonaro, houve 86 votos para o petista Fernando Haddad, ele reage assim: “Ma e como, depois de toda roubalhera, vamo votar por esses ladrón?”

A cidade concentra o maior percentual de votos para a candidatura do ex-militar de extrema-direita em todo o Brasil, título que é ostentado com orgulho pelos paduenses. “Também foi assim com o Aécio na outra eleição”, complementa a aposentada Leonice Zanotto, 65 anos, sem esconder a satisfação. De fato, em 2014, 88% dos habitantes escolheram o candidato do PSDB no segundo turno – no primeiro, o neto de Tancredo Neves conquistou 78% da preferência do eleitorado local, os maiores índices do tucano no país.

Poucos defendem sua candidatura pelas propostas. E mesmo quem conhece as propostas do candidato não vai muito além da liberação do porte de armas.

Claro que há saudosistas da ditadura entre os eleitores do capitão reformado, mas essa não é a regra: “É um pouco autoritário, tem um estilo meio dos Estados Unidos que eu não gosto muito”, avalia Leonice, que, apesar disso, votou no 17. Já Deise Bunai, dona do salão de beleza local, optou por Ciro Gomes, do PDT, por “ser mais pacificador” e “não ter demonstrado tanto ódio como da parte do Bolsonaro”, mas não tem dúvida de que apoiará o militar no segundo turno.

Poucos defendem sua candidatura pelas propostas contidas no plano de governo. E mesmo quem conhece as propostas do candidato do PSL não vai muito além da liberação do porte de armas. Um trabalhador até lembrou que ele tinha um bom programa para a educação: “hoje ninguém mais respeita o professor”, limitou-se a explicar quando perguntado qual era.

“Aqui é mais pelo antipetismo mesmo”, avisa, sem pestanejar Cristian Menegat, o jovem proprietário da Pousada e Restaurante Del Miro, que na hora do almoço atrai público variado, misturando trabalhadores das pequenas indústrias, comerciantes e produtores rurais.

À primeira vista, trata-se de uma população indignada com os escândalos de corrupção que marcaram os mandatos presidenciais de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e Dilma Rousseff (2011-2016), este último interrompido após o impeachment. Debaixo da superfície, entretanto, o desejo de ter governantes éticos e responsáveis se mistura com posições que embora encontrem justificativa na tradição desse povo – que reconhece na capacidade de trabalho talvez o maior valor do ser humano – podem cruzar a tênue linha que separa interesses legítimos do preconceito, do racismo e da xenofobia.

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Mapas: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil

Nova Pádua é um município construído entre montanhas e vales em uma alça do Rio das Antas. O território se divide entre o centro e as 12 comunidades afastadas: a mais distante está cerca de 10 quilômetros do núcleo urbano. Na zona rural, as encostas dos morros estão cobertas de parreirais, secundadas por arbustos de cítricos ou pés de rosas. Há também pomares industriais de maçãs e pêssegos, assim como extensas áreas dedicadas ao cultivo de cebola e alho.

No verão, é tempo da safra da uva. “A bordô vem antes; depois é a comum. A cabernet, que é fina, é a última a estar pronta para colher”, explica o viticultor Romeu Salvador, 68 anos, entre um gole e outro do seu bitter favorito, uma mistura de Underberg com vermute.

Romeu começou a trabalhar na lavoura aos sete anos. Leonice com 11, assim como aconteceu com a maioria dos habitantes da faixa etária deles. Hoje, o município se orgulha de atender 100% da demanda por ensino fundamental, o que não impede que às vezes seu Romeu contrate um menor para ajudar na lida com a terra – crime que já lhe rendeu algumas multas, contra as quais se revolta. “Até os 14 anos, tudo bem (não trabalhar), mas, depois disso, se ficar vadiando, cai tudo para as drogas, é só problema”, acredita.

‘Até os 14, tudo bem não trabalhar, mas, depois, se ficar vadiando, cai tudo para as drogas, é só problema.’

O exemplo é ele mesmo, que se orgulha de ter conseguido compatibilizar a escola e a lavoura por algum tempo. “Eu caminhava de pé no chão cinco quilômetros para ir ao colégio”, recorda. Grande parte dessa população idosa, entretanto, não passou do 4º ano.

O expediente “começa quando sai o sol”, vai até a hora que precisar e ignora finais de semanas, como requer a agricultura. Mesmo o açougue da cidade, que faz às vezes de bar onde Romeu e os amigos se encontram, abre sete dias por semana, das 7h às 21h – com exceção do domingo, quando fecha as portas ao meio-dia.

O empenho trouxe prosperidade para Nova Pádua, onde o padrão de vida alto fica evidente nas casas modernas e confortáveis, com jardins floridos. Nem no loteamento Jorge Baggio, uma área da cidade atrás do cemitério, considerada a periferia do município, há sinais visíveis de miséria. Segundo o IBGE, a renda média da população, de pouco menos de três salários mínimos, é uma das mais altas do Rio Grande do Sul (47ª) e ocupa a posição 325 no ranking nacional.

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Foto: Naira Hofmeister

No “loteamento”, como a população se refere ao bairro mais humilde, as ruas não levam nomes como no resto da cidade. Elas são identificadas por números entre o um e o oito, onde habitam “os trabalhadores”, ou seja, pessoas em geral vindas de outras localidades gaúchas em busca de oportunidades neste “pequeno paraíso italiano” conforme anunciado no pórtico de entrada da cidade.

Embora sejam indispensáveis para a economia local, há pouca simpatia pelos forasteiros, a começar pela crença de que é entre eles que se concentram os 86 eleitores do petista Fernando Haddad no município. “O voto para ele foi dos empregados, porque eles recebem ajuda do Bolsa Família”, acredita o dono do açougue e bar, Delvino Bunai.

O repúdio dos paduenses ao assistencialismo poderia encontrar justificativa na superação de seus antepassados, provenientes principalmente da região do Vêneto, ao norte da Itália. Em 1875, eles subiram a serra, desbravando a mata, para transformar a área em uma das regiões com maiores índices de desenvolvimento e PIB do Rio Grande do Sul. É verdade que, embora dotados de valentia e determinação, os colonos também contaram com a assistência de governos, que lhes concederam terras públicas e algumas ferramentas para o cultivo.

Um século e meio depois, é a administração municipal de Nova Pádua que brinda os habitantes com uma diversidade de programas e subsídios. Agricultores recebem incentivos para a melhoria da infraestrutura das propriedades e para o uso de máquinas e equipamentos. Aos jovens está reservada uma parcela substancial do orçamento, que cobre parte de matrículas e mensalidades no Ensino Superior. “Também asseguramos transporte gratuito até as faculdades”, observa o prefeito Ronaldo Boniatti, do PSDB. Não há universidade em Nova Pádua.

Quem frauda o Bolsa Família é, na visão dos paduenses, da mesma laia de quem processa patrão cobrando direitos trabalhistas.

O problema, portanto, não é exatamente receber ajuda de governos. Mesmo o Bolsa Família é visto por alguns como um programa necessário: “Tem gente que precisa mesmo, que não tem casa e mal e mal sobrevive”, lembra Delvino Bunai, que entretanto, desconfia que haja mal uso desse recurso, ou que ele incentive quem recebe a se manter desocupado.

Como se a corrupção fosse algo contagioso, há uma crença generalizada em Nova Pádua de que existe uma categoria de pessoas menos confiáveis e espertalhonas que se aproveitam de maneira indevida de políticas sociais, como as que marcaram os governos petistas. O governo rouba lá, os “malandros” roubam aqui.

Malandro foi um eufemismo soprado por Deise Bunai para Romeu quando ele se referiu aos “vagabundos” e logo se arrependeu: “deixa eu pensar melhor (na palavra), para não ficar feio”.

É toda uma construção que transforma eleitores do PT em “vadios que se escoram (nos outros) para não trabalhar”, como qualificou a aposentada Leonice Zanotto, que já ralou muito em fábricas de confecção antes de conseguir acumular os quatro hectares de parreira que administra e lhe garantem uma aposentadoria confortável.

Gente que frauda o Bolsa Família é, na visão dos paduenses, da mesma laia de quem processa patrão cobrando direitos trabalhistas. Em uma comunidade pequena como Nova Pádua, é muito comum contratar trabalhadores por diária, para ajudarem durante a temporada das safras, e logo dispensá-los quando a colheita termina. Alguns ingressam na Justiça do Trabalho cobrando adicionais, ou mesmo a assinatura da carteira pelo período trabalhado – coisa que não tem sentido para uma população que não reconhece as formalidades do mercado laboral.

Os processos judiciais contra os patrões são outro indício da “ética do malandro” que eles atribuem ao mal exemplo que, segundo os eleitores de Bolsonaro na cidade, é ligado ao PT. Conta seu Romeu que na época das safras, a rodoviária fica cheia de advogados dando plantão nas portas dos ônibus que levam os diaristas de volta às suas cidades. “Tem advogado demais que se formou depois do (governo do) PT e não tem emprego para tanta gente, então ficam ali na porta dos ônibus incentivando os trabalhadores a entrarem na justiça”, ele acredita.

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Foto: Naira Hofmeister

A elite de Nova Pádua é formada por pequenos e inventivos empreendedores, que comandam cooperativas, negócios agrícolas e lojas de comércio e serviço. “Não posso dizer que são conservadores. Aqui não temos grandes empresários. São pequenas fábricas, com 10 funcionários ou gente da agricultura familiar, que é dona da sua terra e trabalha administrando a produção” introduz o pároco de Nova Pádua, padre Mario Pasqual.

“E com quem se identifica o empresário (ideologicamente)?”, provoca em seguida, sugerindo uma relação classista no voto antipetista, que entretanto fica sem fechamento: “pensa, pensa aí”, cutuca, se esquivando de concluir o pensamento.

O PT não existe no município. Houve apenas uma candidatura pelo partido, em 2008.

De fato, a esquerda enfrenta dificuldades no município. Os únicos partidos com representação na Câmara de Vereadores municipal são PSDB, MDB e PP – exatamente a coligação que elegeu o prefeito Boniatti em 2016, que fez história ao unir situação e oposição (PP e MDB se alternavam no comando do executivo havia anos), concorrendo sozinho no pleito.

O PT não existe no município. Em toda a história das eleições na cidade, houve apenas uma candidatura pelo partido, em 2008, que recebeu 31 votos. Na época, ocorreu um esforço para fundar um diretório local, iniciativa de “um servidor público que se organizou para tentar concorrer”, recorda Pepe Vargas, deputado federal pelo PT e ex-prefeito de Caxias do Sul, a “capital” do pólo italiano.

“Não durou nem quatro anos”, recorda Boniatti, que, a exemplo de todos os paduenses, dá expediente maior que o comum à frente da prefeitura. Ele está em seu gabinete de segunda a sexta, das 8h às 17h30, quando o costume até em cidades grandes do Estado, é oferecer atendimento apenas em um turno do dia. Além de dedicado servidor público (ele atua no Executivo há 26 anos, foi duas vezes vice-prefeito e antes, secretário de Educação), o atual prefeito é proprietário de uma agroindústria de geleias e conservas e reclama da falta de tempo para se dedicar ao próprio negócio.

Na região, o Partido dos Trabalhadores já governou cidades grandes, como Garibaldi e Bento Gonçalves, além de Caxias, com o próprio Pepe. Eleito agora deputado estadual, o político minimiza o problema. “São antipetistas porque falam mal do partido, mas receberam muitos benefícios durante os governos Lula e Dilma. Hoje, são contra, mas amanhã podem estar a favor”, acredita, citando programas que incentivaram a aquisição de tratores para pequenas propriedades, o Mais Alimentos, de compra da produção, e o Pronasci, de segurança.

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Há muito do que se orgulhar em Nova Pádua. A saúde pública recebe entre 18% e 20% do orçamento – mais do que os 15% que obriga a Constituição. A escola também é pública, mas, como os cidadãos não estão satisfeitos com a qualidade do Ensino Fundamental, há um processo para a municipalização – o Médio seguirá sob responsabilidade do Estado, que, em 2018, só conseguiu professores para as disciplinas de Geografia e História em setembro. A prefeitura também assegura vagas na creche para todas as famílias.

A cidade é tão organizada que, enquanto um trator particular está terraplanando um terreno no centro, as equipes da secretaria de Obras já estão em ação para tirar da pista de automóveis a sujeira espalhada pelas máquinas. O asfalto impecável se estende pelas ruas da área urbana e o prefeito lembra com orgulho que todas as 12 comunidades afastadas contam com acesso asfáltico, um investimento municipal.

Talvez os paduenses se perguntem se a manutenção desse padrão seria possível caso a cidade se expandisse muito. Talvez por isso sejam tão refratários à chegada de forasteiros, a ponto de se recusarem a vender terrenos no centro para trabalhadores que consigam financiamento em programas habitacionais – para esses há o loteamento, que afinal não está tão longe assim.

Uma moradora conta que escolhe o candidato pelos quesitos ‘trabalho, segurança, confiança e por ser gringo ou italiano’.

Não deixa de ser curioso que descendentes de imigrantes manifestem resistência a quem não seja natural da localidade, embora esse sentimento não valha para todos. A família Bunai, por exemplo, veio da vizinha Antônio Prado, mas não sofre preconceito. Tampouco os funcionários públicos que chegam depois de serem aprovados em concursos tem problemas com os locais.

Mas, então, o que estará por trás da frase de Adélia Menegat Tormen, que aos 75 anos, tinha “jurado” não mais comparecer às urnas e foi obrigada a mudar de ideia pelos irmãos para “derrotar o PT”? Ela diz que quem vota no partido é “gente que não nasceu aqui, gente de fora”.

Leonice escolhe o candidato pelos quesitos “trabalho, segurança, confiança e (por) ser gringo ou italiano”. Mas o fato de “os gringos serem bem pelo Bolsonaro”, como diz Deise Bunai, não é reflexo de “preconceito com o povo mais brasileiro”, mas, sim, pela segurança e contra a corrupção, assegura. Mesmo na pacífica Nova Pádua a sensação de insegurança é crescente. Em agosto, foram duas tentativas de arrombamento de caixas eletrônicos nos bancos locais. E os comerciantes reclamam de assaltos, como o ocorrido no salão de beleza de Deise Bunai meses atrás.

Outro fator decisivo na cidade é o discurso moralista de Jair Bolsonaro: como a população é majoritariamente católica (há uma igrejinha em cada uma das 12 comunidades afastadas), o conservadorismo ainda é forte.

“A Globo é 90% responsável pela destruição do Brasil”, condena Inácio Sonda, 59 anos, neto de ex-prefeito do PP e proprietário de um comércio agrícola. Na sua ótica, a emissora “incentiva coisa que não devia” como “homem beijar homem e mulher beijar mulher”. Mas, uma vez que as telenovelas já estão abertas para essa discussão (o que parece errado, mas é irremediável), Inácio acha então que esses grupos sociais deveriam “assumir o que são e não se ofender se a gente chamar preto de preto e gay de gay”. “Eu, se me chamam de gringo burro não me ofendo. Eu assumo, sou gringo burro”, conclui.