“Chato.” Esse foi o veredicto instantâneo de Donald Trump sobre a arrasadora investigação do New York Times sobre a fraude fiscal e o nepotismo desenfreados que sustentam sua fortuna. Sarah Huckabee Sanders concordou sinceramente com isso, informando à imprensa da Casa Branca que ela se recusou a “passar por todas as linhas de uma reportagem muito chata de 14 mil palavras”.

Bem-vindo a uma nova estratégia política de relações públicas baseada na destruição da mente americana: você não quer sequer tentar ler aquele texto interminável; em vez disso, confira o meu feed do Twitter e um vídeo viral de mim dizendo coisas raivosas.

A investigação do Times, publicada como suplemento autônomo no domingo, é tão chata quanto um acidente de carro. O material é pródigo em detalhes para demonstrar que o mito da criação de Trump é e sempre foi uma obra de ficção. Não, ele não aceitou um empréstimo “muito, muito pequeno” de um milhão de dólares do pai e usou sua perspicácia de negociação para transformá-lo em um império global de US$ 10 bilhões enquanto devolvia o valor do empréstimo com juros.

Donald Trump e Fred Trump participam da festa do livro “The Art of the Deal” em 12 de dezembro de 1987 na Trump Tower, em Nova York.

Donald Trump e Fred Trump participam da festa do livro “The Art of the Deal” em 12 de dezembro de 1987 na Trump Tower, em Nova York.

Foto: Ron Galella/WireImage/Getty Images

Trump vem consumindo ininterruptamente dinheiro da fonte do pai desde que ele usava fraldas, tendo se tornado milionário no ensino fundamental. Segundo o Times, ao final, “Trump recebeu o equivalente hoje a pelo menos US$ 413 milhões do império imobiliário de seu pai, começando quando era uma criança pequena e continuando até hoje”. Além disso, “muito disso jamais foi pago de volta”. Quanto ao resto da mitologia, não apenas ele estava gastando o dinheiro do pai, como jogou muito dele fora em um negócio desastroso depois do outro. Apenas para ser resgatado pelos milhões do pai todas as vezes.

Em vez de se dar ao trabalho de negar isso tudo, Trump e seus defensores simplesmente criaram um novo mito da criação. Não mais o empreendedor desligado e responsável pelo próprio sucesso, Trump está sendo reencarnado em tempo real como o filho escolhido, com ele e o pai atuando como parceiros na criação de riqueza. “Em uma coisa, a matéria acertou”, disse Sanders, claramente lendo anotações, “ela mostrou que o pai do presidente realmente tinha uma grande confiança nele. Na verdade, o presidente trouxe muitos negócios ao pai, e os dois ganharam muito dinheiro juntos. Tanto que seu pai passou a dizer que ‘tudo em que [Trump] tocou virou ouro’.”

Essa mudança é mais significativa do que pode parecer inicialmente. Depois de alguns anos confraternizando com monarcas sauditas e a rainha Elizabeth II, o presidente parece pronto para abraçar sua verdadeira identidade como herdeiro de uma dinastia que não construiu sua fortuna sozinho, mas que é, em vez disso, o produto de uma família especialmente abençoada que passa um toque mágico através das gerações.

O que torna as revelações do Times mais importantes é que elas são uma rara janela para uma história ainda maior sobre o crescente papel político e econômico do dinheiro herdado nos Estados Unidos – a culminação de décadas em que um punhado de herdeiros e herdeiras travou uma feroz e implacável batalha de ideias contra o próprio conceito de igualdade e governo da maioria, todos baseados na mesma crença corruptora em sua própria superioridade inerente.

Trump pode ser o mais alto perfil de tais herdeiros a exercer poder político, mas ele jamais teria chegado onde está sem o andaime ideológico cuidadosamente colocado em prática por outros descendentes de famílias dinásticas – dos falecidos John M. Olin e Richard Mellon Scaife, nos anos 1980 e 1990, a Charles e David Koch e Rebekah Mercer nos dias de hoje. Foram essas as figuras-chave que bancaram as “think tanks”, financiaram os programas universitários de livre mercado extremo e financiaram as tropas de choque do tea party (a ala mais conservadora dos republicanos) que levaram o Partido Republicano tão à direita que Trump conseguiu invadi-lo e agarrá-lo.

Foi o projeto deles que criou um falso consenso quanto à necessidade de desregulamentação radical dos mercados e o desmantelamento de proteções ambientais, da redução de impostos corporativos e a eliminação do “imposto sobre a morte” – e pagando por tudo com o desmantelamento desses tais direitos. Foi um esforço que sempre exigiu o aproveitamento do poder emocional do racismo (pense em “rainhas do bem-estar social”), bem como a construção paralela de um sistema altamente racializado de encarceramento em massa para armazenar os pobres (e lucrar com eles, é claro). A presidência de Trump – não importa o populismo econômico que ele tenha bradado na trilha eleitoral – é a personificação quase perfeita dessa agenda.

Uma boa porção de excelente jornalismo investigativo foi dedicada a rastrear o dinheiro por trás dessa vasta guerra de classes, mais notavelmente por Jane Mayer em seu indispensável “Dark Money: The Hidden History of the Billionaires Behind the Rise of the Radical Right” (Dinheiro sombrio: a história oculta dos bilionários por trás da ascensão da direita radical). Mayer demonstrou que, embora figuras como os Koch sejam extremamente ideológicas, as políticas impulsionadas por essas famílias ricas também beneficiam diretamente seus resultados. Regulamentos mais frouxos, impostos mais baixos, sindicatos mais fracos e acesso irrestrito aos mercados internacionais tendem a fazer isso.

Muito menos atenção, no entanto, tem sido dada às implicações de grande parte desse financiamento, proveniente não apenas de pessoas insondavelmente ricas, mas de pessoas nascidas assim. E, no entanto, é impressionante que as figuras no centro da campanha não fossem economistas da escola de Chicago, nem a maioria deles líderes de negócios responsáveis pelo próprio sucesso que houvessem se erguido com seus próprios recursos. Eles eram, como Trump, príncipes mimados cujas fortunas lhes haviam sido dadas pelos pais.

Os irmãos Koch foram criados com luxo e herdaram as Indústrias Koch do pai (que montou sua fortuna construindo refinarias sob Stalin e Hitler). Scaife era um herdeiro das fortunas da Gulf Oil, da Alcoa Aluminium e do Mellon Banks e cresceu em uma propriedade luxuosa ao ponto de ser povoada por pinguins de estimação. Olin assumiu a empresa de armas e produtos químicos do pai.

E assim vai, até Betsy DeVos, que foi criada pelo bilionário Edgar Prince e se casou com a fortuna da Amway – e que tem dedicado a vida a desmontar o ensino público, agora de dentro do governo Trump. E não vamos nos esquecer de Rupert Murdoch, que herdou uma cadeia de jornais do pai e está no processo de entregar seu império de mídia aos filhos. Ou a relativamente recém-chegada Rebekah Mercer, que pegou um pedaço da fortuna do fundo de hedge de seu pai Robert para financiar a Breitbart News, entre outros projetos de estimação. Em suma, essas pessoas são senhores e mestres de Downton Abbey, atuando como heróis de Ayn Rand.

Claro que alguns bilionários que cresceram por conta própria, como Sheldon Adelson, também ajudaram a financiar a revolução à direita. Mas, quando se trata da batalha de ideias – os investimentos cuidadosos em programas acadêmicos pró-negócios em universidades de elite, os think tanks de extrema direita, a mídia barulhenta e agora o aproveitamento de big data e o “aprendizado automático” em campanhas políticas republicanas – não há como exagerar o papel da riqueza herdada.

Donald Trump e o pai, Fred Trump, na abertura do Wollman Rink em Nova York, em 6 de novembro de 1987.

Donald Trump e o pai, Fred Trump, na abertura do Wollman Rink em Nova York, em 6 de novembro de 1987.

Foto: Dennis Caruso/NY Daily News Archive via Getty Images

Descendentes por esforço próprio

Vale a pena fazer uma pausa em relação a este fato, porque em um país com uma mitologia meritocrática tão poderosa quanto os Estados Unidos, os herdeiros de grandes riquezas muitas vezes têm uma relação bastante complicada com suas fortunas. Alguns gastam tudo em iates e projetos de vaidade. Alguns se tornam determinados a se provarem aos pais expandindo seus impérios. Alguns dão quase toda a sua riqueza para a caridade. Alguns a escondem de todos que conhecem. Alguns raros tentam usar sua riqueza para construir uma economia mais justa e uma ecologia menos tóxica.

Mas o que deve ser preciso para se despejar grandes parcelas de uma fortuna que chegou até você por acaso, pelo nascimento, em uma campanha implacável de mais ação afirmativa para os ricos?

Como exatamente alguém racionaliza ser erguido por uma complexa rede de suportes familiares e sociais (tutores, escolas preparatórias, conexões nas melhores universidades, cargos executivos de nível de entrada, capital para brincar) e, em seguida, se preparar para retalhar a fina rede de segurança disponível para aqueles sem sua boa sorte? Como você se convence de que, apesar de ter recebido tanto, você não apenas tem razão como está sendo justo ao atacar as “doações” recebidas por mães solteiras que trabalham em dois empregos? Como é que, sabendo que a fortuna da sua família se beneficiou de enormes subsídios do governo (empréstimos para moradia baratos para os Trump, subsídios de petróleo para os Koch e os Scaife, contratos diretos de armas para os Olin), você se ressente de pagar o mesmo imposto que seus funcionários?

Qual é a teoria, a visão de mundo, que justifique tudo isso? E como isso moldou a mais ampla revolução de “livre mercado” paga por esses homens – uma cruzada que acaba de atingir um novo nível de impunidade com a ascensão de Brett Kavanaugh, um produto desse mesmo mundo de privilégios ilimitados, para a Suprema Corte?

Você pode afirmar ser um criador de riqueza, claro. Mas como não criou a riqueza você mesmo – mas a herdou –, são necessárias outras razões para que você mereça ainda mais, enquanto outros devem receber muito menos. É aí que surgem ideias ainda mais feias, sobre a superioridade inerente, sobre um maior merecimento que aparentemente flui de ser um membro de uma família particularmente boa, com melhores valores, melhor criação, uma religião melhor ou, como Trump costuma dizer, “bons genes“.

E, é claro, o lado ainda mais sombrio é a convicção muitas vezes implícita de que as pessoas que não compartilham desse tipo de boa sorte devem possuir os traços opostos – elas devem ser defeituosas em corpo e mente. É aqui que as políticas raciais e de gênero cada vez mais selvagens do Partido Republicano se fundem perfeitamente com seu projeto econômico radical de estratificação de riqueza. Convencidos de que as pessoas pertencem onde estão na escala econômica e social, o partido pode continuar redistribuindo a riqueza para as famílias dinásticas que financiam seu movimento, ao mesmo tempo em que chutam a escada para longe dos que tentam alcançar os degraus mais baixos.

Nesse contexto, os “perdedores” (o insulto preferido de Trump, voltado desproporcionalmente para os não-brancos e não-homens), não apenas podem ser despojados de cupons de alimentação e assistência médica e deixados por mais de um ano sem telhados em Porto Rico, como também são alvos aceitáveis ??para todos os tipos de degradações, quer seja terem seus filhos enjaulados em campos de internamento no deserto ou ter suas experiências de agressão sexual ridicularizadas em arenas abertas.

A última parte desta equação é o que Trump está oferecendo à sua base: o nascimento deles jamais os recompensará com algo como as centenas de milhões derramadas sobre os Trump. Mas eles estão sendo convidados a compartilhar seus próprios direitos de nascença, ainda que mais modestos, como americanos brancos de classe média. Eles estão sendo convidados a fazer parte da equipe vencedora, “pegando nosso país de volta” de todos e quaisquer invasores e ameaças, de imigrantes pegando “nossos” empregos a mulheres contando histórias prejudiciais contra “nossos” filhos.

Essa é a grande barganha: Trump consegue reivindicar completamente sua herança descendente de riqueza e sua base consegue reivindicar sua herança como cidadãos brancos de uma nação patriarcal cristã. Ah, e como as famílias reais por quem ele está tão enamorado, Trump recompensará seus súditos leais com um fluxo interminável de espetáculos e apresentações divertidas. Ele ainda não fez sua parada militar, mas pense nos comícios ritualísticos de Trump e no reality show constante como versões mais crassas da pompa real e das intrigas do palácio. O direito divino dos reis foi substituído pelo direito divino da riqueza – e são os dois são extremamente parecidos.

Nada disso deveria ser surpreendente. Qualquer sistema marcado por acentuadas desigualdade e injustiça requer uma narrativa de justificação. A selvageria colonial e o roubo de terras exigiram a doutrina da descoberta, do destino manifesto, terra nullius e, outras expressões da supremacia cristã e europeia. O tráfico transatlântico de escravos, da mesma forma, exigiu um sistema intelectual e legal baseado na supremacia branca e no racismo “científico”. O patriarcado e a subjugação das mulheres demandou uma arquitetura de teorias ainda mais pseudocientíficas sobre a inferioridade intelectual e a emotividade femininas.

Sem essas teorias – e os advogados, cientistas e outros especialistas que deram um passo adiante para lhes dar crédito –, as injustiças de todos esses sistemas teriam sido insustentáveis. Nosso atual sistema de desigualdades cada vez mais grotescas não é diferente. A mitologia da elite que cresceu por esforço próprio costumava funcionar como a justificativa para o fosso de riqueza dos Estados Unidos e a rede de segurança puída.

Os ultrarricos nos Estados Unidos há muito insistem que construíram seus impérios com suor e inteligência, ao contrário de seus irmãos aristocráticos na Grã-Bretanha e na França e, portanto, são mais merecedores deles. No centro dessa história, estava a ideia de que qualquer um com inteligência e motivação poderia fazer o mesmo, já que não havia um sistema de classes arraigado que os impedisse. (Na versão trumpiana dessa história, você poderia ser igual a ele se comprasse seus livros sobre como enriquecer e sua “universidade” fraudulenta enquanto estudava os episódios de “O Aprendiz”).

“Nós gostamos de fingir que jamais houve uma classe dominante escurecendo uma costa americana ou dançando à luz de uma lua americana”, comentou em uma ocasião o ex-editor da Harper, Lewis Lapham.

Isso nunca foi verdade. O sistema político americano começou como uma barreira de proteção para homens brancos proprietários, concedendo direitos inalienáveis ??a uma minoria às custas diretas de africanos e mulheres escravizados. Propostas sérias para nivelar o campo de jogo – de um sistema de escolas públicas verdadeiramente integrado a salários justos para o trabalho doméstico – foram esmagadas repetidas vezes.

Enquanto isso, como o próprio Trump, muitos dos homens hiperbem-sucedidos que orgulhosamente vestem o manto de serem “self-made” estão em profunda negação sobre quanta ajuda receberam de suas redes familiares e sociais. Kavanaugh, um membro da elite americana, se não é ultrarrico, é um exemplo disso. Durante as audiências no Senado, resmungou que entrou na Faculdade de Direito de Yale “dando duro”, insistindo que “não tinha conexões lá”. Nenhuma conexão, exceto que seu avô estudou em Yale, o que significa que Kavanaugh muito provavelmente não conseguiu entrar apenas por ter conseguido fazer o dever de casa com uma ressaca terrível, mas também porque ele era um excelente candidato para um ingresso “de legado”.

Um trecho do anuário de Brett Kavanaugh em Yale. Algumas informações pessoais foram editadas para fins de privacidade.

Um trecho do anuário de Brett Kavanaugh em Yale. Algumas informações pessoais foram editadas para fins de privacidade.

Foto: Casa Branca

A verdade é que muitos filhos de famílias de elite desfrutam de todos os tipos de proteções não reconhecidas que tornam o fracasso um esforço hercúleo. Na infância, notas ruins são corrigidas com caras aulas particulares (e, se necessário, escolas militares ou internatos corretivos). Nas principais universidades da Ivy League, inflação desenfreada de notas é um segredo mal guardado, com alunos ricos frequentemente apresentando reclamações bem-sucedidas contra professores e estudantes de pós-graduação que ousam dar a eles algo menos do que um “A”, não importa o quanto seus trabalhos sejam medíocres. Na idade adulta, as apostas de maus negócios são resolvidas com dinheiro e conexões familiares. Em Wall Street, é o governo que intervém para salvar as apostas imprudentes, já que as chances são de que seu local de trabalho seja grande demais para fracassar.

Nada disso é para dizer que os muito ricos são preguiçosos ou levam vidas livres de dor. Muitos trabalham sem parar (assim como os trabalhadores pobres, em condições inimaginavelmente mais difíceis). Além disso, as instituições de elite – escolas preparatórias, fraternidades, sociedades secretas – tendem a construir seus próprios rituais brutais de trote. Os principais escritórios de advocacia e bancos de investimento corporativos submetem novatos a horários extenuantes e os colocam impiedosamente uns contra os outros em busca de bônus e promoções.

Dentro de famílias com grandes fortunas em jogo, irmãos são igualmente colocados uns contra os outros pelo controle dos maiores prêmios. Então, Trump se formou como um “matador” para derrotar o irmão mais velho, Fred, na disputa pela preferência do pai. E, como Mayer relatou, os três irmãos mais novos de Koch realizaram um julgamento simulado acusando o irmão mais velho (também chamado Fred) de ser gay, para que ele renunciasse à sua participação na fortuna da família.

Tudo isso faz parte de um processo de treinamento e doutrinação testado pelo tempo destinado a endurecer os filhos frágeis do privilégio, para que eles estejam prontos para serem tão ferozes quanto seus pais. Mas sobreviver a esses julgamentos de elite muitas vezes convence pessoas como Donald Trump, Charles Koch e Brett Kavanaugh de que eles estão onde estão apenas porque trabalharam duro.

O presidente e CEO do Citadel Investment Group, Kenneth Griffin, testemunha no Capitólio em Washington, D.C. em 13 de novembro de 2008, na audiência da Supervisão da Casa e Reforma do Governo sobre "fundos de hedge e o mercado financeiro".

O presidente e CEO do Citadel Investment Group, Kenneth Griffin, testemunha no Capitólio em Washington, D.C. em 13 de novembro de 2008, na audiência da Supervisão da Casa e Reforma do Governo sobre “fundos de hedge e o mercado financeiro”.

Foto: Kevin Wolf/AP

O fracasso é para os outros

Isso me lembra uma palestra que certa vez ouvi de Kenneth Griffin, um gerente de fundos de hedge bilionário em Chicago, que na época estava aflito com um plano de Obama para aumentar os impostos. Falando a um grupo de estudantes universitários de elite sobre sua ascensão a uma enorme riqueza, ele contou uma história sobre como sua família lhe dera algum capital para abrir um fundo de hedge em seu dormitório em Harvard (onde tantas histórias de superação parecem começar) com um satélite para receber dados de mercado em tempo real. Ele confessou aos estudantes que essa primeira incursão no negócio não correu bem, que ele de perdeu muito dinheiro de outras pessoas. Felizmente, porém, ele recebeu ainda mais capital inicial, pôde recomeçar, e foi aí que começou sua ascensão para ser o que é hoje: o homem mais rico de Illinois.

Perguntado por um aluno sobre como enfrentou os tempos difíceis, o bilionário que “cresceu por conta própria” respondeu: “a América é incrivelmente indulgente com o fracasso”.

O que mais me impressionou na época, foi que Griffin parecia genuinamente acreditar no que estava dizendo – que um país em que milhões estão a apenas uma doença de não terem onde morar e que, naquele momento, tinha 2,3 ??milhões de pessoas na prisão, “seja incrivelmente indulgente com o fracasso”. Ele tinha convicção de que sua experiência pessoal de ser repetidamente salvo por sua própria rede pessoal de segurança familiar era uma experiência americana universal – e isso permitia que ele lutasse para reduzir seus impostos e destruir ainda mais a rede de segurança com o que parecia ser uma consciência limpa.

Chuck Collins, herdeiro de uma fortuna familiar que abriu mão dela para combater a desigualdade arraigada, escreveu recentemente sobre os riscos morais que surgem quando tantas pessoas poderosas, de Trump a Kavanaugh, se enganam sobre o quanto foram ajudados. “Se eu acredito que o sucesso é baseado inteiramente em coragem pessoal”, escreveu ele para a CNN, “por que deveria pagar impostos para que outra pessoa possa ter um início comparável ao meu – com educação na primeira infância, acesso a serviços de saúde e de saúde mental de qualidade e ensino superior de baixo custo?”

Por que, realmente? E por que apoiar qualquer forma de ação afirmativa quando se está em negação sobre todo o apoio extra que lhe trouxe aonde você está hoje?

Existem ainda outros riscos morais que resultam dessa negação –  perigos que colocam sociedades inteiras em risco quando esses homens excessivamente confiantes assumem o poder. Porque se a sua experiência é a de que, toda vez que você tropeçar, você se recupera como que por magia, então você estará muito mais propenso a aumentar a aposta da próxima vez, convencido de que você e os seus certamente ficarão bem no final, como sempre aconteceu.

Então, por que não se recusar a regular derivados? O mercado corrigirá a si mesmo. Por que não derramar esse lixo tóxico em um rio? A solução para a poluição é a diluição, certo? E por que não invadir o Iraque? Certamente será um “cakewalk”, ou uma moleza. E já que estamos falando nisso, por que não ignorar década após década de alertas de cientistas do clima nos dizendo que se não tivermos as emissões sob controle, ficaremos sem tempo? Vamos lá, não seja tão negativo, certamente a tecnologia nos salvará, certamente tem sido ótimo para a Uber.

Fiz uma TED talk sobre essa mentalidade há uma década chamada “Addicted to Risk” (viciados em riscos), e se você quiser saber aonde tudo isso leva, dê uma olhada no novo e angustiante relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima da ONU, lançado no início desta semana.

Porque agora a coisa toda está se desfazendo. As apostas imprudentes estão por vencer – econômica e ecologicamente. E a mitologia do esforço próprio também está se desfazendo. É por isso que Trump não está se dando ao trabalho de se defender – tudo ficou óbvio demais para negar. Há dinheiro demais se acumulando nos mais altos escalões econômicos. Poucas famílias – como os Walton e os Cargill – estão ocupando lugares demais na lista da Forbes 400.

Em 2012, a United for a Fair Economy publicou um relatório sobre o papel da riqueza herdada nessa lista. Descobriu-se que “40% dos integrantes da lista da Forbes 400 herdaram um ativo considerável de um membro da família ou cônjuge e mais de 20% herdaram riqueza suficiente para integrar a lista. Além disso, 17% dos 400 da Forbes têm membros da família na lista”.

Há sinais de que o papel da riqueza herdada só aumentou desde então. Isso porque os ativos mantidos pelos já ricos – no mercado imobiliário, no mercado de ações e nos lucros corporativos diretos – estão crescendo a uma taxa significativamente mais alta do que a economia geral e os salários dos trabalhadores, que estão estagnados.

Este foi um dos principais insights do livro “O capital no século XXI”, de Thomas Piketty:

“Sempre que a taxa de retorno sobre o capital é de maneira significativa e duradoura acima da taxa de crescimento da economia, é praticamente inevitável que a herança (de fortunas acumuladas no passado) predomine sobre a poupança (riqueza acumulada no presente). A riqueza originada no passado cresce automaticamente mais rapidamente, mesmo sem trabalho, do que a riqueza resultante do trabalho, que pode ser economizada.”

Isso é agravado pela bem-sucedida cruzada dos descendentes dos ultrarricos para reduzir os impostos corporativos e de renda e reduzir o “imposto sobre a morte”, que costumava diminuir significativamente as fortunas passadas de uma geração para a seguinte. E então, como Collins aponta, há a cumplicidade e a criatividade de escritórios de advocacia e contabilidade que se tornam cada vez mais hábeis em esconder trilhões de riqueza de um imposto de renda escandalosamente cúmplice. (Collins chama isso de “barreira de proteção da dinastia”.)

Sob Trump, que tanto lucrou com todas essas barreiras, os potes de riqueza que são passados ??dentro das famílias estão prestes a transbordar ainda mais. Entre os muitos favores da lei tributária de Trump, os primeiros US$ 22,4 milhões presenteados de pais para filhos estão isentos do imposto sobre heranças. (“Conta fiscal final inclui imensa vitória no imposto sobre imóveis para os ricos”, anunciou uma eufórica manchete da Forbes em dezembro passado.)

É de surpreender que, à medida que a economia muda – com a própria ideia de meritocracia sob permanente ataque tanto pelos novos monopólios tecnológicos que reprimem a concorrência quanto pelo crescente poder da riqueza dinástica –, estejam surgindo as piores histórias que racionalizam níveis insustentáveis ??de desigualdade?

A correspondente do 60 MINUTES Lesley Stahl entrevista o presidente eleito Donald J. Trump e sua família na casa deles em Manhattan, em 11 de novembro de 2016.

A correspondente do 60 MINUTES Lesley Stahl entrevista o presidente eleito Donald J. Trump e sua família na casa deles em Manhattan, em 11 de novembro de 2016.

Foto: CBS via Getty Images

Riqueza e destino

Estas são as teorias que sustentam que os ricos e poderosos merecem a sua parte desequilibrada não principalmente por causa do seu trabalho árduo, mas por causa da sua identidade – a família em que nasceram, a sua (imaginada) genética superior, os seus valores supostamente elevados e, claro, sua raça, religião e gênero. Dentro da lógica desta história, o sucesso não vem porque você foi regado com privilégios. Você foi regado com privilégios porque é melhor.

Há alguns anos, Jamie Johnson, um dos herdeiros da fortuna da Johnson & Johnson, entrevistou outros membros de sua rica corte para o filme “Born Rich” (Nascidos ricos) e sua continuação, “The One Percent” (O 1%). Ele observou que, enquanto estava se esforçando para compreender por que merecia receber tanto dinheiro só por ter completado 21 anos, “Para algumas pessoas com quem conversei, a desigualdade é fácil de entender. É preordenada”.

Pessoas como Roy O. Martin III, presidente e CEO da Roy O. Martin Lumber Company, sediada na Louisiana, que anteriormente foi dirigida por seu pai e seu avô. Martin disse a Johnson: “Se você herdar dinheiro, você pensa ‘por que consegui tudo isso e outra pessoa é pobre?’ Bem, Deus tem uma razão para isso. Deus nunca vai lhe dar algo com que você não possa lidar”. Ser rico, ele continuou, significa que “Deus deu a você muitos ativos para administrar”.

Collins me disse que encontrava com frequência essas teorias supremacistas nos círculos endinheirados em que cresceu e nas conversas em torno do imposto imobiliário – “e está acontecendo mais à medida que nos tornamos mais desiguais”. Em alguns casos, as pessoas ainda estão genuinamente convencidas de que trabalharam por todo o dinheiro que possuem. Mas embora isso obviamente não seja o caso, diferentes justificativas estão surgindo. “Eles respondiam que ‘nossa família é merecedora. Temos melhores valores que passamos adiante ou uma ética de trabalho diferente.” E, às vezes, Collins me disse, essa autojustificação desliza para um território mais perigoso. “Ouvimos que é tudo genética. Ou que ‘nossa saúde é melhor’ ou ‘temos mais energia’.”

Apenas ideias como essas podem ajudar a justificar a paixão de evitar impostos sobre uma pilha de riqueza que foi passada por quatro gerações. Você precisa acreditar que há algo intrinsecamente superior em sua família. E mesmo que não seja dito, você também precisa acreditar no corolário – de que há algo inerentemente inferior nas pessoas que se beneficiariam desses impostos. Assim como você merece seu lugar não conquistado no topo, os outros devem merecer seus lugares abaixo – eles são “hombres ruins”, vêm de “países de merda” e assim por diante.  Ainda mais fáceis de abusar, deportar e até torturar.

De fato, se você foi criado com uma narrativa de sua própria especialidade e excepcionalidade, pode estar inclinado a acreditar que todos os tipos de coisas são seu direito divino. Você pode acreditar que tem direito a uma nomeação vitalícia na Suprema Corte, apesar de jamais ter julgado um caso. Pode acreditar que tem o direito de se tornar presidente, apesar de ter um armário cheio de esqueletos e nenhum histórico de serviço público.

E, em alguns casos, você pode se sentir no direito de fazer coisas contra pessoas que não façam parte do seu clube restrito – seja forçando uma mulher a levar a cabo uma gravidez que ela não escolheu, seja agarrando corpos de mulheres sem o consentimento delas. Ou fazer o que for preciso para calar uma mulher – seja uma mão sobre a boca ou uma história de “pegar e matar” na National Enquirer.

O senso de direito de Trump a quantidades imensas de riqueza herdada e poder político não é algo que seus seguidores, em sua maioria de classe média e classe trabalhadora, têm o privilégio de compartilhar. Mas isso deixa de lado um ponto importante: em tempos de ebulição como o nosso, o pensamento supremacista é contagiante. Quando as elites satisfazem suas piores crenças sobre seu direito divino de continuar ganhando, elas gotejam, dando a seus partidários a licença para assumirem seu próprio status de superioridade imaginada – sobre qualquer um que pareça suficientemente indefeso.

Esta é uma visão de mundo intensamente hierárquica que é completamente confortável para uma minoria que toma decisões para a maioria em um sistema eleitoral fraudulento, assim como não sente necessidade de conciliar duas visões de justiça totalmente diferentes – “inocente até ser provado culpado” quando se trata do pedido de emprego de Brett Kavanaugh e, como Trump disse em uma reunião de chefes de polícia na segunda-feira, “parar e revistar” para qualquer um visto como um possível criminoso em Chicago (código óbvio para uma pessoa negra andando na rua). Isso não é visto como uma contradição: há simplesmente duas classes de pessoas: nós e eles, vencedores e perdedores, pessoas que merecem direitos e todos os outros.

Ao abandonar sua imagem de homem que cresceu por conta própria e abraçar a nova identidade de filho escolhido, aquele com o toque de ouro, Trump está sinalizando que acha que sua base está pronta para abandonar toda a ideia não apenas da meritocracia, mas da própria igualdade – e nós definitivamente precisamos prestar atenção.

Você pode ver os efeitos dessa degeneração moral no trabalho na própria família do presidente: Trump ao menos sentiu alguma vergonha sobre sua colher de prata, e por isso ele construiu sua identidade, ainda que ridiculamente, como sendo um “self-made man”. Ele sabia que sua riqueza seria menos impressionante se admitisse o quanto havia herdado.

Mas seus filhos não têm esse escrúpulo de mentir e, assim como os príncipes da coroa dos emirados do petróleo e os descendentes “principescos” dos principais representantes do partido comunista Chinês, eles parecem se deleitar em seu status como herdeiros de um trono. Todos ganharam notoriedade como atores coadjuvantes em “O Aprendiz”, e todos construíram suas reputações unicamente em torno de ser “um Trump”, como se apenas o nome desse algum poder mágico e os tornassem parte da capacidade do pai de transformar tudo o que toca em ouro.

Assim, Ivanka e Jared assumiram alegremente o controle de grande parte do governo dos EUA, apesar de não terem experiência relevante e jamais terem sido eleitos para nada. E quando Eric e Don Jr. anunciaram no ano passado que estariam abrindo uma cadeia de hotéis boutique, o nome que escolheram foi de fato revelador. A cadeia de hotéis se chamaria “Scion”, ou “descendente”: uma celebração desafiadora dos herdeiros ociosos das famílias dinásticas, se alguma vez houve um. Parece que o fundo fiduciário estabelecido está cansado de fingir que fez por merecer sua boa fortuna e está pronto para reivindicá-lo abertamente pelo que é: um direito de nascença.

À medida que mais e mais riquezas herdadas são passadas, isentas de impostos, de uma geração a outra, podemos esperar ver muito mais dessa falta de vergonha.

Tudo isso foi predito. Quase dois anos atrás, Trump realizou sua primeira entrevista na televisão após as eleições de 2016. Foi para o programa “60 Minutes”, e ele alinhou toda a família em cadeiras douradas parecidas com tronos. Esse deveria ter sido o nosso primeiro indício de que o capitalismo americano estava entrando em um novo estágio: a Era dos príncipes mimados.

Tradução: Cássia Zanon