O brasileiro votou em Jânio Quadros porque estava cansado da corrupção, votou em Fernando Collor porque estava cansado da corrupção, votou em Jair Bolsonaro porque estava cansado da corrupção. A corrupção que nos acompanha desde sempre é o maior cabo eleitoral de candidatos que se apresentam como antissistema e antipolítica, mesmo que sejam, eles mesmos, parte da mesma geléia moral que dizem combater. Jair Bolsonaro, apoiado por grandes meios de comunicação, por empresários milionários e por pastores poderosos é um candidato do sistema. Uma ponta diferente do sistema que costuma eleger políticos no Brasil. Mas, ainda assim, do sistema.

A campanha de Jânio, em 1960, talvez tenha sido a mais parecida com a de Bolsonaro: Jânio cobrava a moralização da administração pública e queria varrer os corruptos – sua música de campanha falava em uma “vassourinha” que faria o serviço. O “Brasil moralizado” que Jânio tentou implantar regulou o tamanho do maiô das candidatas à miss, a exibição em anúncios na TV de maiôs e peças íntimas de uso feminino e até o uso dos biquínis nas praias. Moralismo sobre a sexualidade. Alguma semelhança com Bolsonaro? Jânio admitia que o Brasil tinha crescido nos anos anteriores, mas falava – enfatizava – que a crise e a corrupção estavam destruindo a nação. Sim, muitas semelhanças com a campanha de Bolsonaro.

Bolsonaro passou anos viajando o país e ouvindo seus lamentos em meio à crise. Como nunca teve problemas em dizer barbaridades, foi inteligente em colher as barbaridades alheias e se tornar um megafone estridente de impropérios. Sim, há gente no Brasil que prefere um filho morto do que gay – e, para cada uma das frases que saem de sua boca, estejamos certos, há gente para aplaudir ou, no mínimo, relevar – entre os exatos 55% do eleitorado que o elegeu no dia de hoje. Bolsonaro é um de nós sem os freios do superego.

Mas a onda anticorrupção surfada pelo candidato não seria tão alta sem alguns fatores. O primeiro deles é óbvio: a corrupção existiu nos governos petistas e segue existindo no governo Temer. Desde 17 de março de 2014, primeira fase da operação Lava Jato, o país acompanha o desenrolar dos casos como uma novela com horário para começar, todas as noites, nos telejornais. E aqui não importa a avaliação interna que o Partido dos Trabalhadores tem sobre si – “são casos isolados, não somos o único partido corrupto” etc. O que importa é a percepção das pessoas sobre o PT. E a maioria delas queria Lula preso em janeiro e quer que ele siga preso hoje. As pessoas associam o PT à corrupção. O PT ignorou a voz do povo e imaginou que uma população amedrontada pela insegurança e que deseja redução da maioria penal, aumento de penas, endurecimento das condições do cárcere e fim de “privilégios”, como a progressão de pena, fosse votar em um… preso.

Gleisi Hoffman, atuou mais como advogada de Lula do que como cabo eleitoral de Haddad.

Fernando Haddad, em campanha, falou sobre os erros do PT, mas já era tarde. A pauta anticorrupção caiu no colo da direita enquanto o PT insistia em não sentar frente a frente com seus antigos eleitores, gente que confiou no partido e que queria apenas um sinal de que aquilo tudo não se repetiria. A maioria das pessoas que elegeu Bolsonaro não é fascista, e são as mesmas que votaram no PT nas últimas quatro eleições. Ninguém ganha nas urnas sem a classe média.

Mas o partido preferiu gastar mais energia na defesa de Lula do que na reconciliação possível com a população. A defesa judicial do ex-presidente – que é legítima e deve ser levada às últimas instâncias, como faria qualquer condenado que se julga inocente – foi misturada com a campanha de modo catastrófico. A presidente do partido, Gleisi Hoffman, atuou mais como advogada de Lula do que como cabo eleitoral de Haddad, muitas vezes atravessando o samba de quem pensava em votar no PT, mas não achava certo usar o mandato para dar um indulto ao ex-presidente. Em determinado momento, o partido pediu nas redes sociais que as pessoas votassem por Lula (#VotePorLulaVote13). Alguém sem emprego, alguém com subemprego, alguém que teve que deixar os estudos por falta de dinheiro… você consegue imaginar que essas pessoas votariam “por Lula”?

No meio do caminho, o PT queimou aliados porque não aceitava deixar o protagonismo. Zé Dirceu falou em “tomar o poder”. Lula soltou carta na última semana de campanha detonando a imprensa. Todas pareceram apenas energia desperdiçada que poderia ser usada na desconstrução de Bolsonaro e no fortalecimento de Fernando Haddad, um bom nome que pode apontar para o futuro do partido, mas que foi jogado na cova dos leões.

 O fim da internet

A mudança que sentimos na internet brasileira durante essa eleição pode ser comparada àquela vivida pelo blogueiro iraniano Hossein Derakhshan. Em 2015, depois de seis anos na prisão, ele tentou reativar seu blog de sucesso e notou que as redes sociais haviam destruído tudo. Escreveu ele:

“As pessoas costumavam ler meus posts cuidadosamente e deixar vários comentários relevantes, e até mesmo aqueles que discordavam de mim voltavam sempre para me ler. Não tinha Instagram, Snapchat, Viber ou WhatsApp. Em vez disso, existia só a web e, na web, havia blogs: o melhor lugar pra encontrar pensamentos alternativos, notícias e análises.”

Bolsonaro vai criar sua própria imprensa.

A destruição da internet foi terminada este ano durante o período eleitoral. Candidatos usaram uma máquina organizada de distribuição de “notícias” em massa, a maior parte delas, enlatados com histórias pela metade, ou apenas mentiras em estado bruto. As fake news, que vinham mostrando força na web desde o impeachment, completaram o serviço em 2018. Pode-se dizer que ajudaram a eleger Jair Bolsonaro em alguma medida, mesmo que isso não explique a derrota do PT.

Estamos perdidos em bolhas de algoritmos cada vez mais decisivos. Ficamos dez horas por dia plugados na rede. A vida digital de muitos de nós já é maior do que a que vivemos lá fora, e nossos afetos estão quase todos no zap. Planos limitados de dados fazem com que a gente se informe sem clicar em links, sem ler nada além das manchetes. Viramos um arquipélago de ilhas surdas.

Em 2006, quando vivíamos o auge dos blogs e da utopia de que a internet seria o celeiro do jornalismo independente, eu não acreditaria que em 2018 a estética e o lema seriam usados por um dos maiores espalhadores de lixo digital do país, como o site Folha Política, que foi banido do Facebook. Hoje, esse e outros sites não são apenas uma realidade: eles influenciam milhões de pessoas e deverão ser premiados pelo presidente eleito com verbas estatais. Descontente com a imprensa que o investiga justamente, Bolsonaro vai criar sua própria imprensa.

Todo o caos fértil que a rede nos pareceu em meados dos anos 90 e depois, toda aquela libertação dos meios tradicionais nos anos 2000, se transformou em um engenho de algoritmos no qual nós somos os animais a empurrar a roda. Animais que votam com a cabeça entupida de desinformação.

 A direita venceu a guerra cultural

Você provavelmente desdenha do filósofo Olavo de Carvalho, mas ele venceu. A ideologia olavista de que a esquerda brasileira dominava a narrativa cultural para se impor politicamente encontrou eco em uma nova geração de jovens votantes que, por natureza, são antiestablishment. E quem foi o establishment brasileiro na última década e meia? O PT. Some isso à corrupção e à crise e temos uma geração de alunos dos cursos de Olavo de Carvalho que passam o dia repetindo suas platitudes pela internet, muitas delas em consonância total com as ideias de Bolsonaro.

A estratégia da direita para vencer a guerra cultural passou por algumas etapas. A principal delas foi forjar ou importar escândalos pré-fabricados e falsas polêmicas. Uma delas: “A esquerda defende a pedofilia”. Militantes de direita fizeram a mesma “acusação” absurda contra progressistas nos Estados Unidos. No Brasil, até mesmo a nadadora Joanna Maranhão, uma vítima de pedofilia, foi acusada de defender pedófilos.

A exclusão das pessoas “menos letradas” do debate público por parte da esquerda ilustrada afastou o eleitorado.

Outra polêmica fabricada que conquistou parte do eleitorado é a crítica à lei Rouanet. Eu fiz um cálculo pra mostrar o quão pequena é essa pauta em termos de orçamento público: o custo anual da Rouanet equivale a uns 5 anos de cafezinho nos órgãos federais. Bolsonaro conseguiu usar um espantalho como cavalo de batalha, e todo mundo caiu.

Há uma coisa que deve ser aprendida com o olavismo: a exclusão das pessoas “menos letradas” do debate público por parte da esquerda ilustrada afastou o eleitorado. A marcha bolsonarista que venceu as eleições começou no oeste do Brasil, nos rincões povoados de gente que não tinha “nível” para saber o que era uma pessoa transgênero ou que não entendia por que ciclovias deveriam ser priorizadas em vez de políticas de emprego. Elas encontraram abrigo no YouTube da direita.

A imprensa perdeu

É preciso também falar sobre a insistência da imprensa em conversar só com a elite intelectual. Sobre o linguajar complicado, a profusão de jargões, as matérias escritas para serem elogiadas pelos colegas jornalistas, para terem lugar cativo nas newsletter de iniciados, e para serem ignoradas pela população em geral. Esse sistema perdeu, foi humilhado por memes e notícias falsas. A separação antiga entre “jornalismo e opinião” – como se não pudesse haver “jornalismo” mentiroso e “opinião” informativa e embasada – perdeu o sentido. Porque não importa o que nós, jornalistas, achamos sobre esses velhos cânones, o que importa é a percepção das pessoas.

Estabelecer uma ligação com elas, daqui para frente, requer outro tipo de abordagem. De que adianta tentar se mostrar isento praticando jornalismo declaratório que, no fim, é totalmente parcial? O jornalismo que só faz repetir o que alguém disse será ainda mais usado como instrumento de propaganda daqui para frente. Não é mais possível construir uma manchete em que Bolsonaro acusa o PT de fraude nas urnas sem dizer que ele não tem provas.

Só 10% dos jovens confiam na imprensa. As pessoas não diferenciam artigo de reportagem e isso passou a ser irrelevante em um mundo de guerra cultural onde a regra é a mentira. Isenção e honestidade não são sinônimos, é perfeitamente possível se mostrar isento sendo desonesto, assim como é possível assumir a defesa de um princípio com a espinha ereta. O que o jornalismo precisa é de posicionamento claro, de transparência com o público e de um discurso honesto capaz de ser simples e convincente. O jornalismo precisa parar de fingir que não é parte do jogo e que existe só para “reportar os fatos”. Isso pode até parecer isento, mas é desonesto. A julgar pelas declarações de Bolsonaro – se ele não mentiu para seus eleitores – teremos anos pesados pela frente. É preciso tomar pé disso.